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Literary review of the psychiatric and psychological sequelae of torture

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4.1 Literary review of the psychiatric and psychological sequelae of torture

Foi nos bailes da vida ou num bar Em troca de pão

Que muita gente boa pôs o pé na profissão

De tocar um instrumento e de cantar Não importando se quem pagou quis ouvir

Foi assim ...

Iniciei minha carreira, como educadora, na educação infantil. Não demorou muito para eu perceber que eu não sabia nada, que tudo que havia estudado naqueles quatro anos pouco me valiam para eu dar aula. Assistia e repetia o que as outras professoras faziam. Era uma “fazeção”8 de coisas, umas coisas para serem exibidas, vazias de sentido para as crianças e também para mim. Por não saber para onde ir, eu ia para onde o vento tocava, ou seja, era um barco sem destino e o vento que soprava o levava para qualquer lugar. Essa experiência, hoje me faz lembrar o que li em Tardif (2004, p.86)

O início da carreira é acompanhado também de uma fase crítica, pois é a partir das certezas e dos condicionantes da experiência prática que os professores julgam sua formação universitária anterior. Segundo eles muita coisa da profissão só se aprende com a prática, pela experiência, tateando e descobrindo, em suma, no próprio trabalho.

Apesar da falta de sentido, estas vivências e experiências fizeram com que eu percebesse que algo estava errado. Havia um vazio, uma angústia, uma comodidade que incomodava. Durante os quatro primeiro anos, foi uma ‘papagaiada’9, só repetia o que as outras professoras faziam e falavam. Na

escola em que eu trabalhava existiam as “panelas”10: quem mandava, quem

obedecia, quem se mostrava, quem se escondia, quem aparecia, quem era ofuscada pelo brilho das demais. Sempre houve quem ditasse as regras e nem

8 Fazeção é fazer muitas coisas sem pensar nos objetivos, sem reflexão alguma, fazer por fazer.

9 Papagaiada palavra que significa repetição de coisas e palavras sem sentido.

10 No vocabulário usado dentro das escolas, panelas são grupos – de composições variadas (de professores ou de funcionários ou ainda, de professores e funcionários – que se unem com objetivos comuns e/ou afinidades.

sempre era quem estava na direção oficial da escola. De novo me lembro de Tardif (2004) quando li que:

O saber dos professores é plural e também temporal, uma vez que, (...) é adquirido no contexto de uma história de vida e de uma carreira profissional. (...) dizer que o saber dos professores é temporal significa dizer, inicialmente, que ensinar supõe aprender a ensinar, ou seja, aprender a dominar progressivamente os saberes necessários à realização do trabalho docente. (p.20) (...) do ponto de vista profissional e do ponto de vista da carreira, saber como viver numa escola é tão importante quanto saber ensinar na sala de aula (p.70)

Não demorou muito para eu perceber que aquele espaço era público enquanto instituição burocrática, porém era privado nas falas e nas ações que eram ali desenvolvidas. Na verdade a escola era uma continuidade dos lares daquelas mulheres, que diziam: - “meus alunos, minha classe, minha escola”. Não havia trabalho coletivo naquele contexto, havia a disputa pelo pequeno poder e as atividades eram mostradas com fins exibicionistas e para demarcar o território.

Sabia que tudo estava errado, porém, era perigoso discordar, era preciso “desconstruir”, mas a minha formação inicial e minha pouca experiência não permitiam saber “o que colocar no lugar”. Foram necessárias mudanças políticas para que as coisas mudassem. Perseguição política – vestígios fortes, ainda, da recém findada ditadura – fizeram com que as professoras e diretora fossem remanejadas para outras escolas (desmanchando articulações políticas). Nesse período fui chamada a assumir uma sala na rede pública estadual. As mudanças eram significativas: mudei de escola na rede municipal de educação infantil e assumi uma classe de alfabetização na zona rural na rede pública estadual.

Pânico total. Como se alfabetiza uma criança? Comecei a atuar na rede estadual no mês de agosto de 1994 com uma turma de alfabetização. Tive sérios problemas de relacionamento, pois, os alunos queriam a professora que iniciou o ano, eram crianças de primeira série, apaixonadas pela primeira professora e eu cheguei lá para por fim em tudo. Pior ainda: olhava para os cadernos dos alunos e não entendia como a professora estava alfabetizando.

Ouvia dizer que a moça era “construtivista”. Fui procurar saber o que era isto, nas primeiras leituras e informações fiquei logo interessada no “método”, afinal, eu sempre quis fazer diferente.

O meu primeiro contato oficial com o tal construtivismo aconteceu no ano posterior àquele em que assumi a sala na rede estadual. Inscrevi-me num curso de educação continuada na Diretoria de Ensino. Fiquei entusiasmada com a possibilidade de fazer diferente. Queria aprender sobre o que estava no auge da educação naquele momento. Era diferente, contagiante, ousado, fazer o que muitas tinham medo de fazer, aquilo sim era considerar a criança enquanto ser pensante. Pois, de acordo com Telma Weisz (1999):

Uma proposta didática baseada na concepção de aprendizagem como construção – para terem valor pedagógico e serem boas situações de aprendizagem – deve reunir algumas condições e respeitar alguns princípios onde: a) os alunos precisam por em jogo tudo o que sabem e pensam sobre que se quer ensinar; b) os alunos têm problemas a resolver e decisões a tomar em função do que se propõem produzir; c) a organização da tarefa pelo professor garante a máxima circulação de informação possível; d) o conteúdo trabalhado mantém suas características de objeto sociocultural, sem se transformar em objeto escolar vazio de significado social. (p.65,66)

Estava diante de uma proposta desafiante que necessitava de um maior entendimento, portanto, de aprofundamento teórico. Daquele momento em diante não deixei mais de estudar e de me atualizar. Conciliei educação infantil e educação fundamental por dois anos consecutivos. Desgastei-me muito, não tinha muito tempo para pensar no preparo das aulas, tinha minhas filhas ainda pequenas, então, decidi exonerar o emprego de professora de educação infantil da rede municipal em meados de 96. Nesse mesmo tempo, no início do ano de 1997 saí da zona rural, na rede estadual, e vim para a zona urbana numa escola de periferia na cidade de São Carlos, onde estou até os dias atuais. Voltei ainda no ano de 2000 para a rede municipal, então para lecionar na educação de pessoas jovens e adultas.

Atuando na educação de pessoas jovens e adultas consegui fazer diferente. Notei, sem muito esforço, a concepção infantilizante que era utilizada nesta modalidade de ensino. As professoras atuantes no ensino fundamental durante o dia complementavam suas jornadas com o EJA à noite. Isto fazia

com que elas – na maior parte – trouxessem para o noturno os conteúdos e as atividades aplicadas para as crianças durante o dia. Portanto, o que eu percebia era adultos sendo tratados como crianças nas aulas. As atividades eram desconectadas de suas realidades, seus conhecimentos pouco valorizados e seus contextos ignorados.