Um bom projecto arquitectónico é aquele que, segundo George Henri Rivière, contempla: flexibilidade dos espaços interiores, modularidade da arquitectura e extensibilidade da mesma (Riviere:1989, 335), ou seja, presume-se que uma boa arquitectura deverá considerar a flexibilidade como um critério de enquadramento de todo o processo e das inerentes opções do projecto, podendo ser aferida por diversos aspectos práticos, dos quais se destacam: possibilidade de reconversão ou expansão interna, apoiada em infra-estruturas e soluções construtivas facilmente adaptáveis e/ou ampliáveis; simplicidade construtiva; adaptação de soluções de compartimentação modulares e reversíveis e esquema de circulação interna, contando com o uso de trajectos alternativos e variantes. Devem ainda considerar-se as normas técnicas para a melhoria de acessibilidade dos cidadãos com mobilidade condicionada aos edifícios (Dec.-Lei nº. 123/97 de 22 de Maio).
A Biblioteca à semelhança de outras instituições culturais públicas não deve responder a modelos pré-definidos de projectos, e podemos mesmo dizer que consideramos inconsequente estandardizar previamente modelos, sendo que cada um deles deve ser encarado como um protótipo irrepetível, adequar-se ao meio onde está inserida, ao público que vai servir, às características das colecções que há-de albergar, e às actividades que vai desenvolver. Os alçados do edifício cujas funções sejam culturais devem ser antes de tudo estéticos e perceptivos “ofereciendo unas proporciones de alzado y zona urbana exterior que sea orgánica com respecto a la escala humana” (Leon:1985, 206), As fachadas devem procurar integrar-se no conjunto, conviver com ele, procurando não a espectacularidade ou grandes efeitos cénicos, mas antes humanizar-se (Leon:1985, 206).
No edifício da Biblioteca Municipal ora em análise, aprecia-se em particular a integração harmoniosa na rua, a facilidade de movimentação no seu interior, a plasticidade na apropriação individual. Ele é, por assim dizer, um espaço aberto e de continuidades.
Os alçados principais da BM (fl.D,1,2), orientados a norte e sul respectivamente, enquadram- se na tipologia vigente e mais vulgar da casa urbana em Almeida, quer na distribuição dos módulos quer na tipologia, sugerindo uma casa sobradada de dois pisos, escada interior, e evidente dicotomia funcional entre os pisos visivelmente marcados pela distribuição dos vãos que se distribuem verticalmente alinhados em três módulos para a fachada sul (fl.2) e dois para a norte. É de assinalar que a porta carral de lintel curvo no alçado norte (fl.1) é já um produto novo que nada tem que ver com a típica casa de Almeida, mas antes com um edifício que teve em determinada altura que se adaptar a um novo uso (quartel de bombeiros) elemento esse que o novo projecto “teve” que incorporar. Ambos os alçados são chãos sem ressaltos e as molduras dos vãos vazadas sobre o reboco, tal qual a casa comum de Almeida. Neste seguimento, conclui-se que os alçados do edifício em questão cumprem os seus objectivos, a fisionomia da fachada procura, portanto, relacionar-se e aproximar-se do utilizador, tentativa visível no tocante à ligação entre os aspectos físico e sociológico que esta impõe se se entender que a arquitectura poderá suscitar no visitante o aconchego e o
conforto de uma casa de habitação, ao invés de um edifício distante e frio, destinado apenas a fins culturais. Todavia, se uma primeira análise nos leva a pensar que a organização externa dos alçados se reflectem automaticamente no interior como seria expectável, um olhar pelas plantas faz-nos surpreender: o aspecto de casa de habitação que podia resultar internamente num espaço excessivamente compartimentado, com percursos pouco claros e funcionais, demasiado restritivo, resultou em edifício clean, desafogado, e muito dinâmico.
Através da análise das plantas baseadas no módulo rectangular de dimensões amplas e longitudinais, percebemos um espaço, flexível e que permite agradáveis sensações, e evita o cansaço que a geometria linear pura podia provocar61 (Rico:2001, 214). A estrutura ondulante do interior, tal como a variação do pé direito, principalmente no piso 1, que na realidade é um meio piso, incute movimento ao percurso e embora recorra no essencial ao sistema tradicional de construção, a hábil conjugação dos materiais e soluções transforma os espaços amplos em pequenos módulos. No interior, foram utilizados materiais neutros e pálidos tanto para paredes, como para o mobiliário e pavimentos; relativamente a estes últimos, as policromias foram variando consoante o espaço em causa, atribuindo-se uma cor ao espaço de circulação do público, e outras diferentes para a sala infanto-juvenil, adulto e espaços de uso interno. “Los tons neutros – beijes, blancos, cremosos, rosados, verdáceos e azulados, son los mas tradicionales y adaptables, tanto a la retina como al contenido” (Leon:1986, 251). Discorrendo sobre as plantas dos 3 pisos podemos observar uma adequação funcional relativamente às áreas destinadas ao utilizador com evidente conformidade espacial ao nível dos percursos verticais traçados ou seja, o projecto da BMMNR embora radicado numa preexistência soube pensar e equacionar os espaços para especificidade próprias, optando-se pela adaptação orgânica e plástica, mediante soluções abertas e arejadas consonantes com a nova missão das BPs: um espaço aberto sem paredes, voltado para a sociedade que a evolve. O complexo é constituído por três pisos (-1, 0, 1) sendo os dois primeiros reservados ao utilizador e o terceiro enquanto áreas de acesso reservado apenas ao pessoal da biblioteca e de uso interno.
Atente-se agora nas seguintes designações, adoptadas para a definição de espaços: a) Espaços Públicos de Livre Acesso62:
• Atendimento (piso 0)
• Sala Polivalente (piso 0)
• Sala Adulto (piso 0)
• Espaço Multimédia (piso 0)
• Espaço Leitura (piso 0)
• Postos de Internet (piso 0)
• Periódicos (piso 0)
61 Um módulo rectangular de dimensões amplas e longitudinais, pode tornar um espaço flexível e
conseguir uma agradável sensação e evitar o cansaço que a geometria linear pura provoca. (RICO: 2001, 304 e 313); (LÉON:1986, 214-5).
• Sala Infanto-Juvenil (piso -1)
• Espaço de Leitura (piso -1)
• Postos de Internet (-1)
• Sala do Conto (piso -1) b) Espaços reservados63:
• Depósito (piso -1)
• Serviço de recepção e registo (piso -1)
• Controlo Técnico e Servidor (piso 1)
• Gabinete de apoio técnico (piso 1)
• Gabinete do Bibliotecário (piso 1)
• Sala de reuniões (piso 1)