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Por volta dos anos de 1950, famílias destas comunidades passavam a época da safra da pescaria morando na restinga ou na ilha do Tubarão. Neste local, a comunidade construía ranchos ou caiçaras (espécie de cabana construída com troncos e palhas de carnaúba) para serem utilizados por todos, tanto para servir de apoio as atividades de pesca, quanto para passar o dia de lazer. Segundo Silva (2004, p. 11) “o povo desta comunidade sempre foi apegado a seu chão, porém não se apropriava ou acumulava, nunca se preocupando em legalizar suas terras, tudo era partilhado como bem comum”.

Na década de 1990, um pescador que não era natural da região, mas residia ai, construiu um rancho na restinga e mudou-se para lá com a família. Em 1995, este pescador começou a falar para os moradores da comunidade que a restinga tinha dono e ele era o vigia (espécie de guardião da propriedade privada).

Em 1996, foi registrado um incêndio na costa, onde dois ranchos foram queimados: o de Dona Lelé e o de Ribinha. No local do incêndio, havia marcas de pneus de carro. Algumas pessoas de Diogo Lopes atribuem este sinistro à ação criminosa de “uns italianos”, que haviam passado pela comunidade no dia anterior. O crime revoltou a população que se rebelou, criando forte rejeição a esses “italianos”. Através de várias manifestações de

protesto, entre elas a manipulação de cartazes em passeatas, onde se liam palavras de ordem de combate à ação do incêndio. Neste período, alguns moradores pintaram muros da cidade com frases contra a presença desses estrangeiros naquela comunidade, dificultando, ao máximo, o que essas pessoas queriam fazer. Este fato foi noticiado pela mídia.

Figura 30 – Notícia do incêndio em Diogo Lopes, em que se confirma a resistência social das Velhas Mulheres.

(Recorte do Jornal de Natal, de 25 de março de 1996).

O escritor Getúlio Moura nos informa que o município de Macau tem registro de ter vivido uma história marcada por incêndios. Os primeiros registros desses sinistros são datados de 1860, quando um grande incêndio destruiu o primeiro prédio do povoado construído em 1825, onde estava guardado um grande fardo de algodão; em 1908, o altar mor da Igreja Matriz construído em madeira foi destruído; em 1956, foi a vez do salão nobre da Câmara Municipal que funcionava no segundo pavimento do prédio da Prefeitura, este incêndio foi

apagado com a participação eficiente dos escoteiros; em 1966, o prédio da CCN – Companhia Comércio e Navegação, e mais uma vez, o grupo de escoteiros teve participação ativa para debelar o incêndio; em 1977, mais dois incêndios ocorreram em um curto intervalo de tempo, destruindo os barracos comerciais da Praça Cap. José da Penha e do lado sul do mercado público, todos construídos de madeira, cheios de tecidos, calçados, miudezas, comidas etc., deixando arruinados seus proprietários; em 1982, queimaram a Biblioteca Pública, quando foi extinto um valioso acervo literário. Comentou-se que a documentação contábil da Prefeitura era guardada na Biblioteca. A causa destes incêndios foi atribuída a problemas nas instalações elétricas. (MOURA, 2005, p.151).

Em Diogo Lopes, no entanto, os moradores não se conformaram com os incêndios dos ranchos e procuraram, a partir de sua própria percepção do fato criminoso, agir em retaliação, especialmente contra os estrangeiros que circulavam na região. Fizeram, como por exemplo, o controle do transporte de barco. Cientes de que pessoas “de fora” necessitariam dos barcos para se deslocarem até a costa, um grupo de pessoas da comunidade foi conversar com cada dono de barco do lugar, solicitando a estes que negassem ajuda àqueles visitantes, devido às suspeitas que tinham contra eles. Assim, ocorreu que, atentos à presença e intenção desses “italianos”, membros da comunidade boicotaram a solicitação de um barco com a finalidade de fotografar a restinga, nenhum dono de barco se disponibilizou a transportá-los. Um grupo de mais ou menos 50 pessoas acompanhava de longe, na intenção de impedir que qualquer pescador indeciso transportasse os “italianos”.

Estes fatos foram contados por moradores do lugar, nos primórdios desta pesquisa, quando começamos a participar do cotidiano da comunidade, na preparação dos Encontros Ecológicos. Percebemos, com este tipo de comportamento, que a comunidade iniciava, nos idos de 1990, uma campanha de mobilização preservacionista.

Dona Lelé, uma senhora de 62 anos, conhecida na região por sua liderança na comunidade e atuação solidária, convenceu os indecisos e registrou um boletim de ocorrência, na Delegacia de Polícia Civil, denunciando o ataque aos ranchos. A população buscou a Delegacia do Patrimônio da União, a Capitania dos Portos, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) e a imprensa escrita, na tentativa de ser ouvida para proteger sua sociedade e cultura.

Esta mesma comunidade requereu o uso da tribuna da Câmara dos Vereadores de Macau/RN e ali fez desta denúncia, uma atitude política. Este ato provocou profunda consternação aos vereadores que promoveram, no dia seguinte, uma sessão extraordinária na própria comunidade para tratar o fato. Nesta ocasião, a população da comunidade estava quase toda presente, o que demonstra a crescente mobilização local.

Desses fatos nasceu o desejo em alguns moradores de garantir a área para a população. Buscando informações em órgãos públicos ligados ao meio ambiente e ao patrimônio público, a população desta comunidade começou a ouvir falar em APA (Área de Preservação Ambiental) e passou a sonhar em criar uma APA na Ponta do Tubarão.

Figura 31 – Imagem aérea da região em processo de assoreamento pela carcinicultura em Diogo Lopes, fazenda de cultivo de camarão na comunidade de Sertãozinho, atualmente desativada.

No final de 1999, o Rio Grande do Norte passou a produzir camarão em cativeiro, em grande escala, promovendo uma verdadeira febre desta cultura. A comunidade tornou-se, novamente, alvo da cobiça de empresários descomprometidos com o meio ambiente. Alguns carcinicultores (produtores de camarão em cativeiro) destruíram uma área de quatro hectares de manguezal nativo na área de Sertãozinho, devastando mangue, removendo dunas e derrubando quixabeiras seculares, a fim de construir viveiros para o cultivo de camarão.

Figura 32 – Denúncia de crime ambiental - Trabalhadores abrindo canais em Diogo Lopes.

(Recorte de Jornal do Arquivo do Padre Murilo).

Assim, a população das comunidades, sentindo-se ameaçada, mobilizou-se e percorreu, novamente, os caminhos da denúncia. Dessa vez, além do Instituto Brasileiro do

Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), procurou também o Instituto de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte (IDEMA), além das emissoras de televisão.

Em janeiro de 2000, a população encontra trabalhadores abrindo canais para a construção de viveiros de camarão. Após fotografar tudo, esta população elaborou um documento de reivindicação, um abaixo assinado, com 522 assinaturas, em nome de 14 entidades de representação comunitária com sede em Barreiras e Diogo Lopes, e deu mostra do seu estado de vigilância permanente, em favor de sua comunidade.

Figura 33 – Primeira página do Abaixo-Assinado elaborado pela Associação de Desenvolvimento Comunitário de Diogo Lopes em defesa da região.

Este documento foi encaminhado ao IDEMA, solicitando a criação de uma Área de Preservação Ambiental (APA) na região. A população buscou o apoio da Procuradoria da República, através do Procurador dos Direitos do Cidadão e da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Segundo alguns discursos apresentados por moradores nos Encontros Ecológicos, neste primeiro momento de organização, a comunidade não estava completamente coesa em torno desta causa. Alguns moradores preocupados em garantir o peixe (no rio e no mar) e os caranguejos (no mangue), para manterem seu modelo de pesca artesanal, desejavam a Reserva; outros, devido às promessas de emprego e renda, que uma forma de empreendimento industrial na região pudesse trazer, estavam indecisos. As pessoas mais atuantes dessa comunidade procuraram apoio de pessoas de fora, para acelerar o processo de criação desta APA e, ao mesmo tempo, esclarecer os indecisos. Elas entendiam como promessas essas melhores condições de vida e que a verdadeira riqueza estava ali, diante de todos.

Nesta luta, a comunidade conheceu a Sra. Marlúcia Elias de Farias, bióloga da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte (EMPARN) que, em visita a um amigo morador da Reserva, teve conhecimento da luta dos pescadores através de um encontro com o líder comunitário, Sr. Luiz Ribeiro da Silva (Itá) que lhe solicitou apoio. A Sra. Marlúcia, reconhecendo o dilema que aquela população enfrentava: entre emprego e renda e o desejo preservacionista, propôs, como solução, a criação de uma Unidade de Conservação.