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A partir de 1840 os requerimentos se intensificam. Neste ano, além de solicitações para “festejo de figuras, arbustos e fogo artificial” e de barracas com “divertimentos graciosos” para a Festa do Divino Espírito Santo que se realizava no Campo da Aclamação, Gregório Corelli e Cia faz nova solicitação (21/05/1840): “mostrar ao público as novidades de bichos vivos e algumas vistas de cosmorama na festa da páscoa do Espírito Santo”. A chamada ‘novidades de bichos vivos’ deveria ser uma exibição de um microscópio solar, que neste ano também entrou no rol dos requerimentos, três meses antes: em 08/02/1840, Vicente Savi, solicitou à Câmara licença para apresentação do “instrutivo e útil espetáculo dos fenômenos de um microscópio solar” em sua residência na Rua do Ouvidor, n.87 (AGCRJ, Códice 43-4-9, fls. 13, 31 e 44).

A requisição de Corelli para exibição dos dispositivos em uma festa pública deve ser ressaltada. A festa no Campo d’Aclamação já acontecia nos anos anteriores mas esta parece ser a primeira vez que contou com a exibição dos divertimentos ópticos. Abre-se um novo espaço para a exibição dos dispositivos, o que foi seguido por outros exibidores da época, possibilitando a um maior número de pessoas conhecer o divertimento.

Além disso, Corelli foi um dos empresários do período que permaneceu mais tempo no ramo dos divertimentos ópticos (de 1835 a 1856, segundo os requerimentos analisados) possuindo estabelecimento para exibição e também apresentando os dispositivos em festas de rua. Da maior parte dos exibidores foi encontrada apenas uma requisição, seja para abertura de estabelecimento ou exibição em festa ou rua. Alguns exibidores, entretanto, permaneceram com as exibições por mais tempo. Além de Corelli verificamos os seguintes registros: Thomas Galino exibiu um Cosmorama de 1834 a 1841 em estabelecimento e pelas ruas da cidade; Francisco Parassolo solicitou exibir seu Cosmorama em estabelecimento nos anos de 1834 e 1835; Estevão Fernandes exibiu seu Cosmorama na festa do Campo d’Aclamação em 1842, 1843 e 1848 (além disso foi sócio de Corelli em algumas outras exibições); João Fortes exibiu um Cosmorama em 1842 e 1843 em duas distintas festas religiosas; João Rigazzi solicitou exibir um panorama em 1874 e novamente em 1880. Num universo de cerca de mais de 40 exibidores ao longo do século XIX, seis empresários mais organizados no ramo parece um número pequeno. Entretanto, considerando que a esfera pública e os espaços de lazer e divertimento eram recentes na cidade, podemos afirmar que o trabalho destes exibidores contribuiu significativamente para uma expansão do ramo dos divertimentos ópticos na cidade.

No mesmo ano de 1840, Charles Ethegonjen solicita (para a mesma festa do Campo d’Aclamação) “abrir uma barraca volante, na qual exibirá um teatrinho, com toda a pompa e asseio, e nelle se representará as passagens da recreação física, prestigios e outros divertimentos graciosos para o respeitável público se divertir”. Segundo a descrição no requerimento, a apresentação, que parecia se assemelhar a um espetáculo de variedades, dividia-se em várias cenas (o que seria divulgado em cartaz na porta de entrada), iniciava- se às 7 horas e tinha a duração de uma “hora fechada”, com ingressos, variando de 500 a mil réis, vendidos na própria barraca. A organização do espetáculo parecia ser cuidadosa e o preço dos ingressos limitava o público (AGCRJ, Códice 43-4-9, p. 44- 49).

De todos os exibidores, entretanto, Corelli seria o que mais trouxe inovações quanto aos locais para as apresentações dos divertimentos ópticos. Como um bom ‘empresário’, aproveitava todas as oportunidades para ampliar o lucro. Logo no início do ano seguinte,

em 29 de janeiro de 1841, Corelli faz nova solicitação, a de apresentação de uma ‘galeria de história natural’ durante as festividades da coroação de D. Pedro II “na linha da escada do Chafariz do Largo do Paço”. Corelli informava que estava estabelecido há seis anos no Largo de São Francisco de Paula e prometia construir “huma elegante galeria” (remetendo um ‘plano de arquitetura’ anexado ao pedido) que seria “desfeita” no último dia dos festejos. A licença foi concedida para o divertimento, mas Corelli não pôde construir sua ‘Galeria’ no local desejado por determinação do ‘governo’ que precisaria do local para outras atividades organizadas para a festa da coroação36.

Corelli sabia que os festejos reuniriam toda a Corte e buscava ganhar o público com sua ‘atração’. As argumentações no requerimento apresentado por Corelli utilizavam as mesmas adjetivações publicadas nos anúncios dos jornais para o público espectador: afirmava-se que o entretenimento era “científico” e “próprio para divertir o público”, “conforme pratica-se em semelhantes occasioens nas cortes Estrangeiras (...) o golpe de vista dos objetos raros e curiosos que vão se apresentar fará um competente elogio a este grande país”. Possivelmente, nesta ‘galeria’, Corelli continuaria exibindo seu cosmorama e agregaria a exibição do microscópio solar e de outros divertimentos ópticos.

Configurando-se a impossibilidade de instalar a ‘galeria’ no Largo do Paço, Corelli fez então um novo requerimento, a exibição de um ‘Gabinete Zoológico’ no Campo D’Aclamação por dois meses, informando que faria

os possíveis esforços para que o alto assunto deste espetáculo (...) possa abrilhantar mais os faustos dias do Festejo de Coroação (...) apresentando ao respeitável público a grande coleção dos productos d’este paiz, que forma ao mesmo tempo hum divertimento interessante, scientífico, e instrutivo (AGCRJ, Códice 42-3-13 - Diversões Públicas – 1832 a 1869, p. 49-52).

Ainda em 1841, Corelli faria nova solicitação (07/07/1841): a de montar uma barraca, em conjunto com o sócio Estevão Fernandes Louro, em outra festa religiosa, na “Freguezia do Sacramento da Lagoa para mostrar [novamente] curiosidades da História Natural” (AGCRJ, Códice 43-4-9, fls. 73-76).

36 Segundo Schwarcz (1998:71-84), os festejos da coroação de D. Pedro II duraram 9 dias. Iniciaram-se

no dia 16 de julho com a “entrada do imperador na capital do Império, em grande cortejo”, envolvendo “milhares de pessoas” e terminaram no dia 24 do mesmo mês com um banquete para 1.200 pessoas. No lugar onde Corelli desejava construir sua ‘Galeria’ (no Largo do Paço) fora construído um grande edifício provisório, projetado pelo arquiteto e pintor Manuel de Araújo de Porto Alegre, para a solenidade de coroação. Por ali passaria toda a elite da Corte. Certamente seria um ‘bom negócio’ para o exibidor. As obras de preparação do grande evento iniciaram-se com seis meses de antecedência, na mesma época em que Corelli enviou sua requisição à Câmara.

As festas religiosas, também conhecidas como ‘festas de santos’, reuniam grande parte da população da cidade, com especial penetração nos setores mais populares. As maiores celebrações da Festa do Divino Espírito Santo, realizavam-se em cinco locais da Cidade: no Largo da Lapa, no Campo de Santana, nas proximidades da Igreja Matriz de Santo Antônio, no Largo de Santa Rita e no Largo do Estácio. A mais importante delas, que reunia o maior numero de pessoas, era a realizada no Campo de Santana, local para onde foi encontrada a maior parte das solicitações de licença para exibição de divertimentos ópticos em festas.

A Festa, além das camadas populares, reunia as comportadas famílias religiosas e mais abastadas - que se divertiam “simultaneamente (mas não da mesma maneira) com as diferentes possibilidades” oferecidas – configurando-se num “intenso e extenso trânsito cultural”37 entre as diversas camadas da população, tendo inclusive adequação de horários das atividades oferecidas nas barracas, freqüentadas, seja por famílias ou boêmios.

Conforme veremos, na década de 1880, os estabelecimentos de panoramas, por exemplo, já atraíam ‘todas as classes sociais’ (AGCRJ, Códice 42-3-18, fls. 8-20). Contudo, é importante ressaltar que o maior contato das classes mais populares com este tipo de divertimento, certamente se deu durante as exibições em festas e pelos exibidores ambulantes. A verificação dos anúncios no Jornal do Commercio de uma das barracas da Festa no Campo d’Aclamação nos possibilita aferir a média de público destes divetimentos:

FEIRA DO CAMPO DE SANT’ANNA. Hontem 24, dia de S. João, o

nosso panorama Sem Rival collocado na barraca Loucuras da Mocidade foi visitado por 2500 pessoas que nos fizerão esse favor, e que

forão admirar de graça as sublimes vistas das cidades de Braga, Madrid, (...), cidades da Madeira, Terceira, Porto e Rio de Janeiro (essas duas é a primeira vez que offerecemos por serem mandadas tirar de encommenda, o panorama todo completo das duas cidades), Bom Jesus de Braga, Milão, incêndio de Pariz pelos da communa, tomada de Payssandú pelas tropas brazileiras. Uma sorte 200 rs. [grifo nosso] (Jornal do Commercio, 26 jun. 1872, p. 6)

CAMPO DA ACCLAMAÇÃO. A nossa barraca panorama Sem Rival,onde se admira de graça todas as cidades e ilhas de Portugal e o panorama todo da cidade do rio de Janeiro e mais nações, foi visitada ante-hontem e hontem

(26) por 1400 pessoas ,ás quaes ficamos muito obrigado. [grifo nosso]

(Jornal do Commercio, 28 jun. 1872, p. 6)

Corelli deve ter alcançado sucesso em sua iniciativa de exibir os dispositivos na Festa do Divino em 1840. Nos anos seguintes, novos requerimentos para a abertura de barracas que apresentavam divertimentos ópticos foram verificados.

Em maio de 1841, Cazimiro José de Mello e Luiz Silvestre dos Reiz solicitam licença da Câmara, cada um deles, para armar barraca “no Campo da Aclamação para nela ter um lindo cosmorama e fogos diamantinos durante a Festa do Divino Espírito Santo (...) não podendo exceder os 320 rs por pessoa”. Considerando que, na década de 1850, a quantia cobrada dos espectadores pelas exibições em teatros e outros estabelecimentos menores, conforme vimos na seção anterior, variavam entre 040 rs a 1$000, a quantia cobrada nas barracas da festa era relativamente baixa. Mas há que se ressaltar que, ainda assim, o divertimento não estava franqueado a todos, mas apenas aos que podiam pagar. A concorrência estabelecida, entretanto, demonstra que o cosmorama continuava fazendo sucesso. Também no início do ano de 1841, em 2 de janeiro, Thomas Galino solicita licença para continuar com o cosmorama em sua casa no Beco de Santa Rita, n. 10. Três meses depois, João Joze Coelho faz uma nova solicitação para cosmorama, em sua casa na Rua da Valla, n. 96. Antes disso, em junho, João Perrin solicita apresentar divertimento de ‘vistas diamantinas’, no Campo da Aclamação “dentro da casa” de número 111 (AGCRJ, Códice 42-3-13, fls. 49 e 58 e Códice 43-4-9, fls. 120, 134, 135, 139 e 160).

Em 1842, quatro novos exibidores passam a solicitar licenças, todos eles para exibição dos divertimentos ópticos em festas religiosas públicas. Em 16 de abril, Estevão Fernandes, solicita montar sua barraca no Campo da Aclamação para “fazer ver ao público um divertimento de cosmorama acompanhado com danças de bonecos” e um mês depois solicita renovação da licença “até o domingo da Trindade”, o que nos leva a concluir que as licenças para barracas em festas tinham um prazo bastante definido. Manoel dos Santos Amigo, também em abril, solicita montar barraca na mesma festa “para nela apresentar ao público um lindo cosmorama”, desta vez acompanhado de “jogos malabares e física”, cobrando 500rs pelas apresentações. Em maio, Vallentin Pereira dos Santos também reivindica exibir um Cosmorama na mesma festa, tal qual os outros dois exibidores. Em setembro, outra festa religiosa possibilita as apresentações: João Beltrão Fortes, solicita “licença para armar uma barraca em São Cristovão durante o tempo da festa de N. S. do Socorro e nela dar um divertimento ao público de vistas de cosmorama”. Para fazer frente à concorrência das outras barracas, à exemplo da maioria dos exibidores, Fortes também promete “na saída graciar aos concorrentes por meio de uma prenda sorteada” (AGCRJ, Codice 43-4-9, fls. 170, 173, 178, 200).

Em 1843 aumenta o número de exibições nas festas religiosas. No mês de maio foram registrados seis pedidos para apresentações de divertimentos ópticos em barracas no Campo da Aclamação por ocasião da Festa do Divino Espírito Santo, cinco deles para a exibição de cosmorama: Casimiro José de Mello, Manuel de Jesus Goiana, João Beltrão Fortes, Manuel da Costa e Silva e Estevão Fernandes Louro. Com o aumento da concorrência, os requerentes utilizaram o mesmo subterfúgio de João Fortes no ano anterior: oferecer aos espectadores ‘uma prenda’. Os pedidos tornaram-se tão usuais que, ao que parece, o escrivão da Câmara Municipal resolveu padronizar o texto do requerimento:

Diz [nome do solicitante] que quer armar huma barraca no Campo da Aclamação para nella fazer mostrar ao público hum cosmorama com vistas

de bonecos, e dando a cada hum dos espectadores huma prenda que por

sorte lhe competir não podendo (...) exigir mais de 500 rs por cada pessoa que for ver o dito divertimento, o qual terá lugar durante a festividade do Espírito Santo, obrigando-se a demoli-la no dia 14 de junho (...). (AGCRJ, Códice 43-4-10, fls. 9, 10, 11, 13, 15, 16).

Para a mesma festa houve ainda um pedido de apresentação de um diorama (junto com fogos diamantinos) por Antônio Francisco Dutra e Mello. O mesmo exibidor, em maio de 1841, já havia solicitado licença para uma barraca “para comestíveis assim como para um entretenimento de mostrar os fogos diamantinos” na festa do Campo da Aclamação. Neste ano, Mello inovava, apresentando também um divertimento óptico (AGCRJ, Códice 43-4- 10, p. 9).

Ressalta-se também, neste ano de 1843, duas solicitações de Antônio Carlos Andorfer para exibição de sua ‘galeria óptica’. A primeira consta do códice de diversões públicas, onde Andorfer se diz “proprietário de uma galeria óptica de modelos antigos romanos e de um microscópio solar acromático” e solicita “fazer a abertura pública destes objetos” (na data não há especificação do mês). Na segunda, registrada no Códice de Tradições Populares e Religiosas, Andorfer solicita em 5 de abril um prazo de 4 meses para “exposição de uma galeria optica”. Neste requerimento, Andorfer solicita que a gratificação devida seja de 5 mil réis e não de 50 mil réis como a Câmara exigiu, relatando que, em 1o de abril, Estevão Fernandes Louro, com uma semelhante galeria na Rua dos Ourives n.18, pagou a primeira importância. Nos registros encontrados até agora, Estevão Fernandes Louro fez requisições apenas de exibições de cosmoramas em barracas de festas religiosas, nos anos de 1842, 1843 e 1848. Mas é possível que Fernandes Louro tenha feito

exibições no endereço sugerido, pois era o de sua residência (AGCRJ, Códice 43-4-10, fls. 3, 9-11, 13, 15 e 16; Códice 43-4-9, fl. 139 e Códice 42-3-13, fl. 67).

A argumentação de Andorfer, entretanto, acrescenta outra questão que deve ser ressaltada: o pagamento de gratificações à Câmara Municipal (concessões de alvarás e outros tipos), para a autorização e legalização dos espaços de exibição, que eram exigidas de todos os requisitantes. Em 1835 Antonio Ferreira dos Santos pagou a quantia de 4 mil réis de gratificação para exibir um Cosmorama por um ano em sua casa (AGCRJ, Códice 42-3-13, fl. 17-19). Em 1868 a gratificação chegava a 50 mil réis por seis meses de exibição dos dispositivos em barracas (AGCRJ, Códice 42-3-13, fl. 243 e 244). Muito antes, em 1841, foi exigida de Gregório Corelli a fiança de 100 mil réis para a construção de seu ‘Gabinete Zoológico’ que funcionaria durante os nove dias dos festejos da Coroação (AGCRJ, Códice 42-3-13, fl. 49-52). As gratificações (além do alvará) eram exigidas de acordo com o tamanho da barraca. Em 1855, por exemplo, cobrava-se dez mil réis “por braça” ocupada (AGCRJ, Códice 43-4-7, fl. 56). Até mesmo para se exibir os dispositivos pelas ruas as gratificações eram cobradas. Em 1836 Thomas Galino pagou 4 mil réis para obter licença para exibir sua ‘câmara óptica volante’. (AGCRJ, Códice 43-4-3, fl. 163- 164). Era preciso, portanto, que houvesse um capital de investimento inicial não apenas para a aquisição dos aparelhos e das vistas a serem exibidas. A quantia exigida dos exibidores era alta para a época (chegava a cem vezes mais do que era cobrado dos espectadores nas barracas das festas). Isto explica, em parte, o fato de a maior parte dos exibidores não permanecer muitos anos seguidos com as exibições. Por outro lado, a grande quantidade de requerimentos indica que havia a perspectiva de retorno do capital investido.

A partir de 1844 o número de solicitações foi reduzido, embora as licenças para os divertimentos ópticos tenham sido requisitadas até 1898. A redução das solicitações encontradas, entretanto, não deve ser analisada como uma diminuição da freqüência dos divertimentos ópticos nas festas religiosas. O viajante Thomas Ewbank38, por exemplo, em 1846, registrou que havia a presença de muitas barracas na festa do Campo da Aclamação, destacando a que se denominava “teatro de bom-gosto”, onde se apresentavam muitas atrações e, dentre elas, mágicas naturais e fantasmagóricas (ABREU, 1999:73).

Em 4 de junho de 1844, o alemão João Frederico Beckson solicita apresentar seu “gabinete óptico na barraca do Campo de Sant’Anna” para a Festa do Divino Espírito Santo. Em 1845 não foram encontrados registros. É possível que muitos destes documentos tenham se perdido. Em 1846 um novo estabelecimento de Cosmorama é instalado na Rua de São Pedro, n. 100, por Francisco Orcini. Além disso, dois novos divertimentos são solicitados pelo mesmo exibidor, o francês Luis Chardonatito, que requesta licença para montar na Festa do Divino uma barraca para “exercício ginástico”, panorama e fantasmagoria. No ano seguinte, a exibição de panorama volta a ser peticionada para a festa religiosa, desta vez por uma brasileira, Christina Hohns. Em janeiro de 1848, dois estrangeiros recém chegados da Itália, Benedicto de Tommasso e Luiz Baitol, solicitam licença para tocarem realejo pelas ruas e para apresentar “espetáculos de física, mecânica e fantasmagoria no sobrado n.7 da Rua São José”. É possível que os espetáculos fossem anunciados por meio dos tocadores de realejo nas ruas. No mesmo ano, Estevão Fernandes Louro requer novamente licença para barraca no Campo da Aclamação para “dança de bonecos com vistas de um cosmorama” (AGCRJ, Códice 42-3-13, fls. 74, 75 e 87; Códice 43-4-10, fls. 54, 74, 105, 123 e 124).

Além das atividades religiosas (procissões etc.) e do comércio de itens como velas e imagens do Espírito Santo, as festas ofereciam vários divertimentos – apresentações teatrais e musicais, atrações de circo, barracas de comidas e bebidas, fogos de artifício, leilões, barracas da sorte, barracas de jogos, assim como apresentações de cosmoramas, lanternas mágicas e panoramas portáteis, ou, ainda espetáculos de ilusionismo – mágicas (naturais e fantásticas).

A diversidade dos ‘divertimentos’ ofertados ao público explica, de certa forma, as exibições dos dispositivos conjugadas com outras atrações. Era preciso, sempre, fazer frente à concorrência das outras barracas. Os divertimentos ópticos, em várias situações, eram acompanhados de ‘teatro (ou dança) de bonecos’, ‘jogos malabares’, ‘exercícios ginásticos’, ‘circo com cavalinhos de pau’, ‘pantomimas’, que chegavam até a ser anunciados, de forma mais genérica, como ‘toda a sorte de brinquedos’. O próprio formato da festa, com barracas de divertimentos de toda ordem, como uma grande feira de ‘atrações’ também incentivava aos barraqueiros a diversidade de atividades, como um grande espetáculo de ‘variedades’. Também, como acompanhamento das exibições dos dispositivos, é importante destacar os realejos e as exibições de ‘fogos diamantinos’.

Como ressalta Mannoni (2003:97), já na época das exibições ambulantes de lanternas mágicas por toda a Europa (século XVIII) era freqüente o “acompanhamento

musical com uma sanfona ou realejo”. Da mesma forma, as exibições ambulantes dos divertimentos ópticos na cidade do Rio de Janeiro, por muitas vezes, eram acompanhadas por realejos. Abreu (1999:259-62) destaca que as solicitações de licença para apresentações de realejos na cidade datam de 1844 e que até 1857 “eles eram permitidos sem maiores exigências”. Entretanto, a maioria dos exibidores, artistas ambulantes estrangeiros, era vista pelas autoridades locais no mesmo rol dos ‘tiradores de esmola’. Dessa forma, também passou a fazer parte da política ‘civilizatória’ um “cerceamento progressivo” das exibições dos realejos (incluídos aí os panoramas portáteis) sob a justificativa de que “em lugar de se facilitar divertimento, se anima[va] a vadiação dos tocadores de tais instrumentos”, assim como daqueles que paravam para apreciar a exibição.

Da mesma forma, a utilização de fogos de artifício ao final dos espetáculos, como verificada em algumas das solicitações de licença registradas, também aconteciam na Europa, como, por exemplo, no de uma fantasmagoria relatada por Mannoni (2003:177). Nas festas do Campo de Santanna os fogos eram umas das atrações mais concorridas, chegando mesmo a se constituir num espetáculo visual à parte. Segundo Abreu (1999:69), durante as festas,

A sofisticação do foguetório não era pequena. Os artistas especializados anunciavam suas habilidades nos jornais (...). Além do foguete de lágrimas e dos morteiros, apareciam a “roda”, a “lua”, a “melancia” e, o principal, uma grande estrela que girava, tendo ao centro o emblema do Divino.

A descrição destes espetáculos de fogos chega mesmo a impressionar, e parece

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