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5 THE “INFORMATION REQUEST” CONCEPT

5.4 Interfaces between the components

Outro dispositivo introduzido como novidade e divertimento científico e instrutivo na Corte do Rio de Janeiro foi o microscópio solar. O instrumento óptico, concebido em meados do século XVIII, se assemelhava a uma lanterna mágica e utilizava a luz do sol para projetar, além de vistas pintadas à mão, objetos preparados para o microscópio, por exemplo, insetos ou as escamas de um peixe. Podemos tomar como exemplo um anúncio veiculado pelo Jornal do Commercio em 1856 (27 set., p.4), onde o proprietário de um “Gabinete de observação no microscópio solar acromático” oferecia apresentar, “por

algumas semanas”, na Rua da misericórdia, n. 5, 1o andar, “experiências” em sessões de uma hora de duração, entre 10 e 15hs, se o sol permitisse, com o seguinte programa:

O grão sublime da perfeicção deste instrumento apreciado há annos pelos sábios e as vistas de muitos amadores. VARIOS INSECTOS PEQUENOS apparecerão de um tamanho prodigioso, deixando ver através do corpo o movimento dos intestinos. O PÓ DE QUEIJO apresentará milhares de animaes perfeitos em todos os seus membros, e executando as funcções vitaes com tanta regularidade, como os animaes milhões de vezes maiores de que elles. DEBUXOS MÁGICOS de bordados produzidos pela crystalização de differentes saes. NA CIRCULAÇÃO DO SANGUE ver-se- hão gyrar os glóbulos do sangue com rapidez, tanto nas veias como nas artérias mais delicadas.

Mannoni (2003:140-4) ressalta que o dispositivo servia para projetar “tudo o que tivesse algum interesse científico”, mas “o que realmente surpreendia os espectadores não iniciados eram os detalhes inesperados oferecidos pela ampliação gigantesca de um inseto”. Como todos os outros dispositivos, o microscópio fora concebido inicialmente no bojo das pesquisas científicas, mas rapidamente passou a ser utilizado para projeção de imagens e curiosidades científicas e ‘instrutivas’ para o público em geral.

Assim como nas primeiras projeções de cinema, as imagens exibidas pelos aparelhos de entretenimento visual desenvolvidos no século XIX eram apresentadas como sendo instrutivas e informativas. Segundo Gunning (1995:55), da mesma forma, posteriormente “um gênero do ‘cinema de atrações’34 se tornou popular e duradouro”: os filmes que apresentavam, por exemplo, “imagens aumentadas de vermes de queijos, aranhas e pulgas”35 – as chamadas ‘atualidades educacionais’.

Esse tipo de filme pode ser relacionado com as “conferências de viagem”, palestras ‘ilustradas’ (a partir de imagens reproduzidas por aparelhos ópticos, como a lanterna mágica, por exemplo), que pressupunham “uma proposta de educação para conhecimentos gerais”, revelando a mentalidade característica da época ao fazer apologia de valores ocidentais cultivados pela classe média como a racionalidade e o senso comum (COSTA, 1995:27).

34 Gunning chama ‘cinema de atrações’ todo o cinema precedente ao domínio da narrativa, aproximadamente

até 1904. Segundo ele, o termo ‘atrações’, “refere-se, retrospectivamente, a uma tradição popular e, prospectivamente, a uma subversão de vanguarda. Essa tradição é a das feiras e a do carnaval, particularmente em seu desenvolvimento durante a virada do século nos modernos parques de diversão, como o Coney Island.” (GUNNING, 1995:55)

35 Sobre este assunto ver: HERBERT, Stephen. A History of Early Film. V. 1. London: New York:

De fato, verificamos que, também aqui no Brasil oitocentista, os instrumentos ópticos não eram exibidos apenas como divertimentos. Os dispositivos de projeção, por exemplo, eram utilizados para divulgação de fotografias vinculadas às pesquisas da época e, da mesma forma, causavam grande sensação nas platéias. Podemos tomar como exemplo a divulgação do trabalho realizado pelo fotógrafo Marc Ferrez na ‘Comissão Geológica do Império’, na qual, em expedição pelo Brasil, registrou a costa brasileira e as formações geológicas da região nordeste, além da arquitetura de cidades como Recife e Salvador e índios da tribo Botocudo que não haviam sido fotografados até então. Segundo Turazzi (2000:18), a ‘Comissão Geológica’, viabilizada entre 1875 e 1877, foi o “maior projeto de documentação fotográfica para fins científicos produzido no Brasil no século XIX”. Conforme relato da autora, “uma parte da equipe retornou em fins de 1875 para classificar o material e divulgar os dados parciais da exposição”. No evento de divulgação, um dos pontos altos foi a

conferência do professor Hartt para a ‘seleta e curiosa platéia’, que incluía o imperador, ilustrada por ‘uma linda série de vistas’ produzidas pelo auxiliar da Comissão. As chapas de vidro de Ferrez, projetadas sobre

um pano branco, entusiasmaram os espectadores, tanto pela novidade e efeito mágico da projeção, como pelo cenário deslumbrante da cachoeira

de Paulo Afonso, comparada na ocasião às cataratas do Niágara, então um dos maiores símbolos da grandiosidade da natureza. [grifo nosso] (TURAZZI, 2000:20).

Turazzi (2000:20), ao relatar o evento, baseou-se na “imprensa da época” e, nesse sentido, é interessante notar que ainda em 1875 as projeções fossem tratadas como novidade e causassem entusiasmo por si próprias.

As sessões ‘científicas’ eram também comuns nesta época e utilizavam as novas tecnologias em auxílio da construção do conhecimento, conforme verificamos, por exemplo, em um anúncio de 1875 da Gazeta de Notícias:

Clube Polytechnico. Sessão Publica. 1º parte - Physica e Chimica - Phenomenos eletricos diversos (machina eletrica de carne, electrophoro, electroscopios, electrometros, botelha de Leyde (...). / 2º parte - Cosmographia - Phenomenos celestes e terrestres, projetados sobre a tela por meio de lanterna de projeção e da luz ox-hydrica. Explicações Dr. Theophilo das Neves e Sr. Saturnino Ferreira da Veiga (Gazeta de Notícias, 25 de nov. 1875, p. 4).

Além disso, a própria novidade tecnológica tornava-se tema das conferências: LUZ ELECTRICA NO MUSEO - Luz electrica mui brilhante, prensa ortographica, pantographo, machina de calcular, óculo de medir distancias, microscópios, etc., serão mostrados nessa nova série de conferências. A primeira será na quinta-feira, 27 de maio, às 6 horas da tarde. Os bilhetes achão-se à venda, por especial favor, em casa dos srs. Paula Brito, na Praça da Constituição; Ferreira, na rua do sabão no. 114; Cardoso, na rua do Ouvidor. (Jornal do Commercio, 24 maio, 1852, p.3).

Conforme veremos adiante, o comércio destes instrumentos ópticos destacava as duas vinculações – à ciência e ao divertimento – como qualidades para o consumo. Os dispositivos saem assim de sua utilização no âmbito privado e passam a ser apresentados a um público maior. Mas a popularização dos aparelhos e dispositivos se daria, entretanto, não apenas nos estabelecimentos próprios e nos poucos teatros da época, mas, sobretudo, nas festas de rua e por meio dos exibidores ambulantes conforme verificaremos a seguir.

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