Em validação de limpeza, de forma a poderem existir valores de referência para os quais se poderá considerar se dada técnica de limpeza é eficaz, existe a necessidade de efectuar cálculos para encontrar esses mesmos valores. Estes limites são denominados limites de aceitação (LOA ou LA) e necessitam de ser superiores aos limites de quantificação (LOQ ou LQ) e de detecção (LOD ou LD) e são inerentes a cada método utilizado para a análise das amostras recolhidas em cada equipamento. O cálculo destes valores é efectuado com recurso a fórmulas de cálculo que foram desenvolvidas ao longo dos tempos e vão de encontro ao estado da arte de validação de limpeza nos tempos actuais.
Os valores dos limite de aceitação são assim um compromisso entre três princípios fundamentais [19]:
• Os limites devem ser apropriados à situação (i.e. devem ser valores práticos);
• Os limites devem ser determinados por via de técnicas ou métodos analíticos presentes (i.e. devem ser verificáveis);
• Os limites devem ser possíveis de cumprir (i.e. devem ser alcançáveis).
Realça-se que o compromisso que necessita de existir entre os três princípios enunciados, não poderá ser em prejuízo do grau de exigência nos limites de aceitação calculados pelo que os mesmos necessitam de resultar de “um racional cientifico ajustado e coerente” e, adicionalmente, devem ser sustentados por uma “técnica de limpeza eficiente, adequada à remoção do resíduo até ao nível de contaminação admissível”.
Os limites são então calculados com base em dosagens terapêuticas ou em dados toxicológicos, sendo que os dados necessários ao cálculo de cada tipo de limite estão presentes tanto em bibliografia, como em documentação interna empresarial (LD50, dosagens terapêuticas, tamanho de lotes, factores de recuperação por swab, etc.), podendo ser utilizados a partir dessas fontes.
Realça-se que o cálculo de limites de aceitação é efectuado de forma sucessiva e tendo em conta a homogeneidade da contaminação (i.e. a contaminação está distribuída de forma uniforme pelo equipamento).
Existem assim 3 tipos de limites sendo que um deles é o limite de aceitação ou limite analítico (L3 – em ppm de Produto) e os outros dois, são o limite residual por área de superfície (L2 – em µg/cm2) e o limite aceitável no produto subsequente (L1 (LSP) – mg de A / kg de B).
Os cálculos para encontrar os limites dividem-se assim em dois grupos:
1.6.5.1. Cálculo de limites com base em dosagens terapêuticas Com base em dosagens terapêuticas, o cálculo de L1, é:
!" #$/&$ = () *+,- */á1/2 #í4/#2 *- 51+*. 7 = 899:;<=>?@A B C?D<AE #$ *+,- */á1/2 #áF/#2 *- 51+*. G = 899H<IE JKáI. #$ × 10OP #$ &$ (1)
Em que Sf é o factor de segurança estipulado e dependente do tipo de utilização final do produto e é igual a 1/1000 para tomas orais.
A partir deste valor, e tomando o critério da escolha do pior-caso, comparando com o 10 ppm (método de lilly), desta comparação escolher-se-á o valor menor sendo este levado para o passo seguinte do cálculo.
Seguidamente, calcula-se L2:
!Q R$ S#Q =!(T (= min !", 10 55# )×G((T(&$)
([(7 (S#Q) ×1000 (2)
de onde BSSP é o tamanho de batch do produto seguinte expresso em kg e SESA a área de equipamento utilizada partilhada (i.e. comum) entre os dois produtos expressa em cm2.
Para cálculo de L3, é necessário ter em conta o tipo de amostras existentes. Estas amostras são recolhidas de duas formas:
• Amostras de águas de enxaguamento (rinse) – Este tipo de amostras é recolhido directamente na altura da lavagem, no penúltimo passo da técnica (passo N-1, sendo N o número total de passos da lavagem) onde, por norma, acontece a passagem por água purificada. As amostras recolhidas são compostas essencialmente por água e pelos vestígios de substância e de detergente que ficaram após os passos anteriores da técnica. A técnica de amostragem normalmente consiste na recolha directa da água de lavagem,
que após passagem pelas superfícies do equipamento a ser limpo, remove o resíduo do mesmo ficando o último retido na água, sendo esta solução imediatamente recolhida à saída do equipamento em recipientes apropriados para o efeito.
• Amostras de swab – Este tipo de amostragem consiste na passagem de um swab2 nos pontos críticos do equipamento. Nestes pontos – previamente estudados e assinalados – é feita a passagem do swab em movimentos constantes em documentação técnica especifica para esse efeito. Realça-se que, quando não é possível efectuar a amostragem directamente nos equipamentos, a técnica de swabbing pode ser efectuada em placas com 10 cm2 de área compostas pelo mesmo material que o equipamento, de forma a poder simular a aplicação da técnica on site sem haver o perigo de alteração de resultados aquando da transposição.
A técnica de amostragem por swab consiste então na passagem do utensílio em movimentos consistentes e com pressão moderada de forma a poder ser recolhido o resíduo presente na placa (ou no equipamento) na sua totalidade.
As técnicas de utilização dos swabs são variadas. No entanto, é relativamente consensual entre indústrias, a utilização de uma técnica em particular (Figura 1.1) executada sobre as placas.
Realça-se que é crucial a execução do processo numa só direcção; não pressionar o swab, de forma a esfregar, apenas arrastando-o e de ter o cuidado de remover o resíduo que fica nos cantos.
2 O swab é uma zaragatoa de pontas achatadas ou redondas, composta essencialmente por material absorvente.
Figura 1.1 - Técnica de swabbing 1 [20]
Assim, após a colheita de amostras, a comparação de resultados é efectuada tendo em conta os valores de L3. Desta forma, consoante o tipo de amostragem o limite L3 será:
• Para amostras de rinse:
!\,;>HA<(55# +] R$ S#\) =
!Q
-,5-,,]12 S# (3)
Em que para a espessura é adoptado o valor de 0,5 mm (5x10-2 cm). • Para amostras de swab:
!\,AD^_(R$ S#\) =!Q× á1-2 *- 2#+,`12$-# S# Q
a]24`/*2*- *- ,+bc-4`- $ × `2F. 1-S. ,d2e (4)
1.6.5.2. Cálculo de limites com base em dados de toxicidade
Para o cálculo de limites com base em parâmetros de toxicidade, o resultado é fornecido pela equação 5:
fg[! (#$/(&$ ⋅ */2)) = !9ij #$/&$ × k2S`+1 -#5í1/S+ (*/2O") (5)
Em que NOEL (No Observable Effects Level) é dosagem mínima que não aumenta o nível de severidade dos efeitos letais, LD50 é a dose letal para 50% dos elementos de uma população estudada e em que o factor empírico toma o valor de 0,0005/dia.
O cálculo do parâmetro ADI (Acceptable Daily Intake) é dado por:
De onde, AAW é o peso médio de uma pessoa (adulto – 70 kg ou criança - 40 kg (worst-case)) e Sf é o factor de segurança (1/100 – formulas orais; 1/5000 – formulas intravenosas; 1/10000 –
agentes de limpeza).
Finalmente, calcula-se o parâmetro MACO (Maximum Allowable Carryover) que é a quantidade máxima de resíduo que um equipamento pode acolher.
A fórmula de cálculo é:
n7og #$ = 79l × G (#$) p (#$)
(7)
Em que B é o menor batch um outro qualquer produto processado no equipamento e R é a maior dosagem terapêutica diária de um outro qualquer produto processado no equipamento.
O cálculo de L2 é semelhante ao anterior para o caso das dosagens terapêuticas, e fica:
!Q(#$/S#Q) =
n7og (#$)
([(7 (S#Q) (8)
Em que SESA é a área de equipamento partilhada (i.e. em contacto) entre as duas substâncias processadas e vem em cm2.
O cálculo de L3, para os dois casos (rinse e swab), é igual ao elaborado para o caso das dosagens terapêuticas e parte do resultado de L2, calculado pela equação 2.