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2. Methods and Materials

2.3 Lipid extraction and gas liquid chromatography

Taylor Carman afirma que, para isso, Merleau-Ponty quer chamar atenção para o pano de fundo sensorial que subjaz à nossa percepção das qualidades isoladas e nossa formulação dos juízos explícitos, chamando a isso campo fenomenal, sugerindo que ele não é nem um objeto na nossa experiência, nem meramente um efeito subjetivo recortado do mundo. Segundo Carman, o campo fenomenal é aquele aspecto do mundo sempre já esculpido e tornado disponível e familiar a nós por nossas capacidades perceptivas corporais involuntárias e comportamentos irrefletidos. O campo fenomenal nos apresenta coisas impregnadas de uma significação imanente, por meio de uma estrutura intencional em sentido primitivo, ou seja, uma orientação direcional em um ambiente, em um espaço materialmente habitado. Os outros são imediatamente presentes a nós, nós os vemos como outros, não como meros dados sensoriais. Mas que noção de proximidade é essa? Carman responde que o imediato já não é a impressão, o objeto que é um com o sujeito, mas o sentido, a estrutura, o arranjo espontâneo

das partes. O que faz esse sentido ser sensível em vez de intelectual é que ele nos constrange,

dando-nos para o mundo. De acordo com Carman, a insistência de Merleau-Ponty em dizer que a experiência sensorial sempre tem a forma de um campo, em vez de uma mera soma ou acumulação de dados, é o refinamento da afirmação de que a percepção é essencialmente

perspectiva. Construir uma perspectiva como um campo é considerar que ela não é nem uma

mera coleção de objetos, um segmento homogêneo de espaço, nem algo como apenas um feixe de sensações ou juízos. Um campo é um tipo de espaço ou lugar, é onde objetos e suas qualidades nos aparecem e se relacionam conosco. Ele não pode ser entendido como um produto condicionado de sensações e juízos (Cf. CARMAN, 2008, p. 65). Assim como o espaço e o tempo o foram para Kant, o campo fenomenal é, para Merleau-Ponty, uma condição transcendental da possibilidade de termos uma percepção aberta ao mundo (Cf. CARMAN, 2008, p. 65).

Para Merleau-Ponty, o campo fenomenal torna-se campo transcendental quando “a

reflexão psicológica é levada a integrar aos fenômenos todo objeto possível, e a investigar como ele se constitui através deles” (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 94). A consciência, sendo

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o centro universal dos conhecimentos, deixa de ser uma região particular do ser. Agora não se pode mais tratar de descrever o mundo vivido que a consciência traz em si como um dado

opaco, é preciso constituí-lo, “a explicitação que tinha posto a nu o mundo vivido, aquém do

mundo objetivo, prossegue em relação ao próprio mundo vivido, e põe a nu, para aquém do

campo fenomenal, o campo transcendental” (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 94). De outro

lado, toma-se o sistema “eu-outro-mundo” como objeto de análise, tratando-se agora de

“despertar os pensamentos constitutivos do outro, de mim mesmo enquanto sujeito individual

e do mundo enquanto polo objetivo de minha percepção” (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 94).

Essa “redução” conheceria, portanto, apenas um único sujeito verdadeiro, o Ego meditante, e, assim, essa passagem do naturado ao naturante, do constituído ao constituinte, terminaria a tematização iniciada pela psicologia e não deixaria mais nada implícito ou subentendido em nosso saber, fazendo com que tomássemos posse integral de nossa experiência e realizando a adequação entre o reflexionante e o refletido. Essa seria, então, a perspectiva ordinária de uma filosofia transcendental, bem como, “pelo menos aparentemente, o programa de uma fenomenologia transcendental” (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 94). Mas o campo fenomenal na verdade opõe uma dificuldade de princípio a essa pretensa explicitação direta e total: tomando a Gestalt como exemplo, Merleau-Ponty nos mostra que, ainda que ela possa ser expressa por uma lei interna, essa lei não pode ser considerada como um modelo a partir do

qual os fenômenos de estrutura se realizam. A aparição da Gestalt “não é o desdobramento,

no exterior, de uma razão pré-existente” (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 95), não é porque ela

realiza um determinado estado de equilíbrio, torna, em sentido kantiano, possível um mundo, que ela é privilegiada em nossa percepção:

[...] ela é a própria aparição do mundo e não sua condição de possibilidade, é o nascimento de uma norma e não se realiza segundo uma norma, é a identidade entre o exterior e o interior e não a projeção do interior no exterior. Portanto, se ela não resulta de uma circulação de estados psíquicos em si, ela não é mais uma ideia (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 95).

Dessa maneira, para Merleau-Ponty, reconhecer os fenômenos enquanto ordem original é a condenação do empirismo como explicação da ordem e da razão pelo encontro entre fatos e acasos da natureza, mas, ao mesmo tempo, é a conservação, para a própria razão, bem como para a própria ordem, do caráter da facticidade: se uma consciência constituinte universal fosse possível, a opacidade do fato desapareceria. Assim,

59 ela se dirige e o compreenda verdadeiramente, [...] devemos considerá-la como uma operação criadora que participa ela mesma da facticidade do irrefletido. É por isso que a fenomenologia é a única entre todas as filosofias a falar de um campo

transcendental. Esta palavra significa que a reflexão nunca tem sob seu olhar o

mundo inteiro e a pluralidade das mônadas desdobradas e objetivadas, que ela só dispõe de uma visão parcial e de uma potência limitada. É por isso também que a

fenomenologia é uma fenomenologia, quer dizer, estuda a aparição do ser para a consciência, em lugar de supor a sua possibilidade previamente dada (MERLEAU-

PONTY, 2011, pp. 95-96, grifos nossos).

Para Merleau-Ponty, as filosofias transcendentais clássicas “nunca se interrogam sobre

a possibilidade de efetuar a explicitação total que elas sempre supõem feita em algum lugar

(MERLEAU-PONTY, 2011, p. 96), bastando-lhes que ela seja necessária e, dessa maneira, acabam julgando aquilo que é por aquilo que deve ser, por aquilo que é exigido pela ideia do saber. Merleau-Ponty reconhece que o Ego meditante não pode suprimir sua inerência a um sujeito individual que tudo conhece sob uma perspectiva particular, mas ao mesmo tempo, observa que

[...] a reflexão nunca pode fazer com que eu deixe de perceber o sol a duzentos passos em um dia de neblina, de ver o sol “se levantar” e “se deitar”, de pensar com os instrumentos culturais preparados por minha educação, meus esforços precedentes, minha história. Portanto, eu nunca reúno efetivamente, nunca desperto ao mesmo tempo todos os pensamentos originários que contribuem para minha percepção ou minha convicção presente. Uma filosofia como o criticismo não concede, em última análise, nenhuma importância a essa resistência da passividade, como se não fosse necessário tornar-se o sujeito transcendental para ter o direito de afirmá-lo. Ela subentende portanto que o pensamento do filósofo não está submetido a nenhuma situação (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 96).

O criticismo, para Merleau-Ponty, parte do “espetáculo do mundo, que é o de uma natureza aberta a uma pluralidade de sujeitos pensantes” (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 96), para investigar a condição que torna possível o único mundo oferecido a vários Eus empíricos, e a acaba encontrando no “Eu transcendental no qual eles participam sem dividi-lo porque ele não é um Ser, mas uma Unidade ou um Valor” (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 96). Então, é por tornar o Eu transcendental uma unidade ou valor que o problema do conhecimento do outro não é posto na filosofia kantiana, pois o Eu transcendental sobre o qual ela fala pode ser tanto o meu eu quanto o do outro. A análise se situa fora de nós, e precisa apenas “destacar as condições gerais que tornam possível um mundo para um Eu – eu

mesmo tanto quanto o outro – e nunca encontra a questão: quem medita?” (MERLEAU-

PONTY, 2011, pp. 96-97). Ao contrário, se a filosofia contemporânea toma como tema

principal o fato e toma o outro como problema, “é porque quer efetuar uma tomada de

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somente sob essa condição que a filosofia pode se tornar um saber absoluto e deixar de ser uma especialidade ou técnica:

Assim, não mais afirmaremos uma Unidade absoluta, tanto menos duvidosa que ela já não precisa realizar-se no Ser, o centro da filosofia não é mais uma subjetividade transcendental autônoma, situada em todas as partes e em parte alguma, ele se encontra no começo perpétuo da reflexão, neste ponto em que uma vida individual se põe a refletir sobre si mesma. A reflexão só é verdadeiramente reflexão se não se arrebata para fora de si mesma, se se conhece como reflexão-sobre-um-irrefletido e, por conseguinte, como uma mudança de estrutura de nossa existência (MERLEAU- PONTY, 2011, p. 97).

Assim, para Merleau-Ponty, as filosofias reflexivas erram em acreditar que o sujeito meditante pode absorver, ou apreender sem sobras, em sua meditação o objeto sobre o qual medita, ou, ainda, que nosso ser se reduz ao nosso saber. Na concepção de Merleau-Ponty, nós, enquanto sujeito meditante, nunca somos o sujeito irrefletido que procuramos conhecer, assim como “não podemos nos tornar inteiramente consciência, reduzir-nos à consciência

transcendental” (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 98). Se assim fosse, deveríamos possuir o

mundo diante de nós como relações transparentes, teríamos, em forma de sistemas de relações transparentes, além do mundo, nossa história e os objetos percebidos em sua singularidade. Merleau-Ponty conclui este ponto dizendo que uma filosofia se torna transcendental, ou seja, radical, não quando se instala na consciência absoluta sem mencionar os passos que levaram a ela, mas quando considera “a si mesma como um problema, não postulando a explicitação total do saber, mas reconhecendo esta presunção da razão como o problema filosófico fundamental” (MERLEAU-PONTY, 2011, p. 98). Entra em questão, portanto, o problema da

racionalidade.