Chapter 8 Planning, governing and regulating the system
8.6 System linkages and cooperation
Considerar a existência de um bucolismo moderno levanta, como deixámos antever no final do parágrafo anterior, problemas de ordem genológica. Enquanto conjunto de regras e códigos que orienta e condiciona a produção textual, bem como a recepção, e que viabiliza a comunicação literária, o género não está, todavia, isento de ligeiras alterações, de ajustamentos às diferentes idiossincrasias. Verificámo-lo em relação a Teócrito e a Virgílio que recusaram um processamento automático das informações adquiridas ao longo do seu percurso. Assim como constatámos que as modificações efectuadas se relacionavam com o contexto histórico dos mesmos autores. Considerámos, por exemplo, a representação do espaço campestre, enquanto locus amoenus, como resultado da visão do homem urbano, tolhido pela sofisticação alexandrina, no caso dos Idílios. No que diz respeito às Bucólicas, a configuração da imagem arcadiana procederia de um lúcido reconhecimento das adversidades a que o camponês romano esteve sujeito.
Concluiremos assim que os géneros “traduzem […] uma certa cosmovisão, deduzida do diálogo […] com os valores, com as ideias e com a sociedade em que o escritor se integra.”186. Face a essa natureza aberta e propensão dialógica, eles não poderão ser entendidos como categorias acrónicas, mas, pelo contrário, como entidades históricas e, por conseguinte, “instáveis e transitórias, sujeitos como se encontram ao devir da História, da cultura e dos valores que as penetram e vivificam”187. Essa mutação a que estão expostos pode originar, em certas ocasiões, o revigorar de um género que conhecera já certa fortuna ou, adversamente, a sua extinção.
186 Reis, Carlos, O conhecimento da literatura, 2ª edição, Livraria Almedina, 1997, p. 251. 187 Idem, p. 247.
A Idade Média, por exemplo, terá contribuído para reanimar o género bucólico, já que, os aristocratas, saturados dos formalismos do código cortês, ambicionavam um estilo de vida mais simples, liberta dos prazeres mundanos. Logo, tomam como referência a Antiguidade, pois, desde essa época, “tinha perdurado a promessa de que a felicidade terrena se encontraria na vida rural. Aí a verdadeira paz pareceria poder alcançar-se sem luta, simplesmente pela fuga. Aí havia um seguro refúgio contra toda a inveja, o ódio, a vaidade das honras, a luxúria opressiva e a guerra cruel.”188. Também o sentimento religioso, profundamente arreigado na época, se coadunava com a busca de um cenário edénico, onde a figura do pastor e do seu rebanho invocaria a presença de Cristo, o Bom Pastor, orientando os homens.
A representação pastoril ganharia novo alento ainda durante o Renascimento, quer devido ao interesse em relação ao cânone greco-latino, quer a alguns fenómenos de cariz sociopolítico, como o cosmopolitismo urbano, colocando “no seio da Arte e do Pensamento questões como a oposição entre vida social e vida solitária ou entre a autenticidade de atitudes e a acomodação às conveniências.”189.
Adquirindo novas significações de acordo com as experiências individuais190, “a longa história do género pastoril resultará da associação de várias modalidades que se estabelecem em diversas situações culturais da Europa durante mais de vinte séculos,
188
Huizinga, Johan, “A visão idílica da vida”, in O declínio da Idade Média, trad. de Augusto Abelaira, s.l., Editora Ulisseia, s.d., p. 135.
189 Bernardes, José Augusto Cardoso, “Bucolismo”, in José Augusto Cardoso et alii (dir.), Biblos.
Enciclopédia Verbo das literaturas de língua portuguesa, vol. 1, Lisboa, Editorial Verbo, 1995, coln. 801.
190 Cardoso Bernardes refere, a respeito da écloga, que se trata de uma “forma privilegiada de expressão de uma mundividência particular.” E, dos autores que a cultivaram, destaca “Bernardim Ribeiro, em cuja bucólica se reúnem os traços principais do seu idiolecto feito de ensimesmamento, de nostalgia e de tragédia; Sá de Miranda, em cujos diálogos pastoris se encerra o essencial dos inúmeros dissídios éticos e estéticos da sua obra; Camões, que reúne nas suas éclogas as marcas principais da inquietação pessoal e colectiva que dá corpo a toda a sua obra; Bernardes, que assume o Bucolismo como um refúgio [...] contra as circunstâncias nefastas e a profunda crise de valores que assinalam a sua vida e a sua escrita; Frei Agostinho da Cruz, em cujos textos pastoris encontramos a sedimentação de uma dolorosa renúncia ao mundo e a transformação do canto ao profano em canto ao divino.” Cf. Bernardes, José Augusto Cardoso, “Écloga”, in José Augusto Cardoso et alii (dir.), Biblos. Enciclopédia Verbo das literaturas de
até ao Romantismo”191. De facto, este parece ser um momento decisivo de cisão com o legado tradicional. Desenvolvendo um processo de resistência aos preceitos clássicos, o Romantismo caracterizar-se-á pela insubordinação às convenções e por uma nova teoria sobre os géneros literários, verificando-se inclusive que, perante novas atitudes, como o individualismo, deixa de haver lugar para determinados géneros, nomeadamente a epopeia. Face a tal conjuntura teórica, e considerando o bucolismo como um género de matriz greco-latina, também ele seria desactivado no final do século XVIII. Como se justifica então falar de bucolismo relativamente à obra de um autor do século XIX, como nos propomos?
Concebendo que para tal existem fundamentos universais, que ultrapassam a dimensão contingente e histórica e que emanam de uma atitude existencial. Mesmo que alguns elementos constituintes do bucolismo, em particular o pastor, desapareçam, há dilemas e anseios humanos que perduram, como por exemplo, a perspectiva do Homem quanto ao tempo e ao espaço em que actua. Comprovámo-lo em relação à obra de Teócrito e Virgílio e teremos oportunidade de o confirmar no caso de autores modernos. Nesse sentido, as composições bucólicas terão de incluir-se “na categoria do modo, [...] a mais inegavelmente universal, porquanto fundamentada no facto trans- -histórico”192. Embora frequentemente considerado como género, alguns autores tomam um rumo diferente quanto à classificação do bucolismo. Segundo Paul Alpers, por exemplo, dado que a pastoral abrange não só uma grande variedade de éclogas – elegias pastorais, reclamações de amor, concursos de canto – mas também romances, comédias e novelas, será preferível aludir a uma categoria mais extensa e flexível que inclua um número identificável de géneros.
191 López Estrada, Francisco, Los libros de pastores en la literatura española, Madrid, Editorial Gredos, 1974, p. 20.
Por outro lado, a essa categoria modal estão subjacentes, de acordo com o autor, suposições sobre a natureza e situação do homem ou uma visão da força humana relativa ao mundo, normalmente facultada, na pastoral, pela figura do guardador de gado. Nesse sentido, muitos cidadãos da antiga República de Roma puderam reconhecer a sua situação a partir dos pastores da primeira bucólica de Virgílio: um vitimizado pelo resultado da guerra civil; outro dependente do protector que, afortunadamente, encontrou. Alpers reforça as suas conjecturas acrescentando a opinião de outros autores, formulada de maneira idêntica: para Empson, a pastoral também é um modo literário que expressa uma visão da vida193.
A concepção de modo como “uma matéria de atitude ou tom”194 ajusta-se ainda à teorização de Genette, que se refere à existência de “formulações modais provindas de atitudes existenciais”195, e de Aguiar e Silva, para quem os modos literários, “a nível da forma de conteúdo, representam configurações semântico-pragmáticas constantes que promanam de atitudes substancialmente invariáveis do homem perante o universo, perante a vida e perante si próprio.”196. Assim, “sob esta última perspectiva, é fundamentado falar-se, por exemplo, da existência de um modo trágico, de um modo cómico, de um modo satírico, de um modo elegíaco, etc.”197.
Não remete o autor para a existência de um modo bucólico, mas fá-lo Cardoso Bernardes, partindo precisamente daquela perspectiva e apresentando três razões: o facto de o bucolismo não resultar apenas de uma mera repetição da tradição literária, cujos modelos seriam os Idílios e as Bucólicas de Teócrito e Virgílio, respectivamente. Como já verificámos, mesmo a obra de Teócrito “vem na sequência de uma linha muito
193 Cf. Alpers, Paul, What is pastoral?, Chicago/London, The University of Chicago Press, 1996, pp. 44- 78.
194 Allan Rodway apud Paul Alpers, op. cit., p. 46.
195 Carlos Reis, op. cit., p. 245. Cf. também Genette, op. cit., p. 82.
196 Silva, Vítor Manuel de Aguiar e, Teoria da literatura, vol. I, 8ª edição, Coimbra, Livraria Almedina, 1997, p. 389.
anterior, e foi possível, em parte, pelo grau de desenvolvimento social e cultural da época em que viveu o poeta de Siracusa”198. A segunda razão prende-se com a correspondência entre bucolismo e a necessidade que o homem sente de expressar, através da arte, a sua relação com o tempo, o espaço e os outros homens, o que, aliás, tínhamos já mencionado199. Por último, Cardoso Bernardes defende o bucolismo como modo porque, tal como outros modos, possui uma “funcionalidade intersemiótica”200, o que equivale a uma partilha de signos com sistemas semióticos diferentes, nomeadamente a música e a pintura.
Autores como López Estrada e Erwin Panofsky foram igualmente sensíveis a esse intercâmbio semiótico. O primeiro dedica um capítulo da sua obra Los libros de pastores a “Los pastores y las bellas artes”201, assinalando que, desde as primeiras manifestações pastoris, sempre foi reconhecida a disposição do zagal para a música. Na tradição cristã, também “los pastores son los que perciben primero la música de los cielos, en donde los ángeles anuncian la venida del niño Dios.”202.
A nível da pintura religiosa, são frequentes as imagens natalícias que incluem quer aquele anúncio dos anjos, quer a adoração do Menino pelos pegureiros. É possível encontrar ainda ilustrações de livros pastoris, como a que Simone Martini realizou para o Virgílio de Petrarca ou quadros como o de Nicolás Poussin, Os pastores de Arcádia, que conduz à reflexão sobre a morte no ambiente bucólico.
É sobre as possíveis interpretações acerca dessa pintura que Panofsky discorre num capítulo intitulado “Et in Arcadia ego: Poussin e a tradição elegíaca”203. Na realidade, o tema da morte na Arcádia, a que os escritores greco-latinos não ficaram
198 Bernardes, José Augusto Cardoso, O bucolismo português. A égloga do Renascimento e do
Maneirismo, Coimbra, Livraria Almedina, 1988, p. 15. 199 Vide supra p. 24.
200 Cardoso Bernardes, op. cit., p. 15. 201 Cf. López Estrada, op. cit., pp. 517-535. 202 Idem, p. 520.
203 Cf. Panofsky, Erwin, “Et in Arcadia ego: Poussim e a tradição elegíaca”, in O significado nas artes
alheios, servirá de pretexto à criação de diversos artistas. Ainda antes de Poussin, Guercino pintou dois pastores arcádicos bruscamente interrompidos na sua caminhada ao avistarem uma caveira, colocada sobre um pedestal. A esse objecto acrescentou uma mosca e um rato, símbolos da corrosão provocada pelo tempo. A inscrição existente na pedra, “Et in Arcadia ego”, seria pronunciada pelo crânio, significando que “Mesmo na arcádia, eu, a Morte, existo”. No fundo, tratava-se de um aviso para aqueles que, no presente, folgavam sem pensar nas consequências.
Algum tempo depois, Poussin produziria duas versões da pintura: na primeira as alterações não seriam profundas; mas, na segunda, entre outras modificações, elimina a caveira e acrescenta um túmulo. Logo, a inscrição poderia dizer respeito à pessoa sepultada: “Também eu vivi na Arcádia”. Neste caso, os árcades não são advertidos em relação a um possível futuro desgostoso, mas meditam sobre um passado agradável.
Observemos, por um lado, como também na interpretação das pinturas está em causa a postura do ser humano em relação ao factor tempo: imaginar ou recordar o passado feliz e colocar-se de sobreaviso em relação ao futuro desconhecido. Por outro, reconheçamos que a temática pastoril, apesar da sua aparente simplicidade, é capaz de suscitar reflexões diversas e que a definição de Cardoso Bernardes, apresentada no início deste trabalho, se afigura nitidamente oportuna e coincidente com a análise que efectuámos: o bucolismo, de facto, é “um dos grandes modos que inspiram a criação artística, verbal e não verbal, de todos os tempos.”204.
Assim, convictos de que o bucolismo funciona como um modo assente em atitudes existenciais intemporais, mas que se concretizam historicamente através de diferentes formas literárias, e de que “com a derrocada (pelo menos aparente) dos géneros clássicos, produzida pelo Romantismo, não soçobraram todavia os mitos e os
204 Bernardes, José Augusto Cardoso, “Bucolismo”, in Bernardes, José Augusto Cardoso et alii (dir.),
Biblos. Enciclopédia Verbo das literaturas de língua portuguesa, vol. 1, Lisboa, Editorial Verbo, 1995, colns. 799-800.
temas que estão na raiz da atitude bucólica, porque estes fazem parte da natureza humana”205, procuraremos identificá-los e interpretá-los nos capítulos que se seguem, a propósito da criação literária do século XIX.
205 Mourão-Ferreira, David, “Bucolismo”, in Coelho, Jacinto do Prado (dir.), Dicionário de literatura, vol. 1, 3ª edição, Porto, Mário Figueirinhas Editora, 1983, pp. 129.