Chapter 10 Internationalisation and globalisation of tertiar y education
10.3 Internationalisation of higher education in Norway – an overview
Retornemos mais uma vez ao encontro entre Daniel e Margarida, ainda crianças, já que, para além do enquadramento pastoril, esse episódio tem deleitado também pela imagem de ternura transmitida pelas duas personagens e pelo estado de inocência e despreocupação em que parecem viver, que é, aliás, característico da infância.
Pimentel de Almeida, por exemplo, refere-se às Pupilas como uma “sinfonia da alegria” composta por um “allegro moderato” e um “allegro vivace”311. O allegro moderato corresponderia aos primeiros capítulos do romance, ao dito idílio entre Guida e Daniel; o allegro vivace decorreria no capítulo VII, quando Pedro e Clara se começam a enamorar, como veremos adiante.
Assim, mais uma vez, parece destacar-se a simplicidade e o idealismo de uma obra que conferiu ao seu autor a imagem de mero “contador de histórias para adolescentes”312. Com efeito, para além da “cena infantil [que] é uma das mais interessantes fantasias das Pupilas”313, compõem o universo diegético determinados
barrancos, rasgados pelas torrentes de sucessivos invernos, e cuja entrada quase disfarçavam os troncos robustos dos fetos e das giestas, que, crescendo livremente, haviam atingido proporções quase tropicais (PSR, p. 159); “ia pensando nisto o velho pároco, quando ao tomar por a ponte de madeira, que atravessava um despenhadeiro, de cujo fundo pedregoso chegava aos ouvidos o fragor medonho de uma torrente” (PSR, p. 181).
309 Magano, Fernando, “A lição do ‘senhor João Semana’”, Boletim Cultural da Câmara Municipal do
Porto, vol. II, fasc. IV, Dezembro, 1939, p. 443. 310 Egas Moniz, op. cit., p. 150.
311 Cf. Almeida, Ferrand Pimentel de, “As nuvens nas paisagens de Júlio Dinis”, O Instituto, CXV, Coimbra, 1953, pp. 570-575.
312 Cruz, Liberto, “Júlio Dinis e o sentido social da sua obra”, Colóquio Letras, n.º 7, Maio de 1972, p. 31. 313 Egas Moniz, op. cit., p. 441.
elementos, como a figura da madrasta ruim314, que rapidamente nos reenviam à infância e aos tradicionais contos de fadas:
Em uma noite de Inverno, a mãe de Clara deitara-se às nove horas com a filha; e por um requinte de crueldade estúpida, obrigara Margarida a conservar-se a pé serandando, até concluir certa tarefa que lhe marcara; e, ao deixá-la só, dirigiu-lhe estas palavras cheias de humilhação para a pobre rapariga:
– Minha rica, quem veio a este mundo, sem meios de levar melhor vida, não deve perder o costume de trabalhar, nem ganhar outros, com que, ao depois, não possa. Fica a pé e tem-me essa obra acabada.
Margarida não tentou uma só queixa ou súplica, em seu favor. Calou-se e obedeceu. Era, como disse, no Inverno; fazia um frio excessivo. A lareira estava apagada já; da parede defumada pendia uma candeia, cuja luz bruxuleante era a única a iluminar o recinto. O vento assobiava nas inúmeras fendas da porta da cozinha e entrava em correntes impetuosas pelo tubo da chaminé, indo inteiriçar os membros regelados da desditosa criança, que, só a custo, podia já suster a roca e torcer o fio, para terminar o trabalho. O silêncio da noite era interrompido por mil ruídos sinistros, própriospara amedrontar as imaginações supersticiosas como sempre, mais ou menos, são as da gente do campo.
Margarida, naquele momento, sentiu mais amarga, que nunca, a sua orfandade e o seu desamparo. Chorou, chorou a ponto de se sufocar, e pediu à Virgem que se compadecesse dela.
Lembrou-se então de quando a mandavam sozinha para o monte, e daquelas raras entreabertas de felicidade que lhe fizera sentir a companhia do pequeno Daniel.
As saudades desses dias nunca mais a deixaram. Com elas vivia sempre, com elas se achava só, quando, olhando para o passado, lhe pedia uma recordação de prazer, em paga de tanta tristeza que, no presente, lhe oferecia a vida, de tantas sombras, com que lhe vinha o futuro.315
De outra vez tinha ido Margarida vender fruta ao mercado. Com inacreditável exigência havia-lhe a madrasta fixado, de antemão, qual devia ser o preço da venda, não lhe permitindo baixá-lo, e obrigando a pequena, ao mesmo tempo, a não voltar para casa sem a ter realizado.
Os maus tratos e ásperas repreensões esperavam infalivelmente Margarida naquele dia, vista a exorbitância dos preços estabelecidos e uma tão grande afluência de fruta na praça, que barateava o género. A rapariga chorava e lamentava-se, enquanto os compradores sorriam ao ouvir o preço excessivo que ele pedia pela fruta.316
Partindo destas cenas, Maria Aparecida Santilli considera que “a existência de Margarida […] tem paralelo na de certos personagens de histórias infantis. Como pastora, a pobre órfã vaga pelos bosques, por imposição da terrível madrasta que a obriga também a vigílias de trabalho, sem faltar para o epílogo o clássico príncipe” e acrescenta que “estes simplismos nas histórias de Júlio Dinis são responsáveis pelo
314 Na bucólica virgiliana, o jovem pastor Menalcas, apesar da sua ousadia, também se sente retraído em alguns actos, devido à inflexibilidade dos verdadeiros donos do rebanho, para quem a pastorícia não podia ser simples distracção: “Não me atrevo a apostar nenhum animal do rebanho. Tenho em casa um pai e uma madrasta severa. Ambos contam o rebanho duas vezes por dia e um deles até os cabritos conta!” Cf. Bucólica III.
315 PSR, pp. 33-34. 316 Idem, p. 36.
conceito de ‘literatura repousante’ que os seus livros conquistaram, a ponto de serem destinados às moças.”317.
Cremos, todavia, que esses simplismos dissimulam uma verdade humana e social bem mais amarga. Daniel e Margarida são crianças marcadas pelo estigma da orfandade, privadas da protecção e desvelo maternais, sendo obrigados a assumir desde cedo um rumo responsável e propício ao futuro, de acordo com as possibilidades familiares: o rapaz é mandado para o Porto a fim de se formar; a menina “arredada de propósito de casa”, “passando dias inteiros nos montes” (PSR, p. 26) e, assim, “se sufocaram as naturais expansões e folguedos” (PSR, p. 26) da infância.
Enquanto tempo presente, ela traduz-se, portanto, numa vivência sofrida: recordemos a discrepância entre a existência de um “numeroso rebanho” e a sua manutenção por “uma rapariguita de, quando muito, doze anos de idade”; a mágoa transmitida pela cantiga sobre a Cabreira com quem Margarida se identifica318; ou a comoção do filho mais novo de José das Dornas ao partir da aldeia.
A fase pueril só pode então identificar-se com o prazer e a felicidade quando se torna uma recordação do passado, um repouso para os desgostos do presente e as incertezas do futuro. Margarida evoca as “raras entreabertas de felicidade que lhe fizera sentir a companhia do pequeno Daniel”, quando se sente desamparada e maltratada pela madrasta ou quando entrevê a possibilidade de reencontrar e conviver, após o casamento de Pedro e Clara, com o antigo amigo, já modificado pelos hábitos urbanos. Por sua vez, Daniel, passeando nos campos a fim de se desenfastiar, chegou ao outeiro, “onde sucedera a inocente cena de idílio”, e veio-lhe à “imaginação essa passagem da infância, já quase esquecida; e a imaginação lhe representou então o vulto, suave e
317 Santilli, Maria Aparecida de Campos B., Júlio Dinis, romancista social, São Paulo, Nova série, 1979, p. 61.
318 “Andava a pobre cabreira / O seu rebanho a guardar, / Desde que rompia o dia / Até a noite fechar. // De pequenina nos montes / Não tivera outro brincar, / Nas canseiras do trabalho / seus dias vira passar. // Sentada no alto da serra, / Pôs-se a cabreira a chorar.” (PSR, pp. 15-16).
meigo, da pequena Guida, como uma visão momentânea, rodeada pelo brando perfume da poesia e da saudade.” (PSR, p. 68) Logo, o idílio infantil só fará sentido como resultado de uma “arte de olhar para trás”319, intrínseca à construção da pastoral.
Quando “o espírito, ao sair dessas exaltadas abstracções, se volta de súbito para a realidade do presente, o desencanto é fatal e amargo” (PSR, p. 132). Pois que enlevo nos poderia causar a observação de “crianças, quase nuas, que rodeavam uma pobre mulher, coberta de andrajos e macilenta” (PSR, p. 133)? E de um “pequeno que pedia esmola pela porta dos vizinhos (PSR, p. 55)? Ou de uma rapariga “magra, remendada e com rosto que denotava aflição (PSR, p. 79) e de outra “pobre pequena” que “ia a vergar” com o peso de uma canastra (PSR, p. 55)? Ou ainda dos “pequenos da família” (PSR, p. 53) que assumem o papel de enfermeiros? Estas vítimas do presente social320 constituem notas estridentes na aparente “sinfonia da alegria”, anunciando a progressiva extinção de um universo de inocência, de um mundo puro, simples, material e moralmente consolador como se perspectivava o espaço rural.