As dinâmicas adoptadas por este grupo são a base do entendimento entre os seus membros, actuando como coesão, reprodução e produção de cultura determinada pelo padrão cultural imposto pela cultura skate, bem como impondo regras implícitas de comportamento na utilização dos espaços entre os praticantes. O processo de consciencialização de grupo é um dos factores que mais determina e agiliza as dinâmicas, a iniciação e consequentemente a aceitação ou não de novos indivíduos no grupo.
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Nas observações efectuadas nos vários skateparques, foi interessante denotar a organização da prática em si. O estilo e grau de mestria parecem atribuir respeito ao praticante e consequentemente a prioridade sobre outros praticantes na utilização dos obstáculos. Relativamente a este fenómeno, destaca-se uma das observações efectuadas no skateparque de Odivelas. Aquando esta observação estavam apenas estavam quatro praticantes presentes e todos pareciam se conhecer, formando então um grupo de quatro skaters face ao qual, ao fim de um tempo, averiguei que um dos elementos se destacava. Ora esse destaque era manifestado pela quantidade de vezes em que os outros elementos paravam a sua actividade para observar este elemento a sacar (i.e. efectuar manobras) os seus truques.
Um dos outros elementos era sem dúvida um roockie, ou seja, um novato que não tinha apurado ainda a sua habilidade em cima da prancha. Pode então compreender a estrutura do grupo e a sua motivação. Quanto melhor for o desempenho de um membro, maior é o seu estatuto dentro do grupo e consequentemente a sua posição na liderança do grupo. Pouco depois apareceu um 5º elemento, este parecia estar sozinho e não conhecer os outros, no entanto em escassos minutos as condições no skateparque sofreram uma alteração. Este 5º elemento era sem dúvida um praticante mais exímio. O seu estilo em cima da prancha, os truques que efectuava e a velocidade com que efectuava as suas manobras, demonstravam que este praticante era já um praticante com muita experiência. Nesta altura os primeiros quatro elementos pareciam estar agora retraídos e estupefactos a observar este 5º elemento. O 5º elemento tinha imposto o seu estatuto apenas pela forma como andava, pelos truques que efectuava e era notório que este detinha a prioridade sobre os espaços dentro do skateparque.
Este tipo de situação e exemplificativa do que sucedeu várias vezes noutros locais. O que me leva à conclusão de que existe entre os praticantes da modalidade skate, uma forma de comunicação não verbal assente na própria prática em si, e inclusivamente na performance do corpo enquanto força motriz deste exercício, intimamente ligada ao estilo, que tem como função a organização e atribuição de estatuto dentro do grupo. Seguindo esta lógica poderemos seguramente afirmar que quanto maior for a habilidade do praticante maior será o seu estatuto dentro do grupo.
O praticante ao chegar ao skateparque saca umas boas manobras e acaba por obter o respeito do grupo, neste caso os novatos ou roockies, designação do léxico skater, estão na base desta escala hierárquica. A construção de identidade do grupo passa pelo frequentar os espaços de maior relevância, skateparques ou não, visto que a urbe proporciona imensos obstáculos perfeitos para a prática do skate, como é o caso do largo da Praça da Figueira, onde
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o degrau para a base da estátua é de uma altura ideal para treinar certo tipo de manobras. Retomando o termo proposto, o processo de socialização de grupo (Bucholtz, 2001) parece estar em grande parte assente nas dinâmicas de grupo e é um órgão metafísico de socialização e construção de identidade que parte do grupo para o indivíduo. Este permite a existência de um espaço de manobra para o iniciante definir a sua identidade individual em função do grupo, mantendo assim também a sua originalidade individual. Refere-se estritamente à noção de pertença ao grupo e à forma como ela se constituí agindo numa sensibilização que parte do grupo para o indivíduo. A adopção das práticas, atitudes, valores, comportamentos e formas de falar tal como a própria adopção de posturas performativas complementam este processo de socialização de grupo que vem arbitrar a aceitação ou não do indivíduo no grupo.
O domínio do léxico é também um factor determinante na construção de identidade; uma discussão entre skaters invariavelmente abordará questões sobre manobras, estas, cada uma delas com uma designação própria, a qual cada um dos praticantes terá de reconhecer, de outra forma dificilmente poderá perceber aquilo que se está a discutir. O Street-wear está geralmente ligado às marcas representantes, e é também uma referência na identidade da personagem skater, e, do diferente material necessário à prática. É no skateparque e na rua que se constrói a identidade do skater, é à medida que vai “batendo” o terreno circundante e se adaptando evolutivamente aos obstáculos do skateparque ou aos seus domínios concentrados dentro de um determinado espaço geográfico onde habita (subúrbios ou a grande cidade). O skater enquanto actor social, acaba por estar enclausurado nos espaços urbanos, visto a essência da sua actividade e inclusivamente a sua construção de identidade estarem localizadas num espaço geográfico urbano, um pouco como a sugestão de Goffman (1959).
A competição entre os grupos de praticantes é uma constante, sendo que esta mesma competição surge como um mecanismo que fomenta o desenvolvimento evolutivo individual dentro da actividade desportiva; onde há skaters há sempre competição, no entanto esta competição é qualificada como um mecanismo construtivo fundamental para o desenvolvimento dos skills do praticante, a competição entre conhecidos e desconhecidos promove e salvaguarda o grupo na sua generalidade e o nível de capacidades e difusão de novas tendências. Há uma interacção espontânea entre os indivíduos independentemente dos indivíduos se conhecerem ou não; a competição encabeça um esquema de sociabilidade entre um ajuntamento de skaters num espaço específico. Uma característica observada em vários locais e que apenas pertence a este grupo e o que se pode chamar de fenómeno colectivo, um
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ritual de grupo que se manifesta no embater as pranchas repetidamente no chão quando um dos praticantes, dentro deste clima de competição (este fenómeno foi observado repetidas vezes na ultima etapa do Circuito Nacional de Skate), faz uma manobra brilhante, este tipo de situação costuma acontecer quando estão muitos elementos de elevado nível num
skateparque, no entanto este tipo de ritual é mais frequente acontecer em campeonatos, e em
demonstrações embora esta atitude seja adoptada por grupos mais pequenos.
Os indivíduos identificam-se com o grupo e apropriam-se das suas regras adoptando o léxico, a maneira de agir, o comportamento as atitudes, e os mesmos locais de encontro, integrando todas as características que o vão fazer sentir dentro do grupo, formando uma consciência de grupo. A adopção de regras de conduta e comportamento, como a competição, bem como aspectos exteriores tais como a indumentária, e a linguagem são todos variantes dos mecanismos que mantêm acesa a dinâmica de coesão social dentro do grupo. Não obstante, todas estas lógicas que determinam a aceitação, permitem ao membro do grupo, ainda que dentro da métrica cultural do grupo, manter a sua originalidade individual que se poderá repercutir num aspecto exterior diferente do padrão em uso pela cultura skate.