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se considerarmos o terror como um género do cinema que se fundamenta nas impressões psicofísicas que a obra causa no espectador (ou seja, diferentemente de outros géneros, parece que o filme de terror se define a partir de experiências sensoriais do sujeito — Carroll, 1990), e tendo como um dado significativo o amplo número de pessoas que vão às salas de projeção seduzidas por estes

filmes, teríamos aqui mais uma constatação do quanto as experiências ligadas ao corpo e aos seus estatutos são notáveis, em especial ao que poderíamos chamar de um “biohorror”. Inseridos neste rol, os filmes de zombies serão os seus mais valorosos contribuintes. o facto de o enredo de I’ll See You in my Dreams não apresentar uma explicação sobre as origens dos seus zombies não tira a Miguel Ángel vivas e a Filipe Melo o mérito de abrir caminho para diversas reflexões, uma vez que os seus monstros não saem das tumbas evocados por feiticeiros haitianos, como na tradição dos primeiros filmes do tema: eles parecem, antes, vítimas de alguma epidemia. e, mais do que isso, temos de nos lembrar que qualquer monstro traz em si sinais de “advertência” que podem ser estudados como sintomas da cultura. Concordamos com Felinto, e./santaella, L. (2012: 88): “Não é apenas terror e repugnância [o] que a figura monstruosa provoca. É também fascínio, inquietação, sobretudo, perturbações nos mistérios insondáveis do desejo, o que, até certo ponto, explica o sucesso dos filmes e narrativas assombrosas (...)” Há que se investigar sempre, por trás da figuração monstruosa, os tortuosos caminhos do desejo humano que se manifestam, apesar do recalque que tantas vezes tenta aprisioná ‑lo na sua cela relativamente frágil.

A esta abordagem somam ‑se as questões ligadas à independência do corpo humano em relação à mente — de maneira diversa da ideia romântica da abstração de uma mente que fosse capaz de controlar o físico. ou seja, a fome, a defecação, a prenhez, o parto, a morte, os sintomas ansiosos e fóbicos refletidos na fisiologia, podem ser entendidos como a fonte basal de toda a ficção do horror fantástico, fonte esta que ganha um status jamais imaginado na nossa época. em I’ll See You in my Dreams, entretanto, agrega fortemente a esta lista o sexo na forma de pulsão e culpa — o desejo pela mulher ‑monstro alimentada com batatas17 foi transferido para a mulher nova e sensual, a qual, por sua vez, causa a ira da zombie rejeitada, como mencionámos. o corpo deformado e fragmentado do morto ‑vivo — tão mais visceral e exposto —, pode certamente ser compreendido como uma tentativa de abordarmos — mais uma

17) Filipe Melo comentou, numa entrevista, que este detalhe foi posto para verificar até que ponto o público seria “especializado” e sentiria estranheza perante um zombie alimentado com vegetais. Ao mesmo tempo, entendemos que uma mulher que termina os seus dias alimentada pelas reles batatas dadas pelo marido não tem muito o que esperar dele.

vez, pela liberdade que o cinema assume — os conteúdos pulsionais e libidinais há séculos reprimidos pela cultura e que insistem em se libertar, em se soltar, em se derramar por meio das imagens, como que a dizer ‑nos que eles existem, malgrado o desvelo com que sempre foram tratados.

A banalização da violência em filmes de zombies também apresenta relação com a crise do cinema clássico de discurso melodramático burguês das décadas de 1960 e 1970, e com as novas buscas ligadas à representação das emoções pela tecnologia. uma das vertentes foi, sem dúvida, a da elaboração de um cinema mais sensacionalista, circundante extremo da pulsão escópica, capaz de trocar a narrativa mais intimista pela presença de tecnologias que pudessem oferecer “interatividade”18 e trouxessem os apelos de um parque de diversões para amantes de “experiências radicais”. de facto, I’ll See You in my Dreams tem o ritmo de um videogame e traz, de forma mais sutil, lembranças do porn horror numa das suas cenas. todavia, Miguel Ángel vivas e Filipe Melo conseguiram, com habilidade, percorrer as fronteiras que separam filmes inventivos daquelas tantas produções que trouxeram ao espectador do século XXI os apelos da violência pela violência, do excesso de imagens de sangue, mutilações e deformidades, pornografia e perigos inimagináveis — muitos de matriz fóbica. Este movimento tem, segundo o nosso entendimento, um pico significativo na contemporaneidade porque mantém estreita ligação com a época sensacionalista dos pré ‑cinemas (incluindo aqui as fantasmagorias e os panoramas, os espetáculos à grand Guignol e as visitações a necrotérios em Paris no final do século XIX, que fizeram o frisson de turbas inteiras) e igualmente do primeiro cinema, uma vez que ronda os espectadores, na atualidade, um desejo de se verem imageries e feéries que deixam de lado o poético à Méliès para se buscar o horror dos serial killers, dos monstros contaminadores, das catástrofes apocalípticas. noël Burch (1979: 131) já havia afirmado:

“todas essas formas de agressão nascem dessa relação tão especial, quase hipnótica, que se estabelece entre o espectador e o ecrã a partir do momento

18) Tivemos ondas de inovações como os odoramas, os óculos 3D para o cinema 3D — tantas vezes “ressuscitado no cinema”, o cinema 3D IMAX e a própria difusão do cinema por aparatos tecnológicos cada vez mais acessíveis.

em que se apagam as luzes da sala (...). seja qual for o seu grau de consciência crítica, a partir do momento em que o espectador se encontra só, no escuro, frente ao ecrã, passa a estar à mercê do realizador (...). (...) Por mais que venha a recordar ‑se de que se trata ‘apenas de um filme’ (...) sempre será um instante demasiado tarde: o ‘mal’ já está feito, o desconforto, talvez mesmo o terror, já estão em casa.”19

Como se percebe, não é gratuitamente que o zombie — material horrendo que povoa o cinema do século XXI — se tornou o monstro emblemático desta significativa produção do cinema lusitano. Se, por um lado, conforme foi apresentado, o protagonista nos fez rememorar o personagem do caçador implacável das bruxas do período inquisitorial, por outro, trouxe à tona a possibilidade de estudarmos os conflitos amorosos que engendram relações díspares, raivosas e destrutivas. se vislumbramos, com esta curta ‑metragem, a inserção de Portugal no contexto mundial dos filmes de terror, também entendemos a genuína capacidade que o realizador teve de resguardar os saborosos liames do que podemos chamar de “cor local”, não só pelo viés do idioma, mas também pelos cenários originais utilizados.

No âmbito dos incentivos à produção de filmes de terror português, de que — reforçamos — I’ll See You in my Dreams se estabelece como fundadora, a obra de Miguel Ángel Vivas e Filipe Melo pode ser qualificada como feliz e bem sucedida. ela trouxe uma composição visual agradável para a temática, soube referenciar ‑se a grandes nomes do terror e ainda conseguiu prender o espectador com o seu fôlego breve e bem pontuado.

19) tradução do autor. no original: “Pues todas esas formas de agresión nacen de esa relación tan particular, casi hipnótica, que se establece entre el espectador y la pantalla desde el momento en que se apagan las luces en la sala (...). Cualquiera que sea el grado de consciencia crítica, el espectador sentado en la oscuridad, súbitamente sólo frente a la pantalla, está desde ahora a merced del realizador (...).(...) por más que se acuerde de que ‘sólo es un film’ (...) siempre será un instante demasiado tarde: el ‘mal’ está hecho, el malestar, el terror quizá, están ya en casa.”

Referências bibliográficas: