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6. PAISAGEM, TERRITÓRIO E IDENTIDADE

Mas qual é o vinculo entre o Pampa e seus moradores e de que maneira esse vínculo afeta a identidade e as lógicas das decisões produtivas dos pecuaristas familiares gaúchos? Deffontaines (2006) salienta que o agrônomo deve deixar a ideia de parcela e de potencialidade desenvolvida pela agronomia hegemônica (do tipo “façon-de-produir”), para adotar uma visão mais global da unidade produtiva, deslocando do centro da análise a estrutura do sistema produtivo para destacar o sistema de práticas e percepções.

A nossa primeira hipótese é que a paisagem oferece um quadro conceitual pertinente para expandir o olhar de agrônomos e outros tomadores de decisões e compreender melhor a relação entre Pampa, identidade, e as lógicas das decisões produtivas dos pecuaristas familiares gaúchos. Isso é possível porque a paisagem será definida aqui de maneira ampla, integrando dimensões sensíveis como as percepções dos atores, sua afetividade e suas vivências pessoais.

Nesse capítulo, tentaremos compreender melhor o conceito de paisagem segundo uma perspectiva ampla, que inclua as percepções e os valores de seus moradores. Por outro, analisaremos as interações entre os conceitos de paisagem, território e a identidade gaúcha por meio de uma análise que privilegie as percepções dos pecuaristas familiares gaúchos sobre os seus próprios modos de vida e as transformações territoriais recentes do bioma Pampa. Nossa pergunta-base será: quais são os valores e os sentidos que os pecuaristas outorgam à paisagem do Pampa e à sua biodiversidade? Também tentaremos responder a pergunta sobre os desafios apresentados por essa valorização paisagística face à necessidade de criar práticas produtivas mais sustentáveis do ponto de vista social, cultural, econômico e ambiental.

De acordo com Cloarec, “as representações elaboradas pelo homem sobre as suas relações com o meio onde habita afetam e expressam a sua ação sobre esse meio” (1984: 285-286). Isso também é verdade no caso da pecuária familiar de corte no bioma Pampa, onde a cultura do gaúcho favoreceu uma convivência relativamente harmoniosa com a paisagem por mais de 200 anos (IUCN, 2008, PARUELO et al., 2004, PEREIRA, 2002; LUTZENBERGER, 1997). Isso, apesar das informações sobre o impacto ambiental negativo da pecuária no mundo, como o Livestock’s Long Shadow da Food and Agriculture

Organization da FAO (2006). A FAO sugeriu modificar a dieta do gado para reduzir essas

emissões, mas o alimento alternativo, a soja, abre perguntas sobre a perda da biodiversidade no bioma Pampa, além de sua triste história de desmatamento em áreas vulneráveis como a Amazônia e o Cerrado. A soja requere também o uso do herbicida

glifosato, que extermina qualquer outro tipo de vegetação natural. Diferentemente das práticas de desmatamento da Amazônia (TOURRAND & VEIGA, 2003), o desmatamento não é importante no Pampa, onde não existem florestas exuberantes, mas matas ciliares e gramíneas que convivem perfeitamente com o gado. Estudos realizados com a pecuária no Rio Grande do Sul (MARTINS COSTA et al., 2000; MARTINS COSTA, 2007), confirmam a informação da IUCN (2008) segundo a qual, se bem manejada, a pecuária extensiva pode contribuir para a preservação do bioma Pampa e até da vegetação remanescente da Mata Atlântica.

Como já foi indicado, o bioma Pampa é umas das poucas formações naturais no Mercosul que ainda conserva áreas não alteradas graças ao uso tradicional para a pecuária, atividade que não exige a supressão da vegetação natural, mesmo se a altera. Durante dois ou três séculos de antropização rural, com uma degradação do ambiente relativamente baixa, os gaúchos criaram um ambiente humano sabiamente articulado com o ambiente natural. Não queremos dizer com isto que o desmatamento sofrido pelo Pampa não seja importante: o desmatamento, especialmente no Rio Grande do Sul, foi intenso e provocou, juntamente com outros processos naturais, uma crescente desertificação em algumas regiões, erosão, assoreamento de rios, dentre outras conseqüências. Segundo os Mapas de Cobertura Vegetal dos Biomas Brasileiros, apresentados pelo Ministério do Meio Ambiente do Brasil e o IBAMA, o bioma Pampa apresenta um total de 41,32% de cobertura vegetal nativa (com quase 60% de desmatamento). Desse total, 23,03% correspondem a formações campestres, 5,19% a formações florestais e 12,91% a formações de transição. Das áreas consideradas não remanescentes, 58,68%, há 9,99% de corpos d'água naturais ou artificiais (ECODEBATE, 2009). O avanço das monoculturas (de soja, arroz e eucaliptos e pinhos para a produção de celulose e carvão vegetal, entre outros) tem provocado dramáticas transformações territoriais que podem decretar o fim do Pampa como uma grande unidade natural (IUCN, 2008).

O impacto ambiental da implantação de monoculturas e de árvores exóticas no Pampa pode ser classificado em três categorias: (i) redução da biodiversidade; (ii) redução da disponibilidade de água, e (iii) salinização do solo. Especialistas em preservação da biodiversidade pampiana, como Bencke (2006) e Chomenko (2006) afirmam que não é necessário que uma grande parte do bioma seja convertida em monoculturas para afetar a sua biodiversidade e seu ambiente natural: a maioria das espécies mais vulneráveis não ocupa todo o Pampa, mas regiões muito restritas de campos. Assim, se essa região em particular for saturada com plantios extensivos, a sobrevivência de toda uma espécie pode ser posta em risco. De forma semelhante, certas regiões têm menos água disponível do que

outras, porque chove menos. Nessas regiões, grandes plantações podem reduzir o suprimento de água para os rios e arroios, transformando-os em cursos d´água temporários e causando ou intensificando as estiagens, o que traz graves consequências sócio- econômicas e ambientais. Por fim, árvores têm raízes mais profundas do que os capins e ervas dos campos nativos. Assim, movimentam depósitos de água subterrânea mais profundos, trazendo junto os sais lá acumulados. Isso pode causar a salinização do solo, algo já constatado no Pampa argentino (Bencke, Idem).

Essas transformações nos sistemas de produção certamente exigem mudanças no perfil e nas estratégias de adaptação dos pecuaristas familiares, que acabam por desvinculá-los de suas tradições seculares. As tradições se mantêm pelos usos e atividades tradicionais. Com a modificação substancial da paisagem, a identidade gaúcha –descrita mais abaixo- corre o risco de desaparecer. Mas não se trata de pensar na cultura do gaúcho como algo estático, como um cartão postal ou uma peça de museu. Antes da chegada da pecuária no Pampa, outras culturas (indígenas) viviam neste bioma e foram expulsas pelos colonizadores. As tradições são sempre modernidades envelhecidas: a cultura e as tradições evoluem junto com as sociedades e uma visão romântica da pecuária gaúcha não contribui para um debate realista sobre as possibilidades do setor.

Porém, a história demonstra que qualquer desenvolvimento e mudança de modos de vida repentinos e impostos por interesses econômicos podem levar a uma importante perda cultural e natural. Essas transformações territoriais deveriam, então, ser observadas com maior atenção pelos gestores de políticas públicas.

Entender melhor o vínculo entre os pecuaristas familiares gaúchos e a sua paisagem, assim como as lógicas e os valores presentes na sua tomada de decisões, podem ajudar a favorecer um desenvolvimento sustentável do ponto de vista ambiental, social, cultural e econômico no bioma Pampa.

Essa compreensão requer uma leitura antroposocial da paisagem a fim de interpretar e lançar hipóteses sobre o entendimento (percepções e representações) que os pecuaristas possuem acerca dos elementos geo-biocenóticos constituintes das paisagens rurais. Pesquisas no âmbito da gestão e manejo dos recursos naturais em áreas rurais têm sido realizadas tradicionalmente pela Geografia Regional Tropicalista desde os anos 50, especialmente nas comunidades rurais africanas. Por sua vez, a Agronomia tem se aproximado tardiamente da problemática sócio ambiental da gestão dos recursos naturais (FLORIANI et al., 2008).

Da revisão de seus preceitos científicos a partir dos 80 do século XX, passada a euforia da modernização da agricultura, é forçada a se abrir à abordagem espacial (territorializada) das

práticas produtivas. Da junção da paisagem física com a cultural derivará nossa interpretação da paisagem rural: a concepção dos pecuaristas a respeito da natureza (suas matrizes cognitivas) aparece em seus discursos e em suas práticas agrícolas (as marcas) na paisagem, da qual emergem entidades espaciais que dão identidade ao território da pecuária familiar.

Nesse sentido, tratou-se de identificar e caracterizar as marcas e as matrizes que configuram as paisagens rurais, transformadas pela pecuária familiar do bioma Pampa, isto é, cabendo decifrar os códigos ecológicos desses pecuaristas - resgatando o termo utilizado por Blanc-Pamard (1986). Não obstante, desvendar as múltiplas dimensões da paisagem torna-se um objetivo audacioso que só pode ser concebido a partir de um projeto de estudo interdisciplinar.

Com o surgimento de novos problemas socioambientais advindos do seio do modelo modernizador da agricultura, como o avanço das monoculturas de soja e de eucaliptos no bioma Pampa, novos atores rurais começam a questionar e demandar soluções aos agrônomos com cujas ferramentas científicas e técnicas se mostram incapazes de responder ou oferecer alternativas às populações excluídas e aos ambientes degradados pelo processo modernizador.

Com a crise do paradigma científico moderno, os esquemas de avaliações clássicas das potencialidades das terras mostram-se combalidos em seus fundamentos. Os agrônomos devem agora levar em conta o espaço, que se torna uma dimensão primordial para pensar as ações sobre a parcela e a exploração agrícola.

É preciso, então, abrir a analise à complexidade do território, da paisagem e da identidade. Assim, a paisagem e a abordagem espacial das práticas agrícolas estão no centro de uma nova forma de ver o campo cultivado. O campo, espaço definido pela identidade das práticas, faceta de uma paisagem percebida e vivida por um grupo social, torna-se o centro da análise geo-sócio-agronômica. A expressão geo-sócio-agronômica é um neologismo utilizado por Floriani et al. (2008) para representar uma tentativa de reconstrução do termo géo-agronomie de Jean-Pierre Deffontaines (1995a e 1995b) de acordo com um novo referencial teórico-metodológico, resultante do apoio das ciências sociais na discussão da paisagem, isto é, enquanto categoria teórica integradora da sociologia com a geografia e agronomia.

Seguindo nessa linha, esse capítulo se divide em três partes: (i) uma discussão teórica sobre a necessidade de uma definição de paisagem que tenha em conta suas múltiplas dimensões – sociais, geográficas e agronômicas - e as percepções de seus moradores; (ii) uma descrição da cultura gaúcha e do impacto negativo da monocultura sobre a diversidade

social e cultural da região; (iii) a apresentação das principais conclusões a partir de 75 entrevistas feitas com produtores de Uruguai, Argentina e Brasil sobre as suas percepções acerca da paisagem, do gado, e da sua identidade.

6.1. DIVERSIDADE CULTURAL NO BIOMA PAMPA: A CULTURA DO GAÚCHO

"Diversidade cultural” refere-se à multiplicidade de formas pelas quais as culturas dos grupos e sociedades encontram sua expressão. Tais expressões são transmitidas entre e dentro dos grupos e sociedades (Convenção sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais da UNESCO, 2005). Segundo a UNESCO, a diversidade cultural se manifesta não apenas nas variadas formas pelas quais se expressa, se enriquece e se transmite o patrimônio cultural da humanidade mediante a variedade das expressões culturais, mas também através dos diversos modos de criação, produção, difusão, distribuição e fruição das expressões culturais, quaisquer que sejam os meios e tecnologias empregados. A UNESCO estabelece um claro vínculo entre identidade e diversidade cultural quando expressa, na mesma Convenção, que "Conteúdo cultural" refere-se ao caráter simbólico, dimensão artística e valores culturais que têm por origem ou expressam

identidades culturais (UNESCO, 2005).

O vínculo estreito entre desenvolvimento sustentável e diversidade cultural também é descrito pela Convenção da UNESCO, que estabelece que “a diversidade cultural constitui grande riqueza para os indivíduos e as sociedades. A proteção, promoção e manutenção da diversidade cultural é condição essencial para o desenvolvimento sustentável em benefício

das gerações atuais e futuras” (UNESCO, 2005). A aceleração das mudanças e das

interações originadas pela globalização e as novas tecnologias podem intensificar, segundo a UNESCO, a interação entre culturas, mas a mesma globalização constitui também um desafio para a diversidade cultural, especialmente no que diz respeito aos riscos de desequilíbrios entre países ricos e pobres (Idem).

Quando o bioma Pampa atravessa as mudanças impulsionadas pela globalização, a cultura gaúcha, tão fortemente vinculada à paisagem, também se transforma. Mas para falar da identidade cultural gaúcha, será necessário primeiro definir o que é “identidade cultural” e o que é ser gaúcho. Esse último é um tema complexo e de longa discussão, e nem sempre livre de sentimentalismos e mitos, que exige ademais diferenciar entre o gaúcho rio- grandense (do Brasil) e o gaúcho platino (da Argentina e do Uruguai).

Silva e Souza (2006) afirmam que a identidade cultural vai se formando na assimilação entre o passado e o presente, o histórico e o moderno. Desta forma, a cultura entendida como “o

registro de um povo” se encontra em um processo contínuo de transformação, e, nesse

sentido, a formação da identidade cultural de um indivíduo se dá durante toda a sua existência. Segundo os autores, a construção da identidade se vale da matéria-prima fornecida pela “história, geografia, biologia, instituições produtivas e reprodutivas, pela memória coletiva e por fantasias pessoais, pelos aparatos de poder e revelações de cunho religioso”. O que ressaltam Silva e Souza (2006:03) é que se faz necessário compreender a identidade cultural como elemento complexo e em constante metamorfose e que cada contexto compreende uma face do mundo cultural do indivíduo.

6.1.1. A IDENTIDADE DO GAÚCHO

A identidade do gaúcho é reconhecida como algo diferenciado fruto da sua formação histórica, da sua posição geográfica, de sua ocupação territorial, da sua combinação étnica e das suas condições sociais, ambientais e econômicas (RIBEIRO, 2009). O próprio termo “gaúcho” possui múltiplos significados. Muitos defendem que o termo provém da palavra quíchua ou aimara huajcho que significa órfão, guacho, pessoa pobre. Para o português José de SALDANHA los gauches eram os vagabundos ou ladrones do campo (FONSECA,1982: 18). Existem em torno de trinta hipóteses apresentadas por diferentes autores sobre os significados desse vocábulo:

Entre elas destacam-se gatucho, primeira pessoa do presente do indicativo do verbo gaudere: ter gosto pela liberdade; gatchu, do indígena araucano: companheiro, e ainda gauhu-che, que provém de gauhu (canto triste) e che (gente): nessa conjugação quíchua, o gaúcho seria aquela gente que canta triste. (CÔRTES, 1981:15-16).

Precisas ou não tais definições, o certo é que elas, ao serem divulgadas pela historiografia, contribuíram para o discernimento e acabaram por identificar o tipo social gaúcho com cada uma delas um pouco. A origem dos símbolos da cultura gaúcha também alimenta o debate. O uso da infusão “mate”, como se chama na Argentina e no Uruguai o chimarrão, é um bom exemplo. Roberto Ave-Lallemant (1812-1884) visitando o Rio Grande do Sul em março de 1858, registra a importância folclórica da erva-mate, que perdura até nossos dias:

O símbolo da paz, da concórdia, do completo entendimento – o mate! Todos os presentes tomaram o mate. Não se creia, todavia, que cada um tivesse sua bomba e sua cuia própria; nada disso! Assim perderia o mate toda a sua mística significação. Acontece com a cuia de mate como à tabaqueira. Esta anda de nariz em nariz e aquela de boca em boca (AVE-LALLEMANT, 1976).