O sorriso do povo brasileiro consubstancia relações sociais que apontam as profundas e crescentes desigualdades sociais no universo cultural que nos circunscreve. Com efeito, há um fato que encarna múltiplos sentidos e significados: o Brasil possui vinte e seis milhões de pessoas sem dentes. Pesquisa feita pela Fundação Oswaldo Cruz para a Organização Mundial de Saúde (OMS) revela que 14,4% dos brasileiros - cerca de vinte e seis milhões - já perderam todos os dentes (GÓIS, 2004). Esse é um indicador a ser considerado nos processos de vulnerabilidade social
O sítio do governo francês AmbaFrance, da Embaixada da França no Brasil, divulga lei de 27 de julho de 1999 como uma conquista legal na luta contra a exclusão social, estabelecendo o seguro saúde universal que, no âmbito do “Direito à Saúde para Todos”, evidencia o significado da dentição nos processos de sociabilidade, ao definir:
Além da possibilidade de tratar-se adequadamente em caso de doença, esta medida permite, em especial, a obtenção de tratamentos dentários, necessidade a que tais pessoas tinham anteriormente de renunciar, sabendo- se que uma boca desdentada é um fator de estigmatização social.
O cirurgião-dentista Marcos Groisman (2008, p. 8), no artigo “De boca aberta”, divulgado no sítio Bemzen/Qualidade de Vida, enfoca a dimensão social da estética bucal ao acentuar:
A saúde começa pela boca e, se sorriso bonito ajuda muito, melhora também a auto-estima e torna a pessoa mais confiante nos relacionamentos, tanto amorosos como profissionais. Cuidar-se ajuda no amor, na saúde, na profissão. Contribui para o sucesso e a felicidade. Um belo sorriso abre muitas portas.
Hoje, a odontologia, em consonância com a cultura da sociedade de consumo, institui necessidades sociais, transformando um padrão de estética bucal em uma mercadoria que atrai elites e segmentos da classe média em busca do sorriso perfeito, reconstruído nos circuitos midiáticos. Inegavelmente, vive-se, hoje, o primado dos aparelhos ortodônticos que, no imaginário social, afirmam-se como signo de juventude, abrindo - em meio às dolorosas correções - portas para o sucesso afetivo e profissional.
Segundo o odontólogo Heber Lopes (1999, p. 43), “o sorriso, como os olhos, é
também um espelho que reflete a alma humana”. Nesse sentido, cuidar do sorriso é cuidar,
simultaneamente, da autoestima. Penetrando a lógica da asserção de Lopes, quem exibe dentes belos e saudáveis também tende a externar na face a imagem de um vencedor, com as consequências favoráveis que essa atitude promove.Chama a atenção, então, esse cirurgião- dentista, para o fato de que não basta ser bem-sucedido, pois se faz necessário “exalar sucesso por todos os poros” (LOPES, 1999, p. 47). Portanto, ele defende a ideia de que a comunicação não verbal desencadeada pelo sorriso contribui para a realização pessoal e profissional, discurso que vai ao encontro da mercantilização da estética bucal.
Avançando nessa razão mercadológica contemporânea, percebe-se que a sociedade demonstra particular preferência pelos vencedores, o que vale igualmente para famosos e anônimos. No anonimato das vidas cotidianas, marcam-se pequenas vitórias
diárias, como uma boa venda, uma aprovação nos exames escolares, um contrato assinado, ou a conquista de uma amizade ou amor. E a odontologia, vendendo a estética bucal, insere-se na perspectiva atual da concorrência, da disputa e do consumo.
Nota-se, com efeito, que os serviços odontológicos estão ocupando, cada vez mais, dimensões além da esfera biológica, da simples cura da dor de dente e da manutenção da função mastigatória. A estética bucal avança por dimensões psicológicas e sociais, “vendendo” também facilitadores de autoestima e de realização pessoal e profissional, como expressão das assimetrias sociais. Constata-se expressivo contingente de homens e mulheres que não tem acesso ao dentista, perdendo os dentes ao longo dos anos. É o exército de desdentados que abdica do sorriso aberto em público, tentando esconder, em um “sorriso amarelo”, o estigma de uma boca sem dentes ou com dentes mutilados.
Esse exército de desdentados, com uma estética bucal estigmatizada24, tem no seu interior jovens que, no cotidiano de pobreza em que vivem, foram privados do acesso aos serviços odontológicos como um direito de cidadania. São jovens que portam um “sorriso amarelo” que beira o não sorriso.
É fato que a ciência, a estética, a religião, a moral têm a prerrogativa de definir parâmetros de classificação social. É nessa perspectiva, que Michel Foucault (1979), denuncia a dimensão disciplinar da medicina na classificação do louco, do criminoso, do doente. Atualmente, a medicina continua disciplinando a sociedade, através de mecanismos de seleção entre “normais” e “anormais”, “saudáveis” e “doentes”, “belos” e “feios”, os que estão dentro dos padrões a qualquer custo e os que estão fora do padrão.
Exercendo a razão crítica, ouso afirmar que a odontologia, em seu campo específico, também assume uma dimensão disciplinadora. Hoje, essa dimensão mostra-se com clareza, através das imposições de estética bucal que se difundem no âmbito da cultura de consumo. É o parâmetro de alinhamento dos dentes e sua cor, é a arquitetura gengival, enfim, é um padrão de sorriso perfeito que passa a ser perseguido como uma necessidade social para aqueles que conseguem pagar por seu acesso.
24 Entendo como “estética bucal estigmatizada” a apresentação comprometida dos dentes por cáries, por dentes
extraídos, por lesões gengivais e restaurações precárias. A rigor, o quadro de dentição comprometida é inaceitável socialmente em pessoas que compõem as elites e as classes médias. É uma marca da pobreza e seu cotidiano de privações é naturalizado por uma sociedade que se faz indiferente às opressões e aos dramas do ser pobre.
No cenário de disciplinamento de rostos e de sorrisos, via imposição de um padrão de estética bucal, a perda da boa dentição parece funcionar como um distintivo de exclusão. Assim, os jovens pobres de periferia que, ao longo da vida, não tiveram acesso ao direito a serviços odontológicos e não conseguiram manter uma aparência dentária socialmente aceitável, vão ser marcados pelo estigma, na perspectiva tematizada por Erving Goffman (1988).
Segundo Weiss e Ramakrishna (2008), a pesquisa científica sobre o estigma interessa tanto às ciências sociais quanto à saúde pública, devendo voltar-se para uma maior sensibilidade em relação às dimensões culturais e reconhecendo a relevância das questões a partir de pontos de vista que incluem a experiência do estigma entre pessoas com determinado problema de saúde.
A rigor, o comprometimento dos dentes pode tornar-se um atributo profundamente depreciativo que inabilita o indivíduo para a aceitação social, configurando-se um processo de estigmatização. Conforme Goffman, o indivíduo estigmatizado tenderia a apresentar baixa autoestima, um “eu precário” sujeito a discriminação e ao descrédito por parte das outras pessoas. Logo, a perda da boa dentição, como atributo estigmatizador, parece interferir nas formas de sociabilidade, ou seja, nas relações da vida social, expressando-se, particularmente, em duas de suas esferas: a inserção profissional e os relacionamentos amorosos.
Para Norbert Elias (1976), quando um grupo consegue afixar um rótulo de inferioridade humana sobre outro e fazê-lo prevalecer, põe-se em curso um processo de estigmatização social que não pode ser reduzido a uma simples questão de pessoas que, individualmente, demonstram desapreço por outra. A rigor, é um processo do grupo que remete à sociodinâmica da estigmatização. Nesse sentido, cabe investigar a sociodinâmica do processo estigmatizador no âmbito de vida dos jovens pobres a partir de um enfoque específico: a questão da dentição vinculada a um padrão de estética bucal.
No olhar de Stöer, Magalhães e Rodrigues (2004), o corpo pode aproximar ou afastar as pessoas de determinadas realidades sociais, constituindo assim lugar de exclusão ou inclusão social. Por esse raciocínio, o corpo pode apresentar diversos fatores desencadeadores do processo de exclusão/inclusão social, como moda/vestuário, identidades corporais impressas, deficiência, e idade. Observa-se assim que alguns fatores podem ser controlados
pela pessoa, como o vestuário, o cuidado com o corpo, a impressão de identidades corporais como piercings e tatuagens; outros fatores se relacionam a condições de difícil alteração, como deficiência e idade.
A estética bucal constitui também fator de exclusão ou inclusão social, vinculada à produção do próprio corpo. Diferentemente das cirurgias plásticas com finalidade puramente estética, a estética bucal configura uma necessidade básica do ser humano, que precisa exercitar a função mastigatória. No entanto, também guarda forte componente estético capaz de contribuir para a exclusão ou inclusão social.
Barreira (1999) chama a atenção para os processos de diferenciação espacial e social que ocorrem em Fortaleza, na contemporaneidade, movendo o estigma pelo pertencimento a comunidades localizadas em territórios marginalizados. Assim, esse tipo de estigmatização implica uma demarcação espacial da cidade que afeta os jovens da periferia, os quais se sentem discriminados e condenados à condição de eternos suspeitos, sob o ponto de vista dos moradores do outro lado da cidade. Esse estigma, ao que parece, reflete o medo vivido pelos habitantes dos espaços não marginalizados das figuras excluídas do sistema de troca entre iguais. Essa linha de análise do estigma parece abrir significativa via de reflexão para avançar na análise do objeto que estou a construir: os sentidos e significados do sorriso no universo de vida dos jovens pobres da periferia de Fortaleza, imersos na civilização do capital e suas contradições e assimetrias.
Portanto, o fenômeno dos sorrisos das juventudes pobres, situadas nas periferias da vida desperta minha capacidade de espanto e indignação. De fato, instiga-me a problematizar os sentidos e significados dos sorrisos das juventudes nas periferias da vida em seu universo social. Logo, sinto-me tentado a romper com as explicações do senso comum que naturalizam a criminalização e os dramas juvenis, restringindo sua visão a um viés moralizante, que generaliza, discrimina e considera os jovens pobres o “outro” que é diferente, é inferior, é “gente de baixo”. Na realidade, é um esforço de desconstrução que vem se impondo nesta minha trajetória no ofício da pesquisa em ciências sociais.
Seguindo os princípios do “pensar relacional”, preconizado por Bourdieu (1989), movimento, no curso de reflexões e análises consubstanciadas nos diferentes capítulos da tese, instrumentos teóricos para compreender sentidos sociais dos sorrisos das juventudes pobres, revelando o que está oculto e mesmo invisibilizado. É o exercício de adentrar o
mundo estranho, complexo, desafiante das juventudes que estão nas periferias da vida, no fio da navalha da lógica do capital, em meio a processos de exclusão e inclusões precárias (CARVALHO; GUERRA, 2008). Em verdade, esse é um exercício da Sociologia das Ausências e da Sociologia das Emergências, segundo as trilhas de uma nova racionalidade propugnada por Santos (2006).
2.3 Sorrisos das Juventudes nas Periferias da Vida na Civilização do Capital: Metáforas