VII. Conclusion
7.4. Limitations of the study
A arquitetura moderna desempenhou importante papel nas origens da habitação social no Brasil. Tais posturas foram incorporadas à produção habitacional do Instituto de Aposentadoria e Pensões, os conjuntos habitacionais dos IAPs, o que foi considerado um marco na habitação social brasileira.
Os arquitetos brasileiros, em grande parte, adotaram a atitude de projeto concebida pelo movimento moderno, utilizando-se dos princípios pautados na Carta de Atenas. Introduziram uma concepção socializada nos conjuntos e acreditavam que a habitação
deveria ser um serviço público, chegaram a ser incorporados aos projetos equipamentos sociais, comunitários e utilizaram como solução habitacional os edifícios multifamiliares.
Bonduki (1998) destaca ter contribuído na renovação das tipologias de projeto, do processo construtivo, implantação urbanística, enfim, na qualidade arquitetônica dos conjuntos residenciais. Ressalta também que a opção por blocos de edifícios coletivos com equipamentos sociais e comunitários foi uma conseqüência da visão politicamente progressista e influenciada pelo Partido Comunista do Brasil –PCB-, em contraposição à concepção da casa própria isolada.
A construção do conjunto Vila Guiomar, produzida na década de 40, em Santo André, promovida pelo Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Industriários – IAPI -, é considerada um marco histórico na produção de grandes conjuntos habitacionais em São Paulo. Foi projetada por Carlos Frederico Ferreira para 3 mil unidades habitacionais. Após essa obra pioneira, houve outros conjuntos produzidos pelo IAP durante as décadas de 40 e 50 como: Vila Heliópolis, Moóca, Vila Mariana, Osasco cujos projetos mantiveram os princípios racionalistas da habitação coletiva operária.
Os projetos dos conjuntos IAPs foram pautados nos princípios da corrente progressista, com grandes edifícios dispostos em blocos laminares, construção dos equipamentos públicos e comunitários, produzindo uma valorização do espaço público. Esses conjuntos habitacionais adquiriram uma imagem positiva frente à sociedade, devido ao bom padrão construtivo, conforto dos apartamentos, previsão de grandes áreas livres e por possuírem uma inserção urbana privilegiada.
Os novos conjuntos que começaram a ser construídos a partir de 64, com a produção da COHAB-SP, representaram uma alteração radical em relação à concepção urbanística dos conjuntos IAPs da região metropolitana. Há relatos de experiências desastrosas devido à má qualidade construtiva e a exigüidade das soluções espaciais, resultando no abandono ou até na depredação dos imóveis. Podemos mencionar o caso de conjuntos residenciais construídos na periferia da região metropolitana do Rio de Janeiro pela COHAB-GB, durante a década de 60, como: Vila Kennedy, em Senador Camará, Vila Aliança, em Bangu, Vila Esperança, em Vigário Geral.
Não mais se privilegiou a localização do empreendimento, buscando solo mais barato nas periferias urbanas. Perdeu-se também o sentido social dado à habitação, na previsão de espaços de uso coletivo e dos equipamentos comunitários, resumindo-se a unidade habitacional, muitas vezes entregue desprovida das infra-estruturas básicas.
Bonduki (1998) demonstra que apesar do BNH ter estruturado uma verdadeira política habitacional, em muitos aspectos, significou um retrocesso em relação ao que foi realizado pelos IAPs. Admite, que partir da atuação do BNH, ocorreu um divórcio entre a arquitetura e o urbanismo, o que diferiu da atuação dos IAPs, com repercussões na qualidade do espaço urbano, devido aos projetos considerados medíocres e desvinculados do meio físico e da cidade.
Os projetos do período BNH caracterizaram-se pela precariedade das soluções e a utilização de projetos padronizados, implantados da mesma forma em áreas com condições físicas, ambientais, sociais e culturais distintas. Nogueira (2003, p.175) relata:
A implantação dos blocos é normalmente feita após uma terraplanagem que transforma toda particularidade topográfica do terreno natural em corte e aterro. Internamente o espaço é organizado conforme uma repetição de um suposto padrão convencional: quarto, sala, banheiro, cozinha. Não se desenha o espaço coletivo, o dentro é a unidade habitacional, o fora é o caminho para o trabalho, para a escola, para as compras. O entorno dos conjuntos, situados em sua maior parte em áreas periféricas, ou mesmo francamente rurais, reforça o seu aspecto desolador.
Podemos dizer que alguns projetos urbanísticos da CECAP produzidos durante as décadas de 60 e 70 também compartilharam do pensamento progressista, presentes nos projetos dos IAPs, de forma simplificada. Acreditamos que a habitação social desenhada pelos IAPs influenciou, fortemente, a produção habitacional e a formação profissional das décadas seguintes. Há que se admitir que alguns conjuntos residenciais da CECAP do período BNH, mesmo que em um momento político ditatorial, procuraram em seus projetos criar espaços que pudessem culminar em um modo de vida do trabalhador, mais humano, mais coletivo, aspirando utilizar-se da arquitetura e do urbanismo para um novo projeto social.
Entendemos que o projeto urbanístico do Parque Vicente Leporace se insere neste contexto, pois diferiu, conceitualmente, da produção em massa do período BNH, que buscou a redução de custos e levou a um empobrecimento dos projetos habitacionais, se comparados aos projetos dos IAPs.
Segundo Bonduki (1998, p.135),
Introduziu-se, no repertório da habitação social brasileira, um suposto racionalismo formal desprovido de conteúdo, consubstanciado em projetos de péssima qualidade, monótonos, repetitivos, desvinculados do contexto urbano e do meio físico e, principalmente, desarticulados de um projeto social.
Vale destacar algumas experiências da CECAP devido à visão ampliada dada a habitação social, com características claras do pensamento progressista. Foi o caso do
conjunto habitacional “Zezinho Magalhães Prado”, construído em Guarulhos, localizado em região industrial, com 4680 apartamentos. O projeto foi desenvolvido pelos arquitetos Vilanova Artigas, Paulo Mendes da Rocha e Fábio Penteado.
Inicialmente, foi prevista a construção de 10.600 habitações, que seriam distribuídas por 6 “freguesias”. Previa-se a instalação de um grande número de equipamentos sociais e de convivência que atendessem também os bairros vizinhos, como: estádio, teatro, clube, igreja, um grande comércio, além de praças e áreas verdes. Cada freguesia seria composta por 32 blocos de 60 apartamentos, num total de 1920 apartamentos. O projeto pretendia definir um modelo, que poderia ser reproduzido em massa através de um processo de modernização e industrialização da construção, assim como em outros setores industriais. (NOGUEIRA, 2003, p.178)
A concepção urbanística dos projetos da CECAP, durante a década de 70, foi marcada por uma intensa atividade profissional de questionamento da produção habitacional do período inicial do BNH. Passou-se a incorporar, em seus projetos, uma nova metodologia projetual, utilizando-se dos conceitos progressistas e incorporadas às críticas feitas a esta corrente urbanística, além de tratar de período de valorização profissional e de estruturação de uma política habitacional para o Estado de São Paulo.
Nesse período, foi concebido o projeto do Parque Vicente Leporace, podemos dizer que este trabalho projetual veio demonstrar a aplicação de metodologia desenvolvida no âmbito da CECAP e também contemplou as novas preocupações que permeavam o pensamento urbanístico no campo da habitação social. Pode ser considerado um dos maiores empreendimentos habitacionais do Estado de São Paulo, do período BNH, que incorporou a concepção urbanística socializada do habitar.