VI. Analysis and discussion
6.4. Lens 4: Institutional Perspectives
6.4.2 How are the new norms and rules embedded?
Figura 2 - Da esquerda para a direita: Mestre Pé de Chumbo, Mestre João Pequeno de Pastinha (falando para a
platéia após encerramento da roda realizada no Senac/Sesc – espaço onde funcionou o Ceca/Largo do Pelourinho, no. 19 - como parte da programação do IV Encontro Internacional de Capoeira Angola – AJPP – Ceca realizado de 12 a 18 de julho de 2005) e Mestre Raimundo Dias. (Foto: Simões, julho de 2005).
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Lévi-Strauss (2002, p. 38) ao discorrer sobre a arte afirma que ela “se insere a meio caminho entre o conhecimento
científico e o pensamento mítico ou mágico, pois todo mundo sabe que o artista tem, ao mesmo tempo, algo de cientista e do bricoleur: com meios artesanais, ele elabora um objeto material que é também um objeto de conhecimento”.
Mestre João Pequeno (in Lima, 2000, p. 1) “nasceu em 27 de dezembro de 1917 em Araci na Bahia, uma cidade ao norte de Feira de Santana, foi batizado em Serrinha, cidade vizinha. Seus pais Maximiniano Pereira dos Santos e Maria Clemença de Jesus tiveram nove filhos (...).
Seu pai era vaqueiro, trabalhava na fazenda “Vargem do Canto” de propriedade do Sr. Vicente Nino, na região de Queimadas. Seu avô possuía propriedade em Araci”. Seus primeiros 15 anos de vida foram entre a região de Queimadas e o povoado de Barroca, onde seu padrinho possuía propriedade.
Mestre João Pequeno conta que, em 1933, devido a uma grande seca, foram andando de Serrinha para Alagoinhas, ao encontro de seu pai e seu irmão. Após um ano, eles se mudaram para Mata de São João, onde viveram cerca de 10 anos. Foi trabalhador no campo, plantou cana-de-açúcar, foi chamador de boi e foi carreiro (ficava em cima do carro que conduzia os bois).
Até este momento acompanhei meus pais, fazendo minhas obrigações, na fazenda São Pedro, em Mata de São João. Nessa época, eu tinha uma vontade de ter um corpo exercitado mas, não sabia que esporte seguir, porque não conhecia a capoeira.”
Tinha vontade de ir para o exército porque ouvia falar que lá se fazia exercícios, mas eu não fiz o serviço militar, meus pais eram contra, diziam que soldado devia amaldiçoar pai e mãe.
Na fazenda de São Pedro, encontrei com mestre Juvenço, que trabalhava de ferreiro e era capoeirista, era amigo de Besouro, ele me contou muitos casos de Besouro, até da morte dele, foi Juvenço que me deu a minha primeira aula de capoeira... (Mestre João Pequeno, 2000, p. 4-5)
Em janeiro de 1943, aos 26 anos de idade, foi para Salvador. Trabalhou de cobrador, mas por pouco tempo. Depois foi “trabalhar de servente de pedreiro nas obras de construção civil” foi assim que conheceu Cândido, um camarada mais velho do que ele e que também era servente o qual lhe “arranjou o mestre”, que lhe levou para a roda de capoeira...
Quando ele no serviço estava muito animado, bebia, ficava alegre e começava a cantar samba e dar pulos de capoeira, numa daquela ele deu um aú e eu entrando na cabeçada recebi na boca uma joelhada, ele aí disse, me pegando, me abraçando: num se importe não, que eu vou lhe botar na roda de capoeira. (Ibid., p. 6)
O Cândido foi procurar seu compadre chamado Barbosa, um carregador que trabalhava na feira do Largo Dois de Junho, para pedir que ensinasse capoeira ao seu camarada João.
Nesse tempo não havia academia, as pessoas aprendiam em rodas de capoeira, na rua ou com alguns mestres que tinham roda de capoeira ou numa sede, como no caso de Cobrinha Verde, Rafael, primo de Besouro. Sendo Rafael meu parente, eu não conhecia meus parentes por parte de pai, estou conhecendo agora em Salvador.
Nos dias de domingo à tarde o finado Barbosa formava um grupo de amigos e a gente ia para a roda de capoeira de Cobrinha Verde que era feita num bairro da Barra, chamado Chame-Chame. Ali tinha um pé de mangueira grande e lá de baixo faziam as rodas de capoeira. O finado Barbosa me dava treino. Até um dia numa festa de largo, deve ter sido carnaval, numa roda de capoeira no Terreiro, chegaram dois senhores que entraram na roda, já conhecia um deles de vista nas rodas de capoeira, não sabia seu nome. Eles entraram e jogaram capoeira.
Na saída quando terminaram de jogar um deles disse: eu quero organizar isto e para isso eu vim aqui. Quem quiser apareça lá no Bigode!
O Bigode é um bairro que tem no Djalma Dutra. Era o mestre Pastinha.
No meio da semana aquela turma do vamo aqui, vamo ali, vamo acolá, apareceram lá em casa dizendo que Pastinha estava com uma capoeira no Bigode e que iriam lá no domingo e assim foi.
Chegando lá, onde estava todos os capoeiristas da Bahia, inclusive o finado Barbosa, Cobrinha Verde, com alguns alunos dele, e mais outros mestres, Totonho de Maré, Livino, Noronha.
Chegando lá eu me registrei não era academia, era uma sociedade: o Centro Esportivo de Capoeira Angola que o mestre Pastinha recebeu das mãos de um guarda civil chamado Amorzinho, no Gengibirra, um bairro lá do Largo do Tanque (Ibid. p. 6-7)
Seu João se registrou no Ceca por volta de 1945. Desde então conviveu com Mestre Pastinha que, logo o passou a trenel (aluno responsável em puxar os treinos para o mestre). No ano de 1967 para 1968, quando Mestre Pastinha não estava podendo mais jogar, disse para o João: “toma conta disto porque eu vou morrer, mas eu morro somente o corpo e em espírito eu vivo, enquanto houver a capoeira o meu nome não desaparecerá”.
De acordo com Mestre João Pequeno, a primeira academia de Capoeira Angola fundada em Salvador foi a de Mestre Pastinha. Após a sua morte, Mestre João Pequeno instala
em 2 de maio de 1982, no Forte Santo Antônio Além do Carmo, a Academia de João Pequeno de Pastinha (AJPP) – Centro Esportivo de Capoeira Angola (Ceca).
Em conversa com o mestre em julho de 2005 ele disse que recebeu o nome João Pequeno de Pastinha do próprio Mestre Pastinha, frisando a questão da imortalidade da capoeira angola por meio da continuidade do trabalho (que leva o nome de Pastinha) deixado por seu mestre.
Mestre João Pequeno, como evangélico da Igreja Universal do Reino de Deus, aproveitou para dizer que ele também não vai morrer, que viverá eternamente “porque nós vivemos numa época que só morre quem quiser...”
Aliás, ao término de toda roda, ou quando é solicitado a falar para o público, Mestre João Pequeno não perde a oportunidade de “pregar a palavra”72. Neste ato, ele chama a atenção especialmente para a questão da vida eterna fazendo referência, literalmente, ao advento da “tentação de Eva” relacionada à “queda do homem”73:
Com a palavra apregoada por Mestre João Pequeno é possível notar a presença de uma religiosidade advinda do legado judaico-cristão, cujo “caráter mitopoético de bricoleur74”, como diria Lévi-Strauss (2002, p. 32), é ilustrado com este processo de reconstrução e re-significação do mundo, do universo.
Ou seja, Mestre João Pequeno, a partir de um mito cristão, reforça as orientações deixadas por Mestre Pastinha (1960, 5b), o criador do “patrimônio sagrado” Centro Esportivo de Capoeira Angola no qual a “luta”, segundo este, “constitui o caminho para a Divina realização” (...), “a movimentação do qual preparam o caminho da perfeição”,
72
“Pregar a palavra” é comunicar as mensagens que Deus deixou aos homens na terra para que estes busquem a salvação de sua alma, ou seja, alcancem a “vida eterna”: a “verdadeira liberdade” para Mestre João Pequeno.
73
Bíblia Sagrada: O Primeiro Livro de Moisés, Gênesis 3. 74
Lévi-Strauss chama a atenção para o fato de o “bricoleur” operar com materiais fragmentários já elaborados. Desta forma, é possível observar que na capoeira angola o processo mitopoético se faz presente quando Mestre João Pequeno recria uma realidade, cria uma experiência pessoal, a partir de elementos simbólicos extraídos, no caso deste exemplo, de uma religiosidade cristã.
cujos preceitos, tais como, o “respeito às regras e aos regulamentos escritos” são considerados imprescindíveis para se obter “a justa vantagem em qualquer circunstância”.
Mestre João Pequeno, ao citar a passagem bíblica, re-significando preceitos herdados de Mestre Pastinha, enfatiza que a conseqüência advinda do não cumprimento das regras do “Senhor Deus” por parte de Eva, Adão e a serpente, foi a “queda do homem”, isto é, toda a humanidade foi condenada a sofrer e a morrer, pois, a partir do momento em que comeram a fruta obtiveram o conhecimento do bem e do mal.
Condenado à “queda” (termo, portanto, que pode significar “sofrimento” e/ou morte), o angoleiro, enquanto presença no mundo, manifesta também uma certa religiosidade na maneira de cultuar os antepassados na capoeira (como exemplos, o uso de quadros com fotos dos respeitados mestres já falecidos na decoração das academias, a exaltação dos mesmos por meio do canto etc.), tornando o passado, presente; o presente, futuro e, enfim, eternizando a obra.
Assim, para a manutenção da ordem do “mundo velho de Deus” (do universo/do mundo) o angoleiro deve buscar, incessantemente, a liberdade e a justiça exercitando, constantemente, o equilíbrio na luta do bem contra o mal75.
Dando continuidade ao pensamento de seu mestre, afirma Mestre João Pequeno:
Neste tempo nós estamos nos aperfeiçoando para passar para uma nova terra que será esta mesma terra aperfeiçoada, pois vivemos em uma terra maligna, foi maldita esta terra, e as coisas estão sendo aperfeiçoadas para entrar na nova terra. E a capoeira? Aí que eu chamo a atenção dos capoeiristas: vamos retirar a agressão da capoeira! Vamos jogar capoeira em nossa vida e fazer capoeira com amor, pois, sem o amor, nada vai subsistir.
Capoeira é mato, capoeira também é terra, e o homem foi feito na terra, e tudo que nela existe é tirado dela, então, para se viver nesta nova terra abençoada, e não se fazendo uma coisa errada, produzindo iras e agressões, então, essa coisa não pode ser abençoada.
Hoje Deus está separando a ira que é a maldição e as coisas malignas para poder introduzir as coisas boas nesta nova terra aonde vamos viver sem ira, sem tentação, sem dor e sem agressão. Lá não precisamos de capoeira agressiva, lá nós
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vamos precisar de exercícios e brincadeiras, mas tudo feito com perfeição e amor.
(Mestre João Pequeno in Lima, 2000, p. 42)
Assim, o angoleiro (o capoeirista que Mestre João Pequeno pretende formar) é avisado sobre sua situação de cativo desta condição humana, ou seja, condenado, desde o seu nascimento a morrer. Portanto, o intuito do mestre é fazer com que o capoeirista aprenda a “dar a volta ao mundo” exercitando a busca pela perfeição (trilhar um caminho que leve a Deus) como maneira de realimentar as esperanças num mundo melhor (“a nova terra abençoada”), ou seja, que aprenda a viver “sabendo cair”, o que significa a eterna busca por aprender a lidar, de maneira pacífica, com os conflitos constitutivos do próprio ser humano.
O bem e o mal são tomados aqui como o princípio dual do conhecimento mundano (do “mundo velho de Deus”), o qual permite operar a distinção entre todas as coisas. Portanto, ao dar à humanidade a capacidade do discernimento, o primeiro dele será a tomada de consciência da vida e da morte.
Mestre João Pequeno (Lima, 2000, p. 41) afirma ainda que já teve vários alunos e que ele se lembra dos bons e dos maus e exemplifica que seu Mestre, Pastinha, também teve “alunos que não usou tóxico, não era ladrão, nem desordeiro, era até um bom companheiro, mas, por causa da bebida, foi morto pelos ladrões e desordeiros. Esta foi como a semente que foi sufocada no meio do espinheiro. Seu Pastinha foi uma terra boa, por isto ele viveu 92 anos e não morreu de desordem. Morreu humildemente e até abandonado. Mas seu Pastinha, não distorceu a capoeira pelos maus caminhos, sempre praticou ela para o bem, e não para o mal”.
Posto isto, vemos que a “questão da moralização” e do “aperfeiçoamento desta luta” continuam a se mostrar, a partir dos discursos e histórias dos Mestres, Pastinha e João Pequeno, como e no movimento contínuo de “inversão e re-inversão do olhar”.
Vale lembrar que a própria palavra “luta” implica em conflito, em atuação de forças contrárias (luta entre o bem e o mal), e que a palavra “jogo” implica a existência de
regras que devem ser observadas pelos jogadores, o que mostra, “eticamente” falando, a dimensão da seriedade do caráter lúdico de sua performance ritual.
Estas questões serão apontadas na discussão sobre a performance ritual: a “roda” e, também estará presente na discussão sobre treino.
No entanto, será possível perpassar, ainda, tais questões, a partir da própria história de vida de Mestre Pé de Chumbo e da organização do grupo (observar o uso do singular em relação à palavra grupo, pois, apesar de haver integrantes da AJPP – Ceca praticando capoeira angola em diferentes espaços geográficos, o grupo é um só) sob sua direção.
Capítulo III
Mestre Pé de Chumbo e a organização do Ceca - AJPP: a etnografia a partir de São Carlos