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Contribuição para a Problematização da Realidade.

Na primeira análise das respostas, percebeu-se que elas envolviam diferentes conteúdos. Resolveu-se classificá-las em três categorias: contextual, administrativa e pedagógica, conforme se demonstra a seguir.

As categorias contextual e administrativa reúnem as respostas de docentes, alunos e egressos que se referem às dificuldades no processo de ensino/aprendizagem, atribuídas a aspectos que ultrapassam a relação do professor com os alunos em sala de aula ou que se caracterizaram por uma forte ênfase nos aspectos práticos da administração, como, por exemplo: turmas numerosas e heterogêneas, condições físicas e materiais para exercer o trabalho docente, defasagem na formação e falta de embasamento dos alunos, dissociação entre o

trabalho realizado pelo professor em sala de aula e o mercado de trabalho, podendo eles ser entendidos como fatores que influam no desempenho do professor em sala de aula.

No Quadro 1, foram reunidas as respostas dos colaboradores, que pareceu expressarem aspectos contextuais.

RESPOSTAS DOC n-18 EGR n-11 ALUN n-30 TOT Defasagem na formação/ falta de

embasamento dos alunos 8 8

Professor sem compromisso com a profissão 6 6

Dissociação entre o trabalho realizado pelo

professor em sala e o mercado de trabalho 4 4 Pouco tempo disponível para dedicação ao

trabalho docente 3 3

Alunos não possuem disponibilidade para

estudos extra classe 3 3

Alunos têm dificuldade em realizar leituras 2 2

Falta de opções de estágio para os alunos 1 1

Existência da indústria do trabalho pronto

para os acadêmicos 1 1

Não tenho dificuldade alguma 2 2

Quadro 1 – Respostas relativas à categoria contextual

É interessante notar que nenhum aluno referiu enquadrar-se na categoria contextual. Por outro lado, 72% dos docentes (13 professores) apontam alternativas em que suas maiores dificuldades durante a aula advêm dos alunos, seja pela falta de embasamento para aprender, seja pelo pouco tempo disponível para estudos extra classe, seja ainda, por falta de hábito de realizar leitura. Além desses, outros dois afirmaram não possuir dificuldade alguma em seu trabalho, e três justificaram ter pouco tempo para se dedicar ao trabalho docente. Já, por parte dos egressos, as respostas se concentram em somente duas alternativas: uma critica duramente a falta de comprometimento do professor com sua profissão, e outra é relacionada ao mercado de trabalho.

O que fica claro é que os docentes sentem dificuldade para ensinar e orientar a aprendizagem dos alunos e os responsabilizam por essas dificuldades. E, como contraponto, os egressos incriminam os docentes pela falta de compromisso com a profissão, ou de apresentarem conteúdo em sala, que não encontra relação com o que ocorre no mercado.

RESPOSTAS DOC n-18 EGR n-11 ALUN n-30 TOT

Turmas numerosas/ heterogêneas 8 8

Professor não comparecia para dar aula 8 8

Falta de interesse do Estado/IES Pública em

promover melhorias no Ensino Superior 7 7 Condições materiais insuficientes 3 3

Processo seletivo para o ingresso de alunos

na instituição 2 2

Pressão para atingir conceito elevado no

provão 1 1

Quadro 2 - Respostas relativas à categoria administrativa

No Quadro 2, observa-se apenas uma resposta de egresso, a qual chama a atenção para a pressão da escola sobre os alunos para que atinjam conceito elevado no “provão”. Quanto aos alunos, as respostas se concentram numa única alternativa, levando a entender que se trata de um único professor de uma das escolas consultadas, já que incidem sobre o mesmo conteúdo. Nas respostas dos professores encontra-se uma característica semelhante à do Quadro 1. Os professores, na sua totalidade, atribuem as dificuldades no ensinar e orientar a aprendizagem de seus alunos a outros elementos que não o seu próprio trabalho docente. Entre estas, as principais seriam: turmas numerosas e heterogêneas e falta de interesse do Estado/IES em promover melhorias no ensino superior.

No Quadro 3, estão apresentadas as respostas que mais atenderam ao solicitado no instrumento aplicado, as relativas à Categoria Pedagógica.

RESPOSTAS DOC n-18 EGR n-11 ALUN n-30 TOT O professor tem muito conhecimento, mas

encontra dificuldade em transmitir 5 11 16 Falta de interesse/comprometimento por parte

dos alunos para com o aprendizado 15 15 O professor cobra na prova conteúdo não

ministrado 3 10 13

Falta de habilidade no relacionamento com o

aluno 6 5 11

O professor tem dificuldade em explicar a

matéria, pois não tem domínio do conteúdo 7 7 O professor transmite muito conteúdo em

uma única aula dificultando o entendimento

dos alunos, sem tirar suas dúvidas. 4 1 5 Os conteúdos ministrados são ultrapassados 4 4 8

O material elaborado para aula diferente do

conteúdo trabalhado dificultando

entendimento 4 4

O professor efetuava a avaliação somente

através de trabalhos 3 3

O professor quer exigir respeito quando ele

mesmo não o tem pelos alunos 3 3

O professor tem postura arrogante 2 2

Não consegue segurar a atenção dos alunos 2 2

O professor se preocupa mais em contar

piadas do que dar aula 1 1

O professor não oferece oportunidades aos

alunos para fazerem perguntas 1 1

Não sabe trabalhar com recursos

audiovisuais 1 1

Professor transmite muita informação sem

mostrar o objetivo que pretende atingir 1 1 Professor parece que não prepara a aula 1 1

Quadro 3 - Respostas relativas à categoria pedagógica

Verificou-se, pelas respostas reunidas no Quadro 3, que dos docentes respondentes, 83% (15 professores) alegam falta de interesse e comprometimento dos alunos com o processo de ensino e aprendizagem. Essa é uma afirmação muito preocupante, posto que, mais uma vez os docentes deixam

transparecer que a responsabilidade pelas dificuldades que enfrentam é simplesmente do aluno.

Se, por um lado, essa falta de interesse/comprometimento pode ser resultado de valores culturais do passado que o aluno traz para o ensino superior e a sua falta de motivação para estudar, por outro, entende-se que cabe ao professor buscar reverter, pedagogicamente, essa situação.

Em contrapartida, 60% dos discentes (18 alunos) fazem referência às dificuldades do professor em transmitir o conhecimento ou explicar a matéria por falta de conhecimento. Mais preocupante, ainda, é que muitas respostas dadas pelos alunos dizem respeito às questões de ensino/aprendizagem e relação entre professor e aluno, deixando claro que o professor, em sua atitude de “senhor dos conhecimentos ou detentor da verdade”, não leva em conta a razão de ser de seu trabalho - os alunos.

As respostas revelam que os professores não possuem uma noção muito clara sobre as questões pedagógicas. Por incrível que pareça, os alunos apresentam respostas mais diretamente relacionadas aos aspectos pedagógicos do que os próprios professores, sendo eles os que sentem na pele as dificuldades que os docentes tem para ensinar. Exemplo disso pode ser observado nas respostas de 11 alunos e 05 egressos que afirmam que o “professor tem muito conhecimento, mas encontra dificuldade em transmitir”, ou, então, as de 03 egressos e 10 alunos que afirmam: o professor cobra conteúdo na prova sem tê-lo ministrado.

Segundo se percebe, toda essa dificuldade do professor centra-se na sua própria formação fragmentada e reducionista. A sua formação especializada, na área profissional, não permite visualizar e entender o sistema educacional mais amplo. Pode-se depreender que o professor não tem idéia da apreciação que o aluno faz da sua atuação.

A dificuldade de perceber que houve mudança na concepção de ensino levou os docentes, em especial os do curso de Administração, a continuar a transmitir aos seus alunos a mesma abordagem fragmentária que tiveram, não se dando conta de que é justamente essa maneira de atuar que provoca as queixas dos alunos e egressos.

Apesar de possuir conhecimento adequado da área de atuação, o autor é levado a afirmar que sua formação pedagógica adquirida em cursos de pós- graduação, não raro, é insuficiente ou inexiste. É idêntica a preocupação de outros

colegas docentes: não há nesses cursos de especialização a oferta de uma disciplina pedagógica que os capacite melhor para o processo de ensino/aprendizagem de Administração.

2.1.1.1 Definição do problema

Alguns questionamentos ainda permanecem como, por exemplo: A formação do professor de Administração deve ser apenas técnica, ou deve incluir a formação pedagógica, também? As disciplinas do curso contemplam a expectativa que a sociedade tem a respeito do egresso? Embora já se tenham alguns indícios sobre essas indagações, sabe-se da necessidade de aprofundar o estudo/investigação a fim de que a contribuição para a área seja fruto de uma reflexão consistente.

Diante dessas inquietações, encontramos em Saviani (1996, p.14), um apoio para a finalização dessa etapa da Metodologia da Problematização:

[...] uma questão em si não caracteriza um problema, nem mesmo aquela cuja resposta é desconhecida; mas uma questão cuja resposta se desconhece e se necessita conhecer, eis ai um problema. Algo que eu não sei não é problema; mas quando ignoro alguma coisa que eu preciso saber eis-me então diante de um problema. Da mesma forma um obstáculo que é necessário transpor, uma dificuldade que necessita ser superada, uma dúvida que não pode deixar de ser dissipada são situações que se nos configuram verdadeiramente problemáticas.

Entende-se oportuno esse trecho da obra de Saviani, pois, fazendo uma reflexão sobre o seu próprio trabalho, o autor confessa que, não raro, o docente posterga mudanças, atualizações, no processo de ensino e aprendizagem, deixando de superar dificuldades e obstáculos, e busca para isso as mais simples desculpas.

Assim, a partir destes elementos do contexto, elegeu-se como foco para a continuidade dos estudos o seguinte problema:

Considerando que ao professor de Administração ainda falta clareza sobre a sua atuação pedagógica, como isso pode interferir no aprendizado do aluno?