No presente capítulo, vamos nos deter na exposição do método escolhido para o desenvolvimento da pesquisa “NOVAS FRONTEIRAS DO TRABALHO: VIVÊNCIAS 'À MARGEM' DOS TRABALHADORES DO TRÁFICO DE DROGAS”.
O estudo que pretendemos realizar tem como objeto de investigação, uma análise de como os trabalhadores em condição de inserção laboral marginal, a partir do surgimento de formas cada vez mais atípicas de possibilidades de inserção, vivenciam sua situação de trabalho. Dentre essas atividades, optamos em trabalhar com trabalhadores do tráfico de drogas, opção essa melhor explanada a seguir.
Inicialmente, é importante ressaltar que temos a clareza de que se trata de uma pesquisa psicossocial, o que traz alguns pressupostos em relação à forma de compreender o fenômeno pesquisado.
Tendo isso em mente, de acordo com as idéias de Minayo (1994), o pesquisador deve aceitar alguns critérios, como exemplo, historicidade, pois o objeto das ciências sociais - o homem - é predominantemente histórico. Os sujeitos, os grupos e também as sociedades existem dentro de um contexto determinado, que se configura a partir de uma temporalidade em que o presente é marcado por um passado e projetado em um futuro, em um processo constante de construção e transformação. Logo, esse sujeito possui uma consciência histórica, visto que suas ações são perpassadas pelas estruturas sociais de seu tempo.
Ainda trazendo o pensamento de Minayo (1994), acreditamos que o objeto das ciências sociais é prioritariamente qualitativo, logo, é importante ressaltar que a opção epistemológica escolhida, em nosso estudo, é por uma perspectiva qualitativa de pesquisa, sendo esta característica de construção de conhecimento.
Temos como referência também os princípios básicos trazidos por Gonzáles Rey (2002) de que, na epistemologia qualitativa, o conhecimento é uma produção construtiva-interpretativa, na qual o sujeito participante da pesquisa traz sua interpretação do objeto de estudo e o pesquisador dá uma significação a suas expressões; interativa, no âmbito da relação entrevistado-pesquisador, e singular, onde cada sujeito é identificado como forma única e diferenciada.
teórico de uma realidade plurideterminada, interativa e inserida em uma história, a qual é representativa da realidade humana.
A abordagem qualitativa no estudo da subjetividade volta-se para a elucidação, o conhecimento dos complexos processos que constituem a subjetividade e não tem como objetivos a predição, a descrição e o controle (Ibid, p. 48).
Nesse sentido, Minayo (1994) afirma que a pesquisa qualitativa configura- se como um espaço de aprofundamento de processos, de relações e de fenômenos que não podem ser reduzidos a operacionalizações de variáveis, abarcando um universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes.
Seguindo essa linha de pensamento, vale salientar que partimos de uma perspectiva sócio-histórica, a qual se apresenta de forma congruente com os pressupostos da pesquisa social. Essa concepção leva em consideração o homem constituído historicamente e dentro de uma realidade singular, que é transformada por ele. Esse homem é também concebido a partir do social, pois se constitui nas relações sociais.
Nessa perspectiva, o fenômeno psicológico não é centrado em uma natureza humana, não é preexistente ao homem, mas reflete as condições sociais e até mesmo econômicas em que ele vive. A noção de subjetividade é compreendida enquanto uma construção, na relação com o mundo. O próprio sistema de signos, que caracteriza a linguagem, é produzido no social, exercendo papel fundamental na mediação da subjetividade, permitindo a produção de sentidos pessoais da realidade.
O método de investigação adotado encontra-se em congruência com a discussão teórica traçada anteriormente que compreende o sujeito constituído no interior da história e modificado pelas práticas sociais (FOUCAULT, 2005).
Logo, a opção por esse método de investigação se deu em função da escolha por se pesquisar a subjetividade de sujeitos inseridos em uma realidade histórica e socialmente determinada. A fala do sujeito trabalhador do tráfico emerge de um plano de multipilicidade, onde o de dentro e o de fora se mostram em constante processualidade.
Vygotsky (1982, apud AGUIAR, 2002) nos diz que o método de pesquisa não pode ser considerado fora de uma concepção de realidade, de relação homem/mundo, ressaltando ainda a necessidade da Psicologia ter um método que abranja a complexidade de seu objeto, ou seja, é preciso substituir a análise de um objeto pela análise de um processo.
Assumindo essa postura frente à construção de conhecimento, buscamos clarificar como nos propomos a abordar a questão que queremos investigar, ou seja, os pressupostos escolhidos para nos servir de guia na produção de conhecimento acerca do objeto de investigação. Acreditamos, portanto, que a escolha do método de investigação deva ser feita em função do objeto de estudo, ou seja, é o objeto que deve eleger a forma mais adequada para sua análise.
Passemos, então, a discorrer sobre o que pretendemos investigar. Acreditamos, ainda, que o objeto de investigação deve estar definido e delimitado, visto que é o referencial que fundamenta toda a investigação.
No caso da presente pesquisa, propomo-nos a analisar as novas formas atípicas de ocupações exercidas a partir de uma situação de marginalidade que, conforme foi discutido nos capítulos anteriores, apresenta-se como uma questão complexa diante das transformações sociais e econômicas, as quais afetaram os modos de trabalhar e ainda os modos de ser dos sujeitos.
Diante das várias atividades de trabalho marginalizadas, a opção por discutir o tráfico de drogas se deu pelo fato de que este, a nosso ver, tem sido vivenciado como possibilidade de inserção na sociedade atual capitalista profundamente demarcada pelo consumo. Apesar de ser uma atividade extremamente marginalizada e estigmatizada (ou até mesmo ilícita), é a partir dela que os sujeitos parecem conseguir adquirir certo reconhecimento social e fazer parte de uma estrutura societária, pelo menos em nível do consumo, devido aos rendimentos que proporciona, o que não seria possível adquirir através do mercado formal.
Mais especificamente, iremos estudar a situação marginal dos trabalhadores do tráfico de drogas, além do que esta lhe proporciona, a partir de suas vivências, ou seja, queremos saber como eles estão vivenciando suas realidades a partir de suas ocupações, em Fortaleza.
No estudo, o que será analisado é a própria vivência dos trabalhadores, motivo pelo qual a opção pelo método adquire relevo dentro da proposta estabelecida. A situação de marginalidade laboral pode ser analisada a partir dos referenciais teóricos, mas a identificação com essa realidade passa por bases mais concretas, no nível das percepções e significações atribuídas pelos trabalhadores marginais.
A vivência, tal como a concebemos no presente texto, nos aproxima da compreensão da experiência dos sujeitos. É uma categoria que está presente nos trabalhos de Leny Sato (SATO, 2002 e 2007), e que é utilizada pela pesquisadora para acercar-se aos momentos subjetivos experimentados pelos trabalhadores em diferentes períodos de análise da sua realidade. Segundo a autora a vivência se vincula à experiência direta de um indivíduo numa dada situação, fato que não pode
ser mediado por outra pessoa ou coisa. Dessa experiência direta, há a possibilidade de construir conhecimentos, representações e sentimentos singulares (COELHO, 2008).
Desse modo, um aspecto importante que embasa o método desta pesquisa é o fato de a vivência ser captada através de sua descrição, ou seja, por meio do processo de descrição de suas experiências, os sujeitos entram em contato e se apropriam das mesmas, tomando consciência e refletindo sobre estas. Diante disso, é possível compreender a vivência de um indivíduo a partir da descrição que ele faz da realidade em que está inserido. É a partir da visão de “como” está sendo o processo de inserção laboral que trabalharemos diante dos sujeitos pesquisados.
Tendo essas questões em mente, seguimos no desenvolvimento de nosso trabalho de investigação científica. É importante salientar que, para nós, uma aproximação com a realidade de trabalhadores do tráfico de drogas, desprovida de discursos moralistas que salientam mais os aspectos da ilegalidade e punição, traz grandes contribuições para o saber e a prática psicológica.
Buscamos, com este estudo, trazer a fala daqueles que estão diretamente inseridos nesse processo, pois acreditamos serem fundamentais suas visões para que sejam pensadas propostas mais adaptadas às suas demandas.