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4. RESULTS AND DISCUSSION

4.1. P ERMAFROST AND I NFRASTRUCTURE E FFECTS

4.1.4. Combined Economic Impact

Segundo Feffermann (2006) os trabalhadores do tráfico de drogas fazem parte da sociedade capitalista, com suas relações caracterizadas pela organização do capital, funcionado à semelhança da economia formal.

Em relação a isso, a autora nos fala ainda que esse mercado ilegal pode ser considerado um fenômeno político, econômico e social, configurando-se em uma forma de inserção ilegal dos sujeitos no mundo do trabalho. As relações no tráfico de drogas obedecem à lógica do capital, visando ao lucro e ao poder. Logo, essa busca por ascensão, que implica reconhecimento e valorização social, além do acesso ao consumo, contribui para tal inserção marginal.

Tudo começou há oito anos atrás, quando minha família tava passando aquele sufoco, aquela tragédia, né, irmão? O dia-a-dia, eu vendo minha mãe sair pra trabalhar, aquelas condições, não podia dar o de bom e melhor pra nós, né? Como? O que eu queria ter eu não podia ter. O carrinho de controle remoto, uma bicicleta... não podia ter (Relato de um adolescente retirado do livro “Falcão: meninos do tráfico”p. 78, 2006).

reconhecimento social é o fato de que, no Brasil, o tráfico de drogas vem se constituindo a partir de uma organização equiparada ao mercado legal. Além disso, essa organização normalmente existe dentro de uma comunidade própria, que consta com um código moral, o qual tem estabelecido regras e vínculos societais próprios, como é o caso das favelas localizadas nos famosos “morros” do Rio de Janeiro.

Logo, segundo Feffermann (2006), o tráfico de drogas funciona como qualquer indústria, sendo submetido a uma organização de trabalho formal, passando pela mesma ótica de dominação, por meio de condições precárias de trabalho.

A autora nos traz que os jovens trabalhadores da indústria do tráfico possuem obrigações e seguem algumas regulamentações de trabalho: o contrato é verbal; as regras são conhecidas por todos, havendo punição quando as desrespeitam (no caso a morte) e o regime de trabalho é ininterrupto, pois, como será visto na análise de dados, a maioria deles trabalha dia e noite, todos os dias da semana (na realidade, em alguns momentos eles até ficam sem vender, mas sempre devem estar disponíveis para a venda).

Observa-se então que esse tipo de trabalho marginalizado é submetido à precarização laboral, marcado pela falta de regulamentação, flexibilização e proteção social, podendo ainda fazer uma alusão com o exército de reserva de mão de obra, à disposição do mercado oficial e não oficial.

No tráfico, o trabalho obedece à lógica da produção e o valor da força de trabalho é representado também como uma mercadoria, ou seja, podemos afirmar que o trabalho no tráfico de drogas é também submetido à mais-valia, trazendo a idéia de que os indivíduos trabalham em função do capital.

No entanto, essas relações, à semelhança do que ocorre nas relações legais de trabalho, são exacerbadas quando se trata do tráfico de drogas. Este mantém a mesma estrutura de um trabalho legal, com a divisão de trabalho permeando as relações entre o trabalhador e o produto, mas o valor da força de trabalho pode significar a própria vida. Ou seja, não só a força de trabalho, na qual já está embutido o risco, torna-se uma mercadoria, mas as suas vidas também.

Em relação a essa exacerbação da lógica do capital, Fefferman (2006) ainda traz algumas considerações. Na organização do tráfico de drogas, dois valores norteiam as relações interpessoais e comerciais: a confiança, que se mostra como cooperação e a violência, que se manifesta na confrontação.

Segundo a autora, as relações de trabalho dos empresários do tráfico baseiam-se nesses dois princípios e devem ocorrer sem a intervenção do Estado, dado sua ilegalidade. Ou seja, são regidas pela lógica do mercado, mas sem a

intervenção estatal reguladora, devendo ser considerados “fortes” o suficiente para garantir seus interesses (defendendo-se dos competidores, da polícia, etc.).

Desse modo, são empresários que vivenciam a maximização da lógica do capitalismo, visto que não há intervenção do Estado nos seus interesses e negociações. Convém salientar que eles não suportam contradições na realização de seus objetivos e quando há um confronto, resolve-se normalmente com a morte.

Segundo a autora, o trabalho no tráfico de drogas é dotado de uma hierarquia rígida, dependendo do tamanho do ponto de venda, normalmente constituída por olheiro, aviãozinho, vendedor, gerente e patrão, além de um sistema de garantias e benefícios garantidos pelo dono do ponto (assistência médica, em caso de doença e jurídica, caso foram presos).

A partir dessa idéia, podemos dizer que os trabalhadores do tráfico são marginalizados na sociedade em nível macro, mas dentro de suas comunidades, dentro da lógica micro, possuem reconhecimento e prestígio social.

Esse fato traz a percepção da possibilidade de ascensão social através de uma carreira. “Numa das conversas, conheci um garoto, ele devia ter uns 16 anos, olhos claros, muito bonito. Ele falava das suas aventuras, seus roubos e seus homicídios. [...] Perguntei o que ele queria ser quando crescesse. Ele disse que queria ser igual ao Beira-Mar” (Trecho de uma entrevista retirado do livro “Falcão: meninos do tráfico”, p. 98, 2006).

De acordo com uma pesquisa, realizada em Florianópolis pela Secretaria de Segurança Pública e Defesa do Cidadão de Santa Catarina, sobre o significado do trabalho para um grupo de sujeitos presos por conta do tráfico de drogas, estes apontaram para a importância da realização de um trabalho, afirmando que a escolha por tal atividade se deu por causa do desemprego, da falta de sustento da família, do histórico de abandono social e da conseqüente chance de melhorar o padrão de vida que esse trabalho oferece.

[...] por meio do crime diziam ter obtido melhores condições de sustentar suas famílias e encontrado um sentido para suas vidas. Esses argumentos têm sua razão de ser. [...] a sociedade capitalista determina que o trabalho esteja no centro da vida do indivíduo. Ele somente se sentirá bem e reconhecerá seu papel no mundo se estiver trabalhando – e consumindo (CIÊNCIA E PROFISSÃO – DIÁLOGOS, 2007, p. 53)

Diante disso, as autoras afirmam que pode existir a possibilidade de continuidade no trabalho e de perspectiva de ascender aos cargos mais altos da organização (normalmente ao de gerente). No entanto, em troca dessa ascensão, os

trabalhadores pagam um alto custo, estando submetidos a um risco constante de vida, que influencia a identificação com a atividade laboral que realizam.

A vida que tenho agora não é a vida que eu tinha antes. Antes eu tinha uma vida com algumas necessidades, mas até então eu podia andar tranqüilo, não se escondia de polícia, não tinha inimigo nenhum, então eu andava tranqüilo. Agora já não é mais a mesma coisa. Agora minha vida não é mais a que era antes. Eu não passo mais as necessidade que eu passei, mas agora eu sou escondido, eu tenho que fugir da polícia (Relato de um adolescente retirado do livro “Falcão: meninos do tráfico”p. 81, 2006).

Diante do exposto, vale ressaltar que as pesquisas mencionadas no presente capítulo foram realizadas em cidades das Regiões Sul e Sudeste do País, logo, apresentando alguns dados diferenciados da realidade do Nordeste, especificamente da cidade de Fortaleza.

A discussão sobre a realidade do tráfico em Fortaleza será realizada a partir da análise dos dados, pois, na pesquisa bibliográfica sobre essa temática, não foi encontrada nenhuma investigação sobre o tráfico de drogas na cidade, somente dados policiais ou relatos de pessoas que trabalham ou convivem com essa realidade.