Na seção anterior, foi mencionado que a Assembléia de Deus originou-se a partir de uma cisão provocada na Igreja Batista de Belém. Faltou, no entanto, uma palavra sobre os batistas. De onde vieram? Como chegaram ao Brasil? Que tipo de relacionamento mantiveram com os pentecostais?
Em termos históricos, a origem dos batistas se encontra em segmentos do puritanismo inglês no início do século XVII, que defendiam a autonomia das
comunidades cristãs locais em escolher seus pastores e resolver seus assuntos internos. Esses batistas estavam entre os puritanos que chegaram aos Estados unidos a bordo do navio Mayflower em 1620, compondo o grupo dos Pilgrims
Fathers fundadores da colônia de Massachussets dando origem, posteriormente, a
uma das mais fortes denominações religiosas norte-americanas.
Muitos batistas não admitem a ideia de que têm origem no protestantismo e recorrem à explicação conhecida como “Sucessionismo”11 para falar do surgimento
de sua denominação, ou seja, à ideia de que as igrejas batistas existem desde o Novo Testamento. O missionário e historiador batista Asa Routh Crabtree (apud AZEVEDO, 1996, p. 216) afirmou que “a sucessão apostólica dos batistas não depende da continuação ininterrupta de igrejas batistas desde o tempo apostólico até o presente, mas sim da aceitação e prática das doutrinas e princípios e doutrinas apostólicos”.
O teólogo batista S. L. Watson (apud AZEVEDO, 1996, p. 216-217) fornece uma síntese dessa visão:
Através dos séculos da era cristã tem havido indivíduos e grupos maiores e menores pugnando insistentemente pela espiritualidade da igreja e dos seus membros. Tais grupos se chamavam por nomes diversos, tendo em certos casos uma ligação lógica e cronológica entre si e em outros nenhuma, mas sempre movidos pelo desejo de manter a espiritualidade da igreja ('igreja' no sentido genérico). Todavia há trezentos anos mais ou menos, concretizou-se e consolidou-se tal espírito de forma permanente no povo denominado batista. Deste modo a denominação batista data da era de João Batista e de Jesus, apesar de o nome ter aparecido tão recente como em 1640, mais ou menos.
Em entrevista concedida ao pesquisador, perguntado sobre a filiação da IBC ao protestantismo histórico, o Pr. Armando Bispo posicionou-se dentro da linha de pensamento sucessionista:
Só para dizer que o meu protestantismo não começa com Lutero, Calvino e Zwínglio. Começa lá atrás, é apostólico. Então, falando sobre a sucessão apostólica, sobre a continuidade da igreja, que a igreja não foi romana, católica romana todo o tempo, que depois nós inventamos uma coisa diferente por volta de 1500. Não acredito nisso. Acredito que o Espírito de Deus usou, ao longo da história, a igreja, nas suas diversas 11 Essa ideia difere substancialmente daquela do catolicismo romano, que fundamenta a autoridade papal na doutrina da “sucessão apostólica”, ou seja, na afirmação dogmática de que o Papa é o “sucessor” do apóstolo Pedro.
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facetas. Ora institucional, imperialista, hierarquizada, ora vivendo nos mosteiros, como as ordens beneditinas e outras que foram tão evangélicas quanto nós o somos hoje. Eu tenho essa visão. Eu acho que o protestante entregou 1500 anos de história ou 1400 anos de história prá igreja católica apostólica romana e passa a contar o protestantismo, o cristianismo evangélico, a partir de 1500. Eu não acho isso justo. Eu não sou adepto do que eles chamam de “trail of blood”, o “trilho de sangue”, de que fomos sempre os dissidentes, vivendo nas cavernas. Isso aí também não, mas eu entendo que a igreja foi igreja do Senhor durante todos esses anos com todas suas lutas, suas dificuldades. Ela foi católica, foi apostólica, ora se tornou romana e quando ela se tornou romana de fato e de direito, um braço da igreja católica apostólica se tornou protestante e seguimos até aqui. Então, eu posso dizer que me identifico doutrinariamente com o protestantismo histórico.12
Coerente com essa ideia, o Pr. Armando Bispo, conforme informação verbal,13 também se descreve como “um bom católico, apostólico. Só não sou
romano porque eu acredito na Bíblia. Católico quer dizer universal. Apostólico, que veio do ensino dos apóstolos, mas não somos romanos porque a sede do nosso cristianismo não está nem em Roma nem em Jerusalém, em canto nenhum, está à direita do Pai em Majestade, é Jesus.”
No que se refere ao Brasil, Thomas Jefferson Bowen (1814-1875) foi o primeiro missionário batista a chegar visando a implantação de igrejas. Veio em 1860 e, conforme o pastor Israel Belo de Azevedo (1996, p. 193), pretendia “formar uma igreja de fala inglesa e outra entre os escravos. Diante das restrições legais, distribuiu algumas Bíblias e conversou com os escravos. Ele ficou no Brasil menos de nove meses”.
A partir de 1865, migrantes oriundos do sul dos Estados Unidos começaram a chegar ao Brasil e se estabeleceram na região de Santa Bárbara, no estado de São Paulo. Organizaram uma igreja batista em 1871. Em 1881, sob a liderança do missionário William Buck Bagby foi fundada uma igreja em Salvador, Bahia, com cinco membros. A partir daí novas igrejas foram sendo plantadas em território nacional pelas organizações missionárias batistas norte-americanas (AZEVEDO, 1996).
12 O “trilho de sangue” é uma referência a um opúsculo do norte-americano J.M. Carrol publicado no Brasil com o título “Rastros de sangue” por volta dos anos 1950 (AZEVEDO, 1996).
13 Informação fornecida pelo Pr. Armando Bispo em pregação durante o culto dominical em 23 de março de 2008.
A Igreja Batista Regular surgiu em 1932, como fruto de um rompimento com a Convenção Batista do Norte, dos Estados Unidos, por motivos de controvérsias teológicas. Chegou ao Brasil na data de sua fundação, no estado do Rio Grande do Norte. No Ceará, em 1936, na cidade de Juazeiro do Norte, através do missionário Edward Guy McLain (AIBREB, 2009b).
A Associação Geral das Igrejas Batistas Regulares foi fundada em Juazeiro do Norte-CE, no dia 20 de maio de 1953, por missionários norte- americanos e pastores brasileiros com a presença de cinco representantes de igrejas do Ceará, sete do Rio Grande do Norte, um do Amazonas, um do Acre e um de Roraima (AIBREB, 2009a).
Essa denominação se considerava conservadora em termos doutrinários e litúrgicos, afastando-se completamente das influências pentecostais que nos anos 1960 começaram a ganhar espaço nas igrejas protestantes históricas tradicionais e produziram o surgimento de novas denominações. Estas, por sua vez, procuravam manter parte de sua identidade teológica ao mesmo tempo em que afirmavam a transformação pentecostal que nelas havia se processado. Assumiram, portanto, a identificação de igrejas “renovadas”. Noutros casos, adotaram uma nova identificação para a comunidade dissidente.
A Igreja Batista Central de Fortaleza foi fundada por missionários norte- americanos batistas regulares. O processo de ruptura com a denominação será descrito no próximo capítulo. Antes de seguir adiante, acredito ser necessário considerar o cenário religioso contemporâneo, enfocando aspectos individuais e coletivos da experiência religiosa que dão margem ao surgimento de novas comunidades dentre as quais a IBC é representativa.