A tese de Doutorado de Paul Freston (1993) tem sido decisiva no desvelamento e classificação das diversas formas do pentecostalismo brasileiro, corrente protestante que chegou ao Brasil no início do século XX,8 caracterizando-se
como um movimento religioso de crescimento explosivo. Sua penetração deu-se, inicialmente com maior êxito nas camadas mais pobres da população. Campos observou que
[…] o pentecostalismo pode ser visto com o olhar da continuidade, pois nos EUA seguiu por picadas abertas por outros movimentos religiosos cristãos que os antecederam: o pietismo alemão, o reavivacionismo anglo-saxão e os movimentos de santidade. Por sua vez, em sua expansão, particularmente, na América Latina, o pentecostalismo seguiu caminhos batidos pela religiosidade popular católica, beneficiando-se, por outro lado, da inserção do protestantismo na América Latina, África e Ásia. Em outras palavras, em sua primeira fase de expansão, o pentecostalismo pescou em aquários onde estavam os peixes colhidos pelo protestantismo histórico (2005, p. 110).
A Congregação Cristã no Brasil, fundada, pelo italiano Luigi Francescon em 1910, a partir de um cisma Igreja Presbiteriana do Brás, marcou o início desse movimento no Brasil. Depois, surgiu a Assembléia de Deus, fundada em 1911 pelos missionários suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren a partir de uma cisão da Igreja Batista de Belém.
Paul Freston chama esse primeiro momento de implantação das igrejas pentecostais no país de Pentecostalismo da primeira onda9, acentuando que “estas
duas igrejas têm o campo para si durante 40 anos, pois suas rivais são inexpressivas” e que a Assembléia de Deus se expandiu geograficamente “como igreja protestante nacional por excelência, firmando presença nos pontos de saída do futuro fluxo migratório” (FRESTON, 1993, p. 66, grifo do autor).
8 Sobre os movimentos extáticos considerados como precursores do pentecostalismo moderno, cf. Mendonça (1997). Sobre as origens norte-americanas do pentecostalismo brasileiro, cf. artigo de Leonildo Campos (2005). O Anexo traz um mapa histórico do pentecostalismo elaborado por esse último autor.
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Um segundo grupo de igrejas pentecostais que surgiram posteriormente é classificado por Freston como Pentecostalismo da segunda onda: a Igreja do
Evangelho Quadrangular (1951), a Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil para Cristo (1955) e a Igreja Pentecostal Deus é Amor (1962). Ele concentra sua
pesquisa, a partir desse ponto, nos grupos mais significativos em virtude da fragmentação em dezenas de grupos novos ocorrida no período. Essas igrejas nasceram no período em que o pentecostalismo crescia aceleradamente, adaptando-se à sociedade urbana e inovando com técnicas modernas (como a utilização de programas radiofônicos) e uma nova forma de relacionar-se com a sociedade, alcançando sobretudo as camadas sociais mais baixas (FRESTON, 1993, p. 66 e 82).
Ao final do século XX, de forma acentuada, irão se processar múltiplas transformações (teológicas, litúrgicas e eclesiológicas) no âmbito dos diversos segmentos do protestantismo histórico e nas igrejas pentecostais acima referidas, que se relacionam à nova realidade social e econômica do país.
A expansão das igrejas pentecostais levou muitos pesquisadores a buscar respostas para o fenômeno do crescimento pentecostal. Para Waldo César, o fenômeno pentecostal deveria ser considerado como um fenômeno essencialmente urbano que surge como uma rejeição dos valores da sociedade urbana, aos quais apresentava três tipos de respostas: santificação pessoal, dons do Espírito Santo e a segunda vinda de Cristo (1974, p. 19-28). Emílio Willens (1967, apud ROLIM, 1980, p. 162-163), por sua vez, relacionava a expansão pentecostal com a tríade urbanização - migração - industrialização, reconhecendo que se apresenta às camadas populares como um caminho de ascensão social:
[...] O simples pedreiro, que na sociedade nada ou muito pouco encontra que o promova socialmente, pode no pentecostalismo chegar às funções de pastor. Empregadas domésticas, uma vez profetisas, recebem legitimação e consideração por parte dos irmãos. Abre assim a religião pentecostal as vias de promoção, ao passo que a sociedade urbana as mantém fechadas às classes populares (ROLIM, 1980, p. 163).
A expansão do pentecostalismo no Brasil, na visão de Rolim (1980), é melhor compreendida quando se considera dois aspectos básicos: (1) o processo de
urbanização dentro da estrutura social capitalista; (2) “a religiosidade preexistente que na esmagadora maioria dos convertidos, oriundos do catolicismo, era de tipo devocional” (ROLIM, 1980, p. 163).10
O Pentecostalismo da terceira onda ou Neopentecostalismo tem o seu período de expansão iniciado nos anos 80 do século passado é representado pela Igreja Universal do Reino de Deus, fundada pelo Bispo Edir Macedo em 1977, e pela Igreja Internacional da Graça de Deus, fundada em 1980 pelo Missionário Romildo R. Soares, após um cisma na Igreja Universal do Reino de Deus. Segundo Freston,
Os nomes das igrejas apontam para tendências econômicas diversas do nacionalismo dos anos 50 que influenciou a BPC (Igreja Evangélica Pentecostal O Brasil para Cristo). O país é outro, e o pentecostalismo da terceira onda adapta-se às mudanças: o aprofundamento da industrialização; o inchamento urbano causado pela expulsão de mão-de- obra do campo; a estrutura moderna de comunicação de massa que no final dos anos 70 já alcança quase toda a população; a crise católica e o crescimento da umbanda; e a estagnação econômica dos anos 80. Em contraste com a segunda onda de igrejas paulistas fundadas por migrantes de nível cultural simples, a terceira onda é sobretudo de igrejas cariocas fundadas por pessoas citadinas de nível cultural um pouco mais elevado e pele mais clara. Iniciando-se no contexto de um Rio de janeiro marcado pela decadência econômica, pelo populismo político e pela máfia do jogo, o novo pentecostalismo se adapta facilmente à cultura urbana influenciada pela televisão e pela ética yuppie (1993, p. 95, grifo do autor).
Os termos Pentecostalismo de terceira onda e Neopentecostalismo são usados no presente trabalho, preliminarmente, de forma intercambiável. Na verdade, são construções distintas. O primeiro termo foi cunhado por Freston, que levou em conta aspectos históricos e geográficos, bem como ênfases teológicas dentro do pentecostalismo. O segundo foi utilizado por diversos autores, dentre os quais Mariano (1999), que apontou as seguintes características:
1) exacerbação da guerra espiritual contra o Diabo e seu séquito de anjos decaídos; 2) pregação enfática da teologia da Prosperidade; 3) liberalização 10 O catolicismo brasileiro, segundo Sérgio Buarque de Holanda, é devedor ao catolicismo tridentino da Contra-reforma com sua “exaltação das formas concretas e sensíveis da religião” (1995, p. 151). Mendonça (1984c, p. 14) observa que, a essência da religiosidade católica não é modificada radicalmente, mas absorvida e adaptada dentro do pentecostalismo: “[...] assim, a essência protestante da ênfase doutrinária bíblica, assim como a estruturação institucional, seria permeada pelo misticismo católico. Assim, o elevado teor de magia e misticismo presente no pentecostalismo, pode ser explicado principalmente pela presença de elementos católicos”. Sobre a afinidade do catolicismo popular, possuidor de uma tradição autônoma e híbrida, com os grupos pentecostais, cf. ainda Passos (2002).
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dos estereotipados usos e costumes de santidade. Uma quarta característica importante, ressaltada por Oro (1992), é o fato de elas se estruturarem empresarialmente (1999, p. 36).
Spierski (2003), por sua vez, prefere o termo Pós-pentecostalismo para designar esse mesmo fenômeno, entendendo que esse movimento se afasta do pentecostalismo e tem como cerne a teologia da prosperidade e a batalha espiritual. Para os fins do presente trabalho o termo “pentecostalismos” se refere às três ondas do movimento pentecostal no Brasil.
Aproveito a discussão dessa terminologia para justificar a utilização do termo “novas comunidades protestantes”. Primeiro, descartei de imediato a ideia de chamar de “novas comunidades pentecostais”, pois seria muito fácil confundi-la com “comunidades neopentecostais”. Evitei ainda o termo “igrejas emergentes” ou “comunidades emergentes” para não gerar nenhuma associação com as igrejas protestantes que se inspiram no “emerging church movement” (movimento igreja emergente) ou que estão ligadas à “Convenção Brasileira de Igrejas Emergentes” (MEISTER, 2006, p. 96). Mesmo que haja imprecisão no termo, pois não é de hoje que o protestantismo produz novas comunidades. Aliás, o protestantismo, pelas razões mais diversas, tem a sua história marcada pela constante divisão. Assim, não apenas pela conexão com o protestantismo, mas por representarem um novo momento e expressarem rupturas com o protestantismo histórico e os diversos pentecostalismos, optei por “novas comunidades protestantes”.