7. Analyse av risiko
7.1 Likviditetsanalyse
Os dados discutidos na seção anterior mostraram que há casos diferentes de zero anafórico e de zero catafórico. Na literatura fun- cionalista essas motivações, vale destacar, estão ligadas ao princípio de economia, em contraposição ao de iconicidade (Givón, 1980, 1990; Haiman, 1983), duas motivações funcionais extremamente reconhecidas pela pesquisa tipológica.
A iconicidade é a tendência para a relação de conformidade entre a estrutura linguística e a estrutura da experiência conceitual, traduzida por Haiman (1985, p.11) como motivação icônica. A mo- tivação icônica é uma correspondência entre a estrutura linguística e o significado tal que relações entre partes da estrutura linguís- tica refletem diagramaticamente relações entre os conceitos que ela codifica.
Um dos domínios da motivação icônica é a chamada iconicida- de de distância (Haiman 1985), ilustrada pela expressão de posse: a distância entre morfemas sinalizando posse inalienável nunca é maior que a distância entre morfemas sinalizando posse alienável. Outro domínio é fornecido pelo Princípio de Ligação (Binding Principle) de Givón (1980), segundo o qual o grau de integração semântica entre os eventos se reflete no grau de integração morfos- sintática entre a oração matriz e a encaixada (Givón, 1980; 1990).
Em contraste com a iconidade, que torna a estrutura linguís- tica tão transparente quanto possível, a economia representa uma pressão para o mínimo esforço e para a simplificação máxima da expressão. Haiman (1985) faz uma distinção entre economia sin- tagmática e economia paradigmática. A economia paradigmática se traduz pela tendência para reduzir ao máximo o inventário de signos de um sistema linguístico, cuja consequência mais direta é o fenômeno da polissemia. A economia sintagmática, por outro lado, é a tendência para reduzir o comprimento ou a complexidade de qualquer enunciado, de modo que as expressões mais frequentes no uso tendem a reduzir-se fonologicamente e a informação que é redundante e/ou recuperável no contexto comunicativo tende a ser omitida (Haiman, 1985, p.158).
Segundo Cristofaro (2003, p.248-9), é a economia sintagmáti- ca que explica a correlação entre a predeterminação de traços se- mânticos entre dois estados de coisas conectados e os fenômenos morfossintáticos que levam à não especificação de informação cor- respondente, a que ela denomina Princípio de Recuperabilidade de Informação.
Em seus próprios exemplos, a economia sintagmática está for- temente correlacionada com a predeterminação de informação se- mântica em estados de coisas conectados e a não manifestação de informação pragmaticamente compartilhada pelos participantes da interação. Se, por exemplo, o tempo, o aspecto e o modo de uma predicação dependente são predeterminados pelos traços semân- ticos da predicação principal, eles prescidem de especificação no verbo da predicação dependente, conforme se pode ver em (4-25), que consiste num exemplo de construção complexa em Maricopa. (4-25) Maricopa (Northern Amerindian, Hokan)
[nyaa m-mii-k] ´ii-m
I 2-cry-SUB say-REAL
‘I said you cried’
É óbvio que esse tipo de não especificação se aplica a nomina- lizações. Similarmente se duas predicações compartilham os mes- mos participantes, a referência a eles também pode ser omitida na predicação dependente, como ilustrado em (4-26), que tem como predicado matriz um verbo volitivo.
(4-26) Guugu Yimidhirr (Australian)
Ngayu wawu-dgirr [mayi buda-nhu]
1SG.NOM want-COM.ABS food.ABS eat-PURPV
‘I want to eat food’
(Haviland, 1979, p.135 apud Cristofaro, 2003, p.78)
Esse princípio, também mencionado por Koptjevskaja-Tamm (1993), explica casos de compartilhamento argumental em nomi-
nalizações como o contido em (4-27) cujo argumento A1, caça, não
pode ser especificado na estrutura valencial de resistência por moti- vo de redundância.
(4-27) isto é de caça... que é o que oferece... uma resistência por-
que a:: fruta está lá então eles não precisavam se preocupar...
(EF-SP-450)
O resultado é, segundo Cristofaro (2003), tornar a estrutura linguística o mais opaca possível, em contraposição ao princípio da motivação icônica. Trata-se aqui, de acordo com Haiman (1983), do princípio de economia sintagmática ou discursiva que explica a tendência pela omissão de informação redundante ou recuperável no contexto.
Parece não destituído de razão considerar a ausência de repre- sentação argumental nos nomes não referenciais, expressos como nominais nus, e a ausência de argumentos sujeito e objeto genéri- cos também como casos funcionalmente motivados por economia (Haiman, 1983) e explicáveis pragmaticamente pela Máxima da Quantidade de Grice (1975).
Se a valência potencial pode ser expressa no exterior do núcleo nominal, é possível considerar como argumentos alguns tipos de termos não fonologicamente manifestos na posição de primeiro e de segundo argumento da nominalização, que são expressos por dois diferentes tipos de expressão por zero anafórico.
O primeiro caso de zero anafórico representa um participante, o primeiro argumento, que é semanticamente compartilhado com o predicado da oração matriz, como mostra (4-28a-b). Note-se, de passagem, que (4-28) traz especificação, como SN pleno, apenas do segundo argumento, que aparece como sintagma-de.
(4-28) a se eles dependiam... da colheita... de frutos... raízes... que eles
não plantavam (EF-SP-405)
b eles colhiam frutos, raízes
Note que a mesma nominalização com o primeiro argumento especificado em (4-28c) não seria uma construção aceitável por razões de redundância, já que o agente já se acha mencionado no su- jeito de dependiam, que funciona como núcleo da predicação matriz. (4-28) c * se eles dependiam... da colheita... por eles de frutos... raí-
zes... que eles não plantavam
Vale lembrar que essa condição se sustenta apenas se houver identidade de participantes entre dois diferentes estados de coisas. No caso de não identidade, como se vê em (4-28d), a gramática licencia o agente do nome deverbal.
(4-28) d as mulheres dependiam... da colheita... pelos homens de fru-
tos... raízes.... que elas não plantavam
O segundo tipo de zero, que é também anafórico, representa termos que recuperam alguma entidade dada, já mencionada no contexto precedente, não necessariamente na predicação matriz, como se vê em (4-29a-b).
(4-29) a nessa época ainda não existe preocupação com composição... (EF-SP-405)
b Nessa época o homem pré-histórico não se preocupa com composição.
Como o tópico do texto é a arte do paleolítico, há várias menções anteriores ao homem pré-histórico. É por isso que, em (4-29c), a mesma nominalização com o argumento especificado continuaria sendo uma construção aceitável. O outro argumento é composição, que aparece na forma de oblíquo do predicado verbal input.
(4-29) c nessa época ainda não existe preocupação do homem pré- -histórico com composição...
Isso significa que, nesse aspecto, (4-29a) é diferente de (4-28a): a manifestação ou não do primeiro argumento em (4-29a) é uma escolha real do falante, diferentemente de (4-28a), que bloqueia a manifestação do argumento na função semântica de agente.
Passemos, agora, ao exame de casos de zero anafórico na expres- são do segundo argumento, conforme se vê no exemplo contido em (4-30a-b).
(4-30) a ele percebeu que era capaz de CRIAR::... e criar uma ima-
gem... [...] então:: ele vai tentar usar esta criação... que ele é capaz de fazer... para garantir a caça... (EF-SP-405:52-3)
b O homem pré-histórico criou uma imagem.
O zero anafórico de (4-30a) representa um participante seman- ticamente compartilhado com o predicado da oração matriz na posição de segundo argumento, o que equivaleria, na predicação verbal de (4-30b), ao objeto ou argumento interno de criar.
A mesma nominalização com o segundo argumento especifica- do em (4-30c) é uma construção discursivamente menos aceitável por razões de redundância, uma vez que o paciente já se acha men- cionado no objeto de criar, que aparece negritado.
(4-30) c ele percebeu que era capaz de CRIAR::... e criar uma ima- gem... [...] então:: ele vai tentar usar esta criação da imagem...
para garantir a caça...
Os argumentos de criação, em (4-30a-b), que recebem ambos expressão de zero anafórico na sintaxe interna do predicado nomi- nal, são facilmente recuperáveis no cotexto: o primeiro argumento é ele (homem pré-histórico) e o segundo é imagem; no entanto, o princípio de economia bloqueia o licenciamento da expressão sin- tática dos argumentos na retomada seguinte. Observe-se, todavia, (4-31) abaixo:
(4-31) porque na medida... em que acabava a caça do lugar [...] eles
também precisavam acompanhar... o a migração da caça
(EF-SP-405:49)
O argumento caça no SN grifado, que é o sujeito na predicação
input correspondente, não é informação acessória, que possa ser
descartada, uma vez que estabelece uma distinção desambiguado- ra no paralelismo entre migração do homem e migração da caça, sendo, nesse caso, imprescindível para a continuidade temática, para a coerência textual. Além disso, constitui informação pragma- ticamente nova ou focal, em oposição à informação anterior, dada ou tópica, contida no SN a caça do lugar; a expressão sintática desse argumento tem, portanto, motivação semântica e pragmática.
Há um segundo tipo de expressão por zero, que não é anafóri- co, mas catafórico. Num número reduzido de casos, o argumento não se manifesta na sintaxe interna da nominalização por aparecer inserido no contexto imediatamente seguinte. Observe o exemplo contido em (4-32a-b) para ilustrar um caso de primeiro argumento. (4-32) a é MUIto difícil a gente desenhar estritamente o que a gente vê
a gente separar a percepção... da... do conceito que nós fazemos do objeto... (EF-SP-405:56)
O argumento experienciador de percepção é zero catafórico, já que sua referência remete para o sujeito de uma oração relativa, atuando como modificador do núcleo nominal de conceito, que aparece, por seu lado, sob a forma de sintagma-de na condição de segundo argumento do nome deverbal. Como (4-28a-b), a inserção de um termo na posição argumental torna a construção inaceitável também por razões de redundância, como se vê em (4-32c). (4-32) c separar a percepção do objeto [*por nós] do conceito que nós
fazemos do objeto.
O mesmo é aplicável ao segundo argumento, que também não se manifesta no interior da predicação matriz porque aparece inse- rido numa construção relativa imediatamente seguinte, conforme se observa em (4-33a-b).
(4-33) a é inCRÍvel o que aparece lá os cortes que eles dão nas cenas (DID-DP-234)
b Eles cortam as cenas.
Em (4-33) a referência aos argumentos do nome cortes está na oração relativa seguinte, o que corresponderia à representação sub- jacente contida em (4-33c).
(4-33) c (ei [fi: cortesN (fi) (xi: eles (xi)Ag (xj: cenas (xj)Pac)] (ei))
O argumento paciente de corte é zero catafórico, já que sua re- ferência remete para o objeto oblíquo da oração relativa, atuando como modificador do núcleo nominal de cortes. A inserção de um termo na posição argumental torna a construção inaceitável tam- bém por razões de redundância, como se vê em (4-33d).
(4-33) d * é inCRÍvel o que aparece lá os cortes das cenas que eles dão nas cenas é::
Quando os participantes são predeterminados, o falante pode excluir a referência a eles porque a informação correspondente está implicada na relação de subordinação, ou em outro tipo de com- binação de orações. Cristofaro (2003) não menciona os casos de compartilhamento argumental, como os tratados em (4-32a), que devem ser obviamente considerados como semanticamente moti- vados, já que a manifestação argumental por zero é cognitivamente compensada, por remissão catafórica, com um SN pleno ou prono- minal na oração presente na oração relativa seguinte.
Há, no entanto, casos de compartilhamento de participantes em que a não especificação do argumento não é semanticamente motivada. Quando os participantes não são semanticamente pre- determinados, e não há referência aberta a eles, a recuperação da informação depende do conhecimento de curto prazo pragmatica- mente compartilhado pelos interlocutores. Um bom exemplo desse tipo de expressão argumental é (4-34a-b).
(4-34) a toda e qualquer manifestação que a gente for procurar vai ter
que estar necessariamente ligada... a esta preocupação vital do homem pré-histórico de... se conservar vivo [...] então a preocu- pação central... vai ser em torno da caça... (EF-SP-405:50-1)
b O homem pré-histórico se preocupa com conservar-se vivo.
O exemplo (4-34a) contém duas menções do nome deverbal
preocupação enunciadas em momentos diferentes do texto. Na pri-
meira menção, os dois argumentos do nome deverbal estão ma- nifestos: o primeiro argumento, que corresponderia ao sujeito do verbo input, é o homem pré-histórico, enquanto o segundo argumen- to, que corresponderia a um complemente oblíquo, é oracional (de
se conservar vivo).
Já na segunda menção, fica claramente explícito que a expressão do primeiro argumento é igualmente o SN o homem pré-histórico, que, embora seja morfossintaticamente licenciado, é expresso por zero anafórico por consistir em informação pragmaticamente com- partilhada pelos participantes da interação. Nesse caso, a segunda
menção da nominalização de (4-34a), aparentemente desprovida de manifestação valencial, não envolve perda, porque o ouvinte re- cupera uma informação de curto prazo, mencionada um momento antes na situação discursiva.
Segundo Cristofaro (2003, p.250-1), embora esse tipo de cons- trução seja apenas outro exemplo do mesmo princípio de economia, ele reflete o fato de que essa situação de compartilhamento é mais comum no nível do discurso, e a organização estrutural é motivada por razões pragmáticas.
Em suma: os dados analisados mostram que há duas motivações para os diferentes tipos de zeros na expressão tanto do primeiro quanto do segundo argumento: (i) uma motivação semântica, que consiste nos casos de identidade de participantes mediante relação anafórica e catafórica; (ii) uma motivação pragmática, caso em que a identidade existe, mas a primeira menção está textualmente dis- tante e pode ser recuperada mediante segunda menção.