Apresentação de resultados
1. Análise de dados
A análise e o tratamento de dados das famílias e dos profissionais das CPCJs que as acompanhavam, descrita neste capítulo, compreende dois momentos: num primeiro momento, analisaremos os resultados dos Q-sorts da Resiliência Familiar realizados pelos dois grupos e, num segundo momento, procederemos a uma análise da relação destes com o perfil protótipo do funcionamento familiar resiliente obtido no estudo de validação de constructo junto dos peritos.
Os dados quantitativos foram analisados no programa IBM SPSS Statistics (SPSS- Statistical Package for the Social Science), versão 21, de 2012. Dadas as características do presente estudo exploratório e da dimensão da amostra, as análises realizadas compreendem estatísticas descritivas, que nos possibilitam através do cálculo de frequências determinar quais os itens mais pontuados pelas famílias e profissionais e que contribuem de forma mais decisiva para as suas descrições da resiliência familiar.
Na linha das orientações de Block (2008), a análise dos resultados centrou-se nas categorias extremas dos dois pólos da escala de sete pontos, respetivamente nas categorias 7, 6, 2 e 1. Os itens das categorias intermédias, i.e., 5, 4 e 3 são, de acordo com Block menos expressivos para a caracterização do fenómeno e não serão objeto da nossa análise. Na continuação desta primeira análise, apresentamos o estudo das correlações encontradas entre famílias e profissionais. As características da distribuição de um Q-sort levam a que um conjunto de itens seja pontuado na mesma categoria, sugerindo a optar pelo teste de Kendall- Tau, cujo coeficiente exprime a correlação entre as ordens das pontuações.
Adicionalmente às correlações apresenta-se como análise complementar o resultado do teste à diferença de médias para os itens nas categorias extremas. Uma vez que aos profissionais era pedido que avaliassem as famílias que acompanhavam, estes grupos não podem ser considerados independentes, tendo por este motivo optado por usar o teste de Wilcoxon (Z) para medidas emparelhadas. Já na comparação entre famílias e peritos e profissionais e peritos recorreu-se ao teste de t de Student para medidas independentes. De
modo a conformar o padrão da distribuição dos itens/variáveis e/ou da homogeneidade das suas variâncias ao tipo de análise, optou-se por recorrer a testes não-paramétricos.
Atendendo à natureza do estudo e às características do método Q-sort, a apresentação dos resultados é acompanhada de uma interpretação e discussão de dados. Esta análise conceptual dos dados, baseada no modelo da resiliência familiar de Walsh (1998, 2005), consiste num processo interpretativo dos indicadores/itens de risco e proteção representados nas dimensões e processos-chave do modelo de Walsh, extrapolando-se em que sentido contribuem para o perfil da resiliência familiar.
No último ponto da análise procede-se ao cálculo do perfil compósito de funcionamento familiar resiliente para cada família. Este perfil é obtido com base nas classificações das próprias famílias e dos profissionais, e da sua relação com o protótipo da família resiliente.
1.1 Configurações da resiliência nas famílias em risco psicossocial
Como referimos acima, a análise quantitativa e qualitativa dos Q-sorts das famílias e dos profissionais das CPCJs, que as acompanhavam, torna possível compreender como se configura a proteção e o risco nestas famílias, de acordo com a perspetiva de cada grupo. A frequência dos itens mais representados nas quatro categorias nos dois pólos extremos destaca aqueles que caracterizam a família “muito bem” e “totalmente” (categorias 6 e 7) e, inversamente, aqueles outros que caracterizam “muito mal” e “nada” (categorias 2 e 1). A análise qualitativa destes conjuntos de itens procede dando lugar à apreciação das dimensões e processos-chaves da resiliência familiar do modelo de Walsh (1998, 2005), bem como à discriminação destes itens enquanto elementos de risco e de proteção.
A análise reporta simultaneamente às duas extremidades da distribuição Q-sort, tendo em conta que a resiliência das famílias obriga a considerar a dupla proteção-risco. Logo, a resiliência será configurada a partir de duas condições:
1) a presença de fatores de proteção e a ausência de fatores de risco, no caso da proteção;
Apresentam-se, em primeiro lugar, os resultados para a configuração da proteção das famílias em estudo, seguida da configuração do risco, contrastando-se a perspetiva das próprias famílias com a dos profissionais das CPCJs.
1.1.1 Configurações da proteção das famílias em risco psicossocial
Tomando como base os Q-sorts das famílias e dos profissionais, apresenta-se no quadro nº 9 os itens que ambos os grupos apontam como características favorecedoras da resiliência na família e que, nesse sentido, implicitamente associamos aos fatores de proteção que salvaguardam o funcionamento resiliente da família em situação de risco psicossocial.
De modo a facilitar a comparação entre perspetivas destacam-se os itens que nos Q- sorts das famílias e dos profissionais correspondem a esses indicadores de proteção:
- Itens de proteção mais pontuados nas categorias 6 e 7 que caracterizam “muito bem” ou “totalmente” as famílias;
- itens de risco mais pontuados nas categorias 2 e 1 que caracterizam “muito mal” ou “nada” as famílias.
Quadro nº 9 – Configurações da proteção das famílias em risco psicossocial
Tomando como base, para uma análise qualitativa, o modelo da resiliência familiar de Walsh (1998, 2005), podemos afirmar que as famílias em risco psicossocial valorizam especialmente características que situamos na dimensão “Sistemas de crenças” desse mesmo
Itens Dimensões da RF (Walsh,1998, 2005)1 Famílias Profissionais Proteção 6-7 Risco 1-2 Proteção 6-7 Risco 1-2 Frequência Frequência Frequência Frequência 4. Acreditamos quefalar sobre as situações
difíceis com os filhos os prepara para a
vida. SC
15
5. É por estarmos juntos que a nossa vida
faz sentido. SC 18
7. A família acredita que se alguma coisa má lhe acontece é porque alguém lhe quer mal.
SC 15
10. A família acredita sentir mais coragem
quando tem o apoio dos outros. 2 SC 17 16
16. Lutamos no dia a dia porque acreditamos que os nossos filhos poderão ter um futuro melhor.
SC 20
17. As dificuldades por que passamos
ensinam-nos a superar os tempos difíceis. SC 15 22. No dia a dia da família existem rotinas
(e.g. comer e deitar sempre à mesma hora). PO 21 31. Quando nos zangamos tentamos que os
filhos tomem partido por um de nós. PC 15 33. Os pais têm de se controlar para não
estarem sempre a berrar ou a bater aos filhos.
PO 17
34. Para conseguirem alguma coisa dos filhos, os pais sentem que os têm de castigar.
PO 16
38. Quando pensam no tipo de pais que são
sentem-se mal ou culpados. PO 16 16
44. Procuram que a família, amigos, vizinhos ou serviços da comunidade (e.g. escola, centro de saúde, junta de freguesia) percebam quando precisam da ajuda deles.
PO 15
48. Na família só se fala para criticar ou
culpar uns aos outros. PC 16
51. Na família há o hábito de gozar ou de
fazer piadas à custa uns dos outros. PC 19 17 56. Quando um elemento da família tem
um problema sabe que tem alguém para o ajudar.
PC 15 15
57. Na nossa família muito dos problemas ficam por resolver só para evitar as
discussões. PC 18
1Dimensões da resiliência familiar (RF) (Walsh, 1998, 2005): PO – Padrões organizacionais; SC – Sistemas de crenças; PC – Processos de
comunicação;
2 Para as situações em que os itens são pontuados quer pelas famílias quer pelos profissionais, das quais o item nº 10 é exemplo, apresentamos
modelo, com destaque para os processos-chave “extrair significado da adversidade” (itens nº 4 e 5), “perspetiva positiva” (item nº10) e “transcendência e espiritualidade” (itens nº 16 e 17). Outro processo-chave muito representado (f=15), “resolução colaborativa dos problemas” (item nº 56), permite que consideremos o valor protetivo deste indicador ao nível dos “Processos de comunicação”.
Assim, nas caracterizações que fazem de si mesmas, as famílias identificam-se com um conjunto de crenças positivas/ facilitadoras que as ajudarão a enfrentar melhor, ou com mais força, as adversidades/ desafios com que se deparam e a atribuir um sentido mais positivo à vida e uma maior confiança no futuro. Entre essas crenças, valorizam as que se reportam à importância da construção compartilhada das experiências de crise, inclusive com os filhos, acreditando que o diálogo acerca das situações difíceis lhes facilitará um maior entendimento e ajustamento a essas situações bem como uma melhor preparação para a vida. Apreciam igualmente crenças baseadas na valorização do significado e da união familiares, as quais lhes permitem atribuir um maior sentido e coerência às suas vidas. Outras crenças identificadas pelas famílias reportam-se ao reconhecimento do apoio e do encorajamento por parte de outros, como fontes de coragem e de força; ao encarar as crises como oportunidades de crescimento, aprendizagem e de fortalecimento; ou, ainda, crenças sedimentadas no cultivo da fé ou da espiritualidade, que as fazem lutar por valores ou propósitos mais amplos, nos quais acreditam.
No domínio dos processos de comunicação familiar, manifestam contar com o apoio da família “lá de casa” para falar sobre os problemas numa perspetiva de os resolverem conjuntamente, traduzindo-se também um indicador positivo da resiliência familiar.
A configuração da proteção pelas famílias compreende, ainda, a identificação de um conjunto de fatores de risco percecionados como ausentes. Neste conjunto encontram-se referências aos processos-chave: “expressão emocional aberta” (itens nº 51) e “resolução colaborativa dos problemas” (item nº 57) da dimensão “Processos de comunicação”, bem como à “conexão” (itens nº 31 e 38) da dimensão “Padrões organizacionais”. Deste modo, não são percecionadas dificuldades na gestão do conflito ao nível da comunicação familiar para a resolução dos problemas, assim como não tendem a recorrer ao uso do humor para troçar ou humilhar outros, o que condicionaria a partilha de sentimentos e/ou de emoções entre os vários elementos da família. De forma análoga, a conexão (“Padrões organizacionais”) não parece ser ameaçada por sentimentos de culpa e/ ou de insatisfação quanto ao seu papel de pais/ mães e práticas educativas adotadas, nem através da formação,
em momentos de crise ou de conflito, de alianças com os filhos contra o outro cônjuge, o que fragilizaria igualmente a comunicação no casal e na família.
No que concerne à perspetiva dos profissionais, a configuração que a proteção assume nas famílias envolve um conjunto de elementos protetores que, embora em menor número, integram as três dimensões da resiliência familiar do modelo de Walsh (1998, 2005): “Sistemas de crenças”, “Padrões organizacionais” e “Processos de comunicação”.
Na dimensão “Sistemas de crenças”, destacam o processo-chave “perspetiva positiva” (item nº 10) sendo que, similarmente às famílias, consideram que estas sentem o apoio recebido por parte dos outros como algo que as encoraja e fortalece no enfrentar das adversidades. No domínio “Padrões organizacionais”, identificam fatores de proteção ao nível dos processos-chave “flexibilidade” (item nº 22) e “recursos sociais e económicos” (item nº 44), caracterizando a capacidade das famílias manterem rotinas no dia a dia que lhes conferem uma maior estabilidade e organização internas face à adversidade e às mudanças com que se defrontam nas suas vidas. Mais, reconhecem-lhes a capacidade para mobilizarem a sua rede de suporte social formal e/ou informal quando necessitam de apoio. No tocante à dimensão “Processos de comunicação”, e à semelhança do identificado pelas famílias, notam a existência de comunicação e do apoio uns dos outros para a resolução conjunta dos seus problemas (processo-chave “resolução colaborativa dos problemas” - item nº 56).
Os fatores de risco identificados pelos profissionais como ausentes das famílias e que contribuem, por isso, para a proteção e resiliência, situam-se na dimensão “Padrões organizacionais”, representando pelo inverso os mecanismos de “conexão” (itens nº 33, 34 e 38) que a família dispõe na adversidade. A este respeito, não reconhecem que, nestas famílias, as práticas educativas parentais sejam demasiado negativas, autoritárias e/ou baseadas na punição física, não reconhecendo também sentimentos de culpabilização nos pais/ mães, quanto ao seu papel e relação com os filhos. De notar ainda que, em metade das famílias avaliadas, identificam como ausente a crença externalizadora de responsabilizar os outros pelos seus próprios fracassos ou adversidades, a qual constituiria um fator de risco ao nível do processo-chave “extrair significado da adversidade” da dimensão “Sistemas de crenças” (item nº 7). Por fim, contribuem ainda para a resiliência os processos-chave que desbloqueiam os constrangimentos na comunicação familiar, como sejam a “clareza” (item nº 48) e a “expressão emocional aberta” (item nº 51- comum às famílias) que dão abertura para a partilha de afetos, emoções ou sentimentos dentro da família, sem fazerem um uso indevido do humor para os depreciar.
Numa análise comparada entre as classificações das famílias e dos profissionais, observa-se que ao nível mais qualitativo ou conceptual, ambos os grupos identificam formas de funcionamento familiar que se constituem protetoras nestas famílias face ao risco. Embora se diferenciem, conforme o descrito anteriormente, no tocante às dimensões e processos- chave da resiliência familiar nelas representados, observam-se também algumas semelhanças entre grupos, no tocante a indicadores de proteção presentes e indicadores de risco ausentes.
No que respeita ainda à proteção destas famílias, as configurações de ambos os grupos revelam-se mais ou menos equilibradas quanto ao número total de indicadores de proteção presentes e de risco ausentes, e respetivos valores de frequência nas categorias extremas do Q-set. Um olhar mais atento permite constatar, porém, que as diferenças entre grupos sucedem particularmente no número de indicadores de proteção identificados como presentes por comparação com o número de indicadores de risco tidos como ausentes. Enquanto as famílias valorizam a resiliência através de um número superior de fatores de proteção nas categorias 6 e 7, os profissionais descrevem-na pela negativa reconhecendo um número superior de itens de risco nas categorias 1 e 2, ausentes no perfil dessas famílias, o que é uma forma de contrabalançar a visão que têm da resiliência familiar.
1.1.2 Configurações do risco das famílias em risco psicossocial
O quadro nº 10 apresenta, por sua vez, as configurações que o risco assume nas descrições das famílias, procurando-se evidenciar as características que quando presentes ou ausentes constrangem ou impedem o funcionamento familiar resiliente. Através de uma análise da distribuição dos itens pelas categorias extremas, centramos a nossa atenção na seleção daqueles que cumpriam as seguintes condições:
- Itens de risco mais pontuados nas categorias 6 e 7 que caracterizam “muito bem” ou “totalmente” as famílias, cuja presença denota a vulnerabilidade na família;
- Itens de proteção mais pontuados nas categorias 2 e 1 que caracterizam “muito mal” ou “nada” as famílias, cuja pontuação negativa marca a vulnerabilidade na família.
Quadro nº 10 – Configurações do risco das famílias em risco psicossocial
Nota: Dimensões da Resiliência familiar (RF) (Walsh, 1998, 2005): PO – Padrões organizacionais; SC – Sistemas de crenças; PC – Processos de comunicação
1 Este item, que refere aos efeitos cumulativos do stresse (ECS), difere da formulação de outros itens do sistema de crenças formulados
segundo o modelo de Walsh (1998, 2005).
Conforme os dados apresentados no quadro nº 10, e tendo por base o modelo de resiliência familiar de Walsh (1998, 2005), o risco psicossocial assenta, na perspetiva das famílias, em “padrões organizacionais” e “sistemas de crenças”, porém os “processos comunicacionais” não atingem para as mesmas a expressão que seria de esperar.
Itens Dimensões da RF (Walsh, 1998, 2005) Famílias Profissionais Proteção
1-2 Risco 6-7 Proteção 1-2 Risco 6-7
Frequência Frequência Frequência Frequência 12. Para conseguirmos alguma coisa na
vida precisamos de sorte. SC 9 15. A família acredita que é na fé,
religião ou espiritualidade que encontra conforto nos momentos difíceis.
SC 8
24. Na nossa família, as regras e as
obrigações são iguais para todos. PO 10 35. Procuramos o apoio dos filhos mais
velhos, tios ou avós na educação dos nossos filhos.
PO 10
36. Os pais estão de acordo quanto às
regras e formas de educar os filhos. PO 9 37. Os filhos tanto respeitam e
obedecem ao pai como à mãe. PO 10 39. Ambos os cônjuges procuram dar
importância à opinião um do outro. PO 8 12 42. Um dos cônjuges pouco ou nada
participa na vida da família. PO 9
43. Fazemos por participar nas atividades que acontecem na nossa comunidade/ freguesia (e.g. festas, convívios, reuniões, passeios de grupo).
PO 9
52. Como casal, quando não chegam a acordo, acabam por se ofender um ao outro.
PC 10
57. Na família muito dos problemas ficam por resolver só para evitar as discussões.
PC 9
58. A família ocupa mais tempo a falar
do problema do que a resolvê-lo. PC 9
61. A família tem passado por muitas tragédias e dificuldades (e.g. doenças, mortes, acidentes)
SC/ECS1 11
63. A família consegue olhar para trás e sentir que os anos que têm vivido juntos têm sido agradáveis.
Na dimensão “padrões organizacionais”, as famílias identificam indicadores de risco que situamos ao nível do processo–chave “flexibilidade” (item nº24). Traduzem dificuldades em equilibrarem, nos seus quotidianos, a estabilidade com a capacidade de flexibilidade e de mudança, concretamente no que respeita à adequação das regras ou obrigações às idades e características das crianças, e em função das circunstâncias, complexificando o reajustamento aos novos desafios ou situações geradoras de stresse. Na dimensão “sistemas de crenças”, o risco envolve um défice ao nível do processo-chave “perspetiva positiva” (item nº 12). As famílias identificam crenças negativas e externalizadoras na apreciação que fazem das suas vidas e das crises que atravessam. Ao associarem as causas de determinadas situações, como o sucesso, a fatores externos, como a sorte, constrangem as suas capacidades de ação e de mudança, bem como a possibilidade de perspetivarem o futuro com positividade.
A configuração do risco compreende ainda a ausência de um conjunto de indicadores de proteção que, na perspetiva das famílias, representam, em maior número, os processos- chave “conexão” (itens nº 35 e nº 39) e “recursos sociais e económicos” (item nº 43) da dimensão “padrões organizacionais”, apontando para a desigualdade de poder ao nível da relação conjugal; o evitar do envolvimento da família alargada ou de outros na educação e proteção dos filhos, bem como baixos índices de participação na comunidade, constrangendo, consequentemente, a sua capacidade de mobilização dos recursos sociais quando necessitam de apoio. Constata-se ainda a ausência de proteção ao nível dos efeitos cumulativos do stresse (Hines, 1989, citado por Rodrigo et al., 2008; Wrigt et al., 2013; Cowan, Cowan & Shultz, 1996; Gore & Eckenrode, 1994), com repercussões nos sistemas de crenças familiares. São famílias que tendem, portanto, a percecionar o passado como uma sucessão de crises e de acontecimentos negativos, o que contribuirá para estados crescentes de stresse crónico e de desesperança face ao futuro, enfraquecendo a sua resistência perante novos desafios.
Por sua vez, a configuração do risco, na perspetiva dos profissionais, coloca em destaque défices ao nível das dimensões “processos de comunicação” e “padrões organizacionais” do modelo de Walsh (1998, 2005), sendo também identificados efeitos cumulativos do stresse (Hines, 1989, citado por Rodrigo et al., 2008; Wrigt et al., 2013; Cowan, Cowan & Shultz, 1996; Gore & Eckenrode, 1994) que influem no sistema de crenças das famílias.
Na dimensão “processos de comunicação” são apontados défices nos processos-chave “expressão emocional aberta” (itens nº 52) e “resolução colaborativa dos problemas” (itens nº 57 e 58), percecionando, nestas famílias, a existência de problemas na comunicação e intimidade do casal, entrando facilmente em ofensas e discussões quando se confrontam com
ideias/opiniões contraditórias. Os problemas familiares, quase sempre, ficam por resolver, por não adotarem formas/estratégias eficazes para a sua resolução conjunta, como o conversar acerca dos mesmos e o delinear objetivos tangíveis. O risco ganha ainda expressão na dimensão “padrões organizacionais”, na falta de “conexão” familiar (item nº 42). Os companheiros/cônjuges são vistos como pouco participantes na vida familiar e na educação dos filhos, condicionando o bom funcionamento da família. Mais de 1/3 das famílias são percecionadas com vidas muito sofridas e sucessivamente marcadas por tragédias e dificuldades (item nº 61), não excluindo desta reflexão os efeitos cumulativos do stresse ao nível do sistema de crenças das famílias e na sua capacidade/força no enfrentar de novos desafios.
Completando a análise à luz do modelo de Walsh, a ausência de proteção, na perspetiva dos profissionais, incide sobretudo em aspetos relativos às dimensões “padrões