percentual dos cargos e empregos públicos. A Administração regula a situação através da Lei nº 8.112/90 e do Decreto nº 3.298/99, estabelecendo que serão reservadas até 20% (vinte por cento) das vagas oferecidas no concurso, bem como que o número de vagas correspondente à reserva destinada à pessoa portadora de deficiência deve estar inserta no Edital, respectivamente. II - Estatui o brocardo jurídico: ‘o edital é a lei do concurso’. Desta forma, estabelece-se um vínculo entre a Administração e os candidatos, igualmente ao descrito na Lei de Licitações Públicas, já que o escopo principal do certame é propiciar a toda coletividade igualdade de condições no ingresso ao serviço público. Pactuam-se, assim, normas preexistentes entre os dois sujeitos da relação editalícia. De um lado, a Administração. De outro, os candidatos. Com isso, é defeso a qualquer candidato vindicar direito alusivo à quebra das condutas lineares, universais e imparciais adotadas no certame. III - O candidato portador de deficiência física concorre em condições de igualdade com os demais não- portadores, na medida das suas desigualdades. Caso contrário, a garantia de reserva de vagas nos concursos para provimento de cargos públicos aos candidatos deficientes não teria razão de ser. IV - No caso dos autos, a candidata deficiente participou do processo seletivo em efetiva igualdade de condições com todos os demais, na medida em que: foi submetida a todas as etapas do certame, estava sujeita ao alcance de pontuação mínima nas provas objetivas, bem como à aprovação no Curso de Formação, dentre várias outras exigências insertas no Edital. Assim sendo, o item que impõe a participação dos portadores de deficiência em igualdade de condições com os demais candidatos, não pode ser interpretado de maneira absoluta. V - O tratamento relativamente diferenciado, ou por outro lado, a ‘preferência’ que se dá aos deficientes físicos foi o modo que encontrou o legislador constituinte de minorar o déficit de que são acometidos. A convocação da candidata deficiente para participar do Curso de Formação, ao invés do impetrante, consiste na obediência às normas que regem a situação. VI - Segurança denegada”. STJ, 3ª Seção, MS 8.411/DF, rel. Min. Gilson Dipp, j. 12.05.2004, DJ 21.06.2004, p. 160.
170 A Recomendação estipula várias medidas que facilitariam o pleno acesso do candidato surdo em um concurso público. Prescreve, por exemplo, que “os editais deverão ser disponibilizados e operacionalizados de forma bilíngüe, com vídeo em Língua Brasileira de Sinais – Libras” (artigo 2, item 1); “as provas devem ser aplicadas em Língua Brasileira de Sinais – Libras, com recursos visuais, por meio de vídeo ou de outra tecnologia análoga, conforme as normas técnicas em vigor, disponibilizando, inclusive, intérprete habilitado para permitir o acesso ao conteúdo das provas, sempre que solicitado pelo candidato surdo ou com deficiência auditiva”(artigo 3, item 1); e que se deve “considerar que a pessoa surda educada na língua de sinais, necessariamente sofrerá influências desta na sua produção escrita, tornando necessário o estabelecimento de critérios diferenciados de correção de provas discursivas e de redações, a fim de proporcionar tratamento isonômico aos candidatos surdos. Nesse sentido, deverão ser instituídos critérios que valorizem o aspecto semântico (CONTEÚDO) e sintático em detrimento do aspecto estrutural (FORMA) da linguagem, fazendo-se a distinção entre ‘conhecimento’ e ‘desempenho lingüístico’” (artigo 4, item 2).
Segundo a Constituição da República, o Ministério Público é “instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis” (art. 127,
caput), tendo entre várias de suas atribuições, a de proteção dos direitos difusos e coletivos de minorias, por meio do inquérito civil e da ação civil pública (art. 129, III, da CRFB/88, c/c art. 6º, VII, “d”, da lei complementar n. 75/93).
A lei n. 7.853/89 foi expressa para dar competências ao Ministério Público na tutela dos interesses das pessoas com deficiência, seja agindo como parte, mormente através do ajuizamento de ações civis públicas (art. 3º, caput), seja como custus legis em ações coletivas ou individuais em que se discuta interesse relacionado àquela minoria (art. 5º).
Em relação ao direito ao trabalho da pessoa com deficiência, quando for necessária a tutela deste interesse coletivo por intermédio do Parquet, é preciso verificar em que órgão jurisdicional poderá eventual ação por ele ajuizada tramitar: se envolver ações oriundas de relações de trabalho, que devem ser julgadas na Justiça do Trabalho (art. 114, I, CRFB/88), o órgão competente é o Ministério Público do Trabalho (art. 83 da LC n. 75/93). Se envolver causas em que a União, entidade autárquica ou empresa pública federal forem interessadas, que devem ser julgadas na Justiça Federal, incumbe ao Ministério Público Federal defender o interesse dessa minoria (art. 37 da LC 75/93). As demais causas, cuja competência de julgamento não conflite com a de outro órgão do Poder Judiciário, deverão ser patrocinadas ou receber intervenção do Ministério Público Estadual. No Estado do Ceará, há Promotorias Cíveis de defesa da pessoa com deficiência, conforme prevê o artigo 64, §3º, III, da LC estadual n. 72/2008.
O principal instrumento do Ministério Público em defesa do direito ao trabalho das pessoas com deficiência é, inegavelmente, a ação civil pública, na qual atua no polo ativo, sozinho ou em litisconsórcio com associações de e para pessoas com deficiência ou outros interessados, como a Defensoria Pública ou algum ente membro da administração pública direta ou indireta (art. 3º, caput, da lei n. 7.853/89). Pelo fato de as associações, em muitos casos, não possuírem assessoria jurídica própria, não raras são as vezes em que o Ministério Público é o autor da petição inicial da ação civil pública. Joaquim Benedito Barbosa Gomes notou esta atuação mais pungente do Parquet, listando alguns motivos para que tal ocorra:
Isso decorre de alguns fatores, entre os quais: a) a boa qualificação jurídica dos membros do Ministério Público e o prestígio profissional de que desfrutam na sociedade brasileira; b) a fragilidade financeira e organizacional das associações voltadas à defesa de interesses coletivos e de grupos, ainda bastante incipientes e
rudimentares no Brasil; c) a notável ausência, entre os brasileiros em geral, daquilo que os povos anglo-saxões apropriadamente denominam espírito de community, deficiência agravada pela nossa secular tendência a acreditar que deve vir do Estado a solução para todos os problemas sociais171.
Considerando a importância desta instituição, mister tratar de como seus órgãos atuam na tutela dos interesses da minoria em estudo.
O Ministério Público do Trabalho (MPT) trabalha em parceria com outros órgãos e entidades públicos e privados172. Dentre os órgãos públicos, entendemos que o Ministério do Trabalho seja o mais importante, por meio de suas Superintendências Regionais do Trabalho (SRTE), que lhe enviam relatórios sobre o descumprimento por parte de muitas empresas da política de reserva de vagas instituída pelo artigo 93 da lei n. 8.213/91. Além disso, denúncias de associações e outras entidades do terceiro setor, bem como de cidadãos comuns movidos pelo espírito de defesa dos fundamentos republicanos e de combate ao preconceito e à discriminação também auxiliam o MPT no desempenho de suas funções.
Muitas vezes é necessária maior instrução probante, que se faz por meio do inquérito civil, instaurado pelo membro do MPT, que poderá requisitar de qualquer pessoa física ou jurídica, pública ou particular, certidões, informações, exame ou perícias, no prazo não inferior a 10 (dez) dias úteis (art. 6º, caput, da lei n. 7.853/89). De acordo com Eduardo Henrique Raymundo von Adamovich, o fim precípuo do inquérito civil é o de “fundamentar o ajuizamento da ação civil pública, mas pode servir também para chamar o investigado a proceder de acordo com os ditames da lei, dando lugar à formação de termo de ajustamento de conduta [TAC]”173, que tem eficácia de título executivo extrajudicial (art. 5º, §6º, da lei n. 7.347/85).
Recebido o relatório da SRTE ou a denúncia da ONG ou do cidadão, em muitos casos uma pessoa com deficiência que foi recusada de participar de processo seletivo de determinada empresa, o procurador do trabalho convocará representante daquela firma para comparecer à Procuradoria Regional do Trabalho. Àquelas empresas em desconformidade
171 GOMES, Joaquim Benedito Barbosa. Discriminação racial e princípio constitucional da igualdade. Revista de
Informação Legislativa. Brasília, a. 36, n. 142, abr./jun. 1999, p. 312.
172 “[...] o Ministério Público do Trabalho atua em parceria com o Ministério do Trabalho e Emprego, por meio da aproximação com empresários, autoridades públicas e organizações não-governamentais envolvidas, visando a alterar o paradigma cultural de exclusão das pessoas com deficiência. Parte-se do pressuposto de que o desconhecimento das capacidades dessas pessoas é o maior obstáculo ao cumprimento da lei”. In: COSTA, op.
cit., p. 205.
173 ADAMOVICH, Eduardo Henrique Raymundo von. Sistema da ação civil pública no processo do trabalho. São Paulo: LTr, 2005, p. 409-410.
com a lei é oportunizado o firmamento de um TAC174, cujo inadimplemento gera o direito do
MPT de requerer sua execução ante a Justiça Trabalhista.
Se as investigações realizadas e documentos apresentados no curso do inquérito civil mostrarem-se provas robustas, bem como não havendo acordo entre o Ministério Público e a empresa infratora, poderá o procurador do trabalho ajuizar a ação civil pública, requerendo uma obrigação de fazer: a contratação de pessoas com deficiência pela empresa, cumulada ou não com pena pecuniária, isto é, astreintes, cujo valor será remetido ao Fundo de Defesa dos Direitos Difusos (FDD – art. 2º, II, do decreto n. 1.306/94).
O procedimento utilizado pelos Ministérios Públicos Federal e Estadual é semelhante ao do Trabalho, mas aplica-se, quanto ao direito ao trabalho da pessoa com deficiência, no contexto da impugnação de cláusulas de edital de concurso público ou em outra fase do provimento de vagas para o setor público, tal como a classificação final dos candidatos.
174 Sobre a importância de tal instrumento, leciona Francisco Antônio de Oliveira: “O compromisso de ajustamento de conduta não traduz nenhuma transação, uma vez que o legitimado ativamente não abdica de nada, apenas e tão-somente aceita da parte uma espécie de promessa que dali por diante modificará o seu comportamento. Vale dizer que existe um 'reconhecimento implícito da ilegalidade da conduta e promessa de que se adequará à lei'. É, pois, uma carta de intenção, mediante cominações, que terá eficácia de título executivo extrajudicial. O legitimado ativo da ação civil pública não abre mão e nem poderia abrir mão de qualquer direito para formalizar o ajuste. Apenas, de comum acordo, são concedidos prazo e condições para que o réu possa conduzir-se ao caminho da legalidade, evitando com isso a proposição da ação”. In: OLIVEIRA, Francisco Antônio de. Da ação civil pública: execução do compromisso de ajustamento de conduta. Revista do Ministério Público do Trabalho, Ano X. Brasília: LTr, março 2000, p. 73, apud MELO, op.cit., p. 168.
4 EFETIVIDADE DA POLÍTICA DE COTAS NO TRABALHO PARA PESSOAS COM DEFICIÊNCIA
As leis de cotas de trabalho para pessoas com deficiência, como reiteradamente disposto neste estudo, têm sido um dos maiores exemplos de ação afirmativa em favor daquela minoria, a fim de que possam se integrar à sociedade e que o corpo social também conheça os efetivos potenciais dessas pessoas.
Não obstante, como boa parte das políticas afirmativas, a reserva de vagas tem recebido muitas críticas por vários integrantes da sociedade civil, mormente os empresários, seus maiores descumpridores. Além disso, a concepção caritativa em relação às pessoas com deficiência corrobora com um ideário preconceituoso frente tais cidadãos.
Nesse aspecto, nosso estudo pretende analisar a eficácia social da política de cotas para os surdos e outras pessoas com deficiência, para, ao final, sugerir medidas que lhe confiram maior concretude.