Para Bogdan; Biklen (1994), uma entrevista pode ser entendida como conversa intencional que envolve duas ou mais pessoas. Ela é conduzida por um dos interlocutores, geralmente, com o intuito de obter informação do outro ou dos demais. De acordo com esses pesquisadores, na pesquisa qualitativa, as entrevistas podem ser utilizadas como estratégia dominante para a produção de dados ou na combinação com outras técnicas de análise. A entrevista permite “recolher dados descritivos na linguagem do próprio sujeito, permitindo ao investigador desenvolver, intuitivamente, uma ideia sobre a maneira como os sujeitos interpretam aspectos do mundo” (BOGDAN; BIKLEN, 1994, p. 134).
Nesse sentido, Rosa; Arnoldi (2006) entendem que a entrevista, utilizada como técnica de produção de dados, pode “dirigir com eficácia um conteúdo sistemático de conhecimentos, de maneira mais completa possível, com o mínimo de esforço de tempo” (ROSA; ARNOLDI, 2006, p. 17).
Além disso, Goldenberg (2007) observa que, ao usar a entrevista como um instrumento de pesquisa, lida-se com aquilo que o sujeito quer revelar ou ocultar e com a imagem que deseja projetar de si mesmo e dos outros. Isso é importante para o presente estudo, já que visa elaborar compreensões sobre como os idosos, participantes das Conversas, entendem as atividades matemáticas e como veem aqueles que as sugerem como um tema de diálogo.
Para Duarte (2004), as entrevistas como forma de registro de dados podem ser utilizadas quando existe a necessidade ou o desejo de se fazer um mapeamento de crenças e/ou de valores de grupos sociais específicos, em que se objetive um entendimento sobre determinada situação. Por meio delas, o investigador pode fazer uma espécie de mergulho em profundidade, produzindo indícios dos modos como os sujeitos percebem e significam sua realidade e levantando informações consistentes que possibilitem descrever e compreender relações que se estabelecem no interior do grupo.
As recomendações de Duarte (2004) e as vantagens, apontadas por Goldenberg (2007) para o uso da entrevista, contribuíram para reforçar o interesse por esse instrumento para registro de dados, porque: i) por meio dela, é possível o registro de informações e de ideias de pessoas que não são alfabetizadas. Foi o caso de uma de nossas entrevistadas; ii) as pessoas são mais dispostas e têm mais paciência para falar do que para escrever; iii) existe maior possibilidade para conseguir contribuições, relacionadas ao objetivo da investigação; iv) com ela, pode-se capturar informações sobre assuntos complexos, como as emoções. Esses
sentimentos eram evidenciados, quando senhoras e senhores falavam da alegria de poder aprender coisas novas; v) estabelece-se uma relação de confiança entre o pesquisador e o sujeito da pesquisa, o que pode propiciar outros dados.
Fez-se a escolha pela entrevista semiestruturada, porque com ela é possível definir, previamente, perguntas abertas, que serão seguidas pelo pesquisador, sem eliminar a possibilidade de se elaborarem outros questionamentos que se mostrarem, eventualmente, necessários e/ou omitir perguntas que, de alguma forma, já foram respondidas pelo pesquisador. Além disso, esse procedimento permite que o sujeito fale, livremente, sobre um assunto mesmo que lhe sejam feitas questões específicas. Pois, o que interessa é “compreender o significado atribuído pelos sujeitos a eventos, situações, processos ou personagens que fazem parte de sua vida cotidiana” (ALVES-MAZZOTTI; GEWANDSZNAJDER, 1998, p. 168).
Os participantes foram convidados a dar uma entrevista, individualmente, oito deles aceitaram e elas foram gravadas, com a permissão dos mesmos e, posteriormente, transcritas na íntegra. Para que os entrevistados expusessem suas ideias, evitaram-se perguntas que pudessem ser respondidas, proferindo “sim” e/ou “não”, dando prioridade àquelas que necessitavam de reflexão e/ou de rememoração sobre algo. Embora se reconheça que não há regras que se apliquem, de forma geral, a todas as entrevistas, atentou-se às recomendações de Bogdan; Biklen (1994), referentes à utilização dessa técnica.
O que se revela mais importante é a necessidade de ouvir cuidadosamente. Ouça o que as pessoas dizem. Encare cada palavra como se ela fosse potencialmente desvendar o mistério que é o modo de cada sujeito olhar para o mundo. Se a princípio não conseguir compreender o que o sujeito está a tentar dizer, peça-lhe uma clarificação. Faça perguntas, não com o intuito de desafiar, mas sim de clarificar. Se não conseguir compreender, encare o defeito como seu. Assuma que o problema não reside na falta de sentido do que o sujeito está a dizer, mas que reside em si, que não o conseguiu compreender. Volte atrás, ouça e pense um pouco mais. O processo de entrevista requer flexibilidade (BOGDAN; BIKLEN, 1994, p. 137).
A fim de que a entrevista seja bem sucedida, isto é, para conseguir que o entrevistado se expresse como afirma Goldenberg (2007), o investigador precisa criar um ambiente amistoso e de confiança com o entrevistado. Por isso, houve muito cuidado em incentivar os entrevistados a emitir suas opiniões sem que o entrevistador expressasse qualquer juízo de valor sobre elas. Entende-se que havia uma confiança estabelecida entre os envolvidos,
porque os interlocutores já estavam familiarizados entre si e com a ação Conversas há, pelo menos, um semestre.
Para marcar cada entrevista, das oito realizadas, o investigador abordou os participantes, individualmente, sobre uma possível disponibilidade de tempo para conversar sobre os encontros do grupo. Alguns aceitaram o convite, de imediato, pedindo que a mesma se realizasse em suas respectivas casas, outros preferiram ser entrevistados na Unesp e houve quem declinasse do convite.
A cada entrevistado, logo de início, solicitou-se para gravar. Todos concordaram. Além disso, explicou-se com um termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE), apêndice 1, os objetivos da pesquisa e que as informações concedidas seriam tratadas pelo pesquisador com o intuito de serem utilizadas para a produção de uma tese de doutorado e de trabalhos para apresentação em eventos científicos. O TCLE e o roteiro das entrevistas encontram-se no apêndice desse trabalho.
Nas transcrições das entrevistas, como sugerido por Bogdan; Biklen (1994), buscou-se retirar frases confusas, ocasionadas por redundâncias na linguagem falada e, ainda, tiques de linguagem como “né”, “ham”, “pois é” dentre outros.