A formulação do processo de decisão é a fase que antecede a estruturação e corresponde ao planejamento da estruturação, ou seja, determina‐se como se deve proceder para obter um modelo de avaliação. Como apresentar o problema, de que forma organizar todos os elementos primários de avaliação e apresentar o modelo aos intervenientes são as questões que dominam o pensamento do facilitador nesta fase.
Ao final da formulação do processo de decisão, o facilitador poderá optar por uma problemática técnica da descrição, segundo Carlos Bana e Costa [BANA E COSTA, 2002], onde ele ajuda a compreender o contexto da decisão, a identificar as condições que restringem o desenvolvimento de hipóteses de escolha, ou mesmo, limitar‐se a uma descrição das ações possíveis e das suas conseqüências potenciais.
4.1.4 Estruturação
“O trabalho de estruturação visa a construção de um modelo (mais ou menos) formalizado, capaz de ser aceito pelos atores como um esquema de representação e organização dos elementos primários de avaliação, e que possa servir de base à aprendizagem, à investigação e à discussão interativa com e entre os atores” [BANA E COSTA, 2002].
Assim procura‐se, nesta fase, ajudar a construir um modelo que represente um processo cognitivo complexo, no qual uma grande quantidade de fatores são levados em conta: os objetivos dos atores, seus pontos de vista, seus interesses, as ações possíveis, suas conseqüências e características etc.
A estruturação é a resposta operacional à problemática da formulação do processo de decisão. Se a tarefa do facilitador não se restringe à fase inicial de formulação, a estruturação reveste‐se de uma importância crucial no quadro de um processo de apoio à decisão [MARREIROS, 2008].
A atividade de estruturação passa pela caracterização da situação problemática em questão, pela identificação e geração de diferentes tipos de elementos primários de avaliação e pelo estabelecimento das relações estruturais entre eles, pela diferenciação das suas funções no processo de avaliação e por uma descrição tão complexa e rigorosa deste todo [BANA E COSTA, 2002]. Esta atividade de apoio à estruturação pode constituir [MARREIROS, 2008]:
• Em si mesma, na justificação para a encomenda de um estudo, com vista à compreensão de um ambiente complexo de decisão;
• e/ou, um processo de apoio à interação entre atores, pelo estabelecimento de uma estrutura e uma linguagem de comunicação comuns;
• e/ou, um guia para a construção de novas oportunidades de ação, vistas como meios para satisfazer os pontos de vista dos atores, pontos de vista que vão muitas vezes se revelando e se tornando claros no decorrer do processo de estruturação;
• e/ou, uma base de suporte para a avaliação e a comparação de ações preexistentes, ou criadas durante o processo para dissolver conflitos entre ações preexistentes (cada uma destas capaz de satisfazer somente uma parte dos pontos de vista dos atores).
Assim, a estruturação pode, dependendo do problema em questão, simplesmente esclarecer o problema aos atores, interferindo apenas à montante do processo de decisão ou ir mais além e fornecer aos intervenientes um modelo de avaliação e comparação de ações potenciais. De qualquer forma, a estruturação proposta deve ser aceita entre os atores como um modelo que representa os elementos primários da avaliação e lhes sirva de apoio à discussão.
No presente trabalho, a estruturação do problema foi realizada através da estratégia de divisão e conquista. Antes da avaliação das soluções, efetuou‐se um levantamento de
suas principais características (features) e, através das técnicas de classificação taxonômica, tais características foram agrupadas, de forma a simplificar as atividades de levantamento de funcionalidades nos aplicativos, bem como a posterior busca das funcionalidades desejáveis pelos usuários. 4.1.5 Construção de Ações
Segundo Bernard Roy [ROY, 2005], uma ação é a representação de uma eventual contribuição para a decisão global, susceptível, face ao estado de avanço do processo de decisão, de ser tomada de forma autônoma e de servir de ponto de aplicação à atividade de apoio à decisão.
Sob a designação de construção de ações, engloba‐se todas as atividades que a literatura designa por criação, invenção, desenvolvimento, geração, especificação ou identificação de oportunidades de ação e que constituem muitas vezes a motivação fundamental para a solicitação de um estudo de apoio à decisão [BANA E COSTA, 2002].
Assim, as atividades que envolvem tanto a identificação quanto à intervenção de oportunidades de ações recebem a denominação de construção de ações. É importante ressaltar a importância destas atividades, pois muitas vezes ignora‐se a oportunidade de gerar alternativas, centrando a atividade de apoio à decisão na escolha da melhor alternativa dentre aquelas previamente apresentadas. Fica baseada nos valores dos decisores, onde a construção de ações é parte do processo de apoio à decisão.
É necessário citar, a esta altura, o trabalho de Ralph Keeney [KEENEY, 1992] em seu livro “Value Focused Thinking”, ao propor uma metodologia centrada sobre os valores. Para o autor, quando se enfrenta uma situação de decisão, ao se pensar com base nas alternativas, o campo de decisão fica limitado. A metodologia centrada nos valores apresenta‐se muito mais rica, ao permitir a construção de oportunidades de decisão.
Uma análise centrada nos valores não significa dizer que as ações tenham uma mínima importância no processo de apoio à decisão, onde têm exclusivamente a função de ponto de aplicação do modelo. Ao contrário, auxiliam na identificação dos objetivos dos atores e revelação dos valores dos mesmos, desde o início do processo, através das suas características.
As características são as diversas propriedades, predicados, atributos, qualidades e respectivos indicadores, inenentes, atribuídos ou desejados para as ações potenciais. Podem ser consideradas ativas, quando susceptíveis de intervir na formação de juízos de valor dos intervenientes, ou passivas, nos casos contrários. Dada a subjetividade do processo, uma mesma característica pode ser considerada ativa segundo o sistema de valores de uns e passiva para outros [MARREIROS, 2008].
Ao desenvolver este trabalho, a construção de ações baseou‐se na identificação das ações potenciais julgadas realistas. Não houve propriamente uma criação de ações. O decisor apresenta algumas restrições que auxiliam a identificação das ações com as quais se vai trabalhar. A limitação se dá tanto pela necessidade de pesquisa de campo para caracterizar as várias ações quanto pela pretensão em tornar todo o processo compreensível aos olhos do decisor. Procura‐se avaliar ações que, por não serem comuns, à primeira vista não seriam incluídas numa avaliação. Mas, para este trabalho, incluído numa abordagem centrada nos valores dos decisores, as ações incomuns são consideradas oportunidades de ação.
O grande diferencial da técnica de avaliação apresentada neste trabalho é a possibilidade de, através de uma simples atribuição de pesos a cada uma das funcionalidades apresentadas pelas soluções avaliadas, estabelecer‐se a ordem de prioridades específica para cada necessidade particular do usuário.