O acesso ao exercício da política no Espírito Santo era limitado às pessoas que possuíam estreitas ligações familiares e de compadrio com as oligarquias locais, cuja riqueza baseava-se geralmente na exploração do latifúndio na produção e comércio cafeeiro. As oligarquias espírito-santenses promoviam a montagem e a manutenção de uma fechada rede de troca de favores políticos para defenderem seus interesses políticos. Estavam alijados do jogo político os representantes dos interesses dos pequenos proprietários de terra, das camadas médias urbanas e dos poucos operários existentes no estado nesse período.
153 WANICK, Flavio Calmon. Presidente Aristeu Borges de Aguiar, de positiva unanimidade a expectativas
frustradas: a política e a economia capixabas durante os anos 1928 a 1930. Dissertação (Mestrado em História Social das Relações Políticas). - Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, 2007, p. 41.
Durante grande parte da República Velha uma única oligarquia familiar dominou a política local. A família Monteiro que, apesar das divergências entre os irmãos Bernardino e Jerônimo Monteiro, teve forte influência sobre a máquina eleitoral durante toda a década de 1920. De 1908 a 1930 os candidatos indicados para ocupar a presidência estadual eram escolhidos ou dependiam do beneplácito dos Monteiro, pelo menos de um deles. O Partido Republicano Espírito-Santense dominou a cena política no Espírito Santo até 1930, porém com a existência de facções no seu interior.
As eleições eram feitas a “bico de pena” e o resultado decidido pelas elites políticas locais detentoras do poder. Sobre isso Carlos Monteiro Lindenberg em seu depoimento afirma que: “Não havia abstenção. Não havia nada. Faziam o resultado como queriam. Não havia protesto porque a mesa era toda do governo. [...] a própria mesa apurava.”154
De modo geral, as escolhas eleitorais eram fraudadas em proveito do situacionismo político, por meio do “voto de cabresto” utilizado pelos coronéis que manipulavam os votos dos eleitores de seu “curral eleitoral”. Dessa forma, os resultados das eleições geralmente já eram sabidos bem antes da eleição, as escolhas políticas e eleitorais ocorriam no âmbito do partido e competia ao eleitorado, direcionado pelos coronéis, a confirmação da chapa dos candidatos. Elucidativo neste sentido é o depoimento de Carlos Monteiro Lindenberg onde relata como se dava o controle dos eleitores pelos coronéis no Espírito Santo:
Quando eu tinha uns sete anos para oito anos o meu tio alistava os eleitores da fazenda. Eles eram analfabetos. Para registrar como eleitores tinham que dar uma procuração para meu tio. Então nós, os meninos, eu, Benvindo de Novaes, Moacir, fazíamos o Constituo: “constituo meu bastante procurador o coronel Antonio de Souza Monteiro para efeito de me alistar em Itapemirim”. E a gente assinava o nome do sujeito.155
Jerônimo de Souza Monteiro foi presidente do estado de 1908 a 1912 escolhendo para seu sucessor o Coronel Marcondes Alves de Souza que governou de 1912 a 1916. Em 1916 Bernardino Monteiro assume o governo estadual e a direção do Partido Republicano Espírito Santense, que controlou o processo sucessório da administração estadual até 1930, ditando os rumos no processo de alternância dos nomes no poder. A partir de 1920 ocorre uma dissensão política e acirrada disputa entre as forças aliadas aos irmãos Monteiro que em alguns
154
LINDENBERG. Carlos. De viva voz: depoimento de Carlos Lindenberg. Vitória: IHGES; AESL; Cultural- ES, 1989, p. 28-29.
momentos fizeram uso até da força física na disputa pelo controle do Aparelho Regional do Estado. Após a dissensão com Bernardino, Jerônimo Monteiro perdeu prestígio e poder de decisão dentro do Partido Republicano estadual, ficando alijado do nível decisório deste.
O pomo da discórdia, que separou a família Monteiro em duas correntes políticas, foi a sucessão de Bernardino Monteiro, em 1920, que tinha como candidato para suceder-lhe Henrique Novaes, seu sobrinho, depois substituído por Nestor Gomes, do que discordava Jerônimo Monteiro, desejando para si o cargo, ou para nele colocar Abner Mourão, possuidor de projeção fora do estado por militar na imprensa paulistana. 156
Na sucessão de Nestor Gomes, as facções jeronimistas e bernardistas selaram uma espécie de trégua política, solucionada com a eleição de Florentino Avidos, cunhado dos irmãos Monteiro, para a presidência do estado. Na eleição seguinte, em 1928, assume como presidente do estado, com indicação de Florentino Avidos, Aristeu Borges de Aguiar, ligado a famílias tradicionais do município da Serra, o que o diferenciava dos governantes estaduais anteriores, todos eles com fortes vínculos familiares e políticos no sul espírito-santense.
Titular da secretaria do governo na gestão de Florentino Avidos, Aristeu de Aguiar foi indicado para sua sucessão em 1928 pela corrente política de Bernardino Monteiro. Sua escolha para o cargo manteve a suspensão das hostilidades, não sendo vetada pelos jeronimistas, mesmo pendendo politicamente para o lado dos bernardinos.
Aristeu de Aguiar compôs seu gabinete com sua parentela doméstica, causando antipatia ao seu governo, pois mesmo naquela época onde era habitual o revezamento de poucas famílias no poder, tal comportamento foi considerado acintoso. Como bem coloca Luiz Serafim Derenzi “foi o primeiro erro cometido pelo governo, porque atingiu a malícia das massas populares. E o povo, que parece surdo e cego, desperta, às vezes, ao ruído mais sutil, vendo coisas que só a fantasia pode representar.”157
Aristeu assume a presidência estadual num período de prosperidade, numa conjuntura em que o estado e principalmente a capital estavam se abrindo para os novos valores da modernidade, dentro de um quadro extremamente favorável tanto no campo político, quanto econômico,
156 ACHIAMÉ, 2005, p. 89-90.
social e cultural, o recém eleito presidente não imaginava a quantidade de adversidades que tão logo teriam que enfrentar.