4. Legitimacy and public reason: The idea of the original contract revisited
4.1 Legitimacy and public reason in political liberalism
O desenvolvimento do conhecimento e da ciência é um deus em constante disputa com as ideologias mitológicas criacionistas. Courbet criou em 1886 uma pequena pintura realista das partes genitais do corpo de uma mulher e o proclamou “A Origem do Mundo”. A imagem pintada em estilo realista professa o segredo do dar à luz, à vida, tal qual o sabemos sensorial e intelectualmente. Esse trabalho polêmico foi mostrado publicamente pela primeira vez apenas em 1995.37
Figura 12
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Fonte: Courbet, A Origem do Mundo, óleo sobre tela, 1886, 46 x 55, Musée d’Orsay, Paris.
A Origem do Mundo mostra a vulva feminina da maneira mais crua
possível. Vê-se um torso de mulher, os seios, o ventre, as pernas afastadas, a frondosa cobertura pubiana e a vagina entreaberta. Essa imagem, representa uma perspectiva masculina da mulher como sexo, e a função reprodutiva da fêmea através do olhar masculino. A imagem não representa uma pessoa, com voz, personalidade ou subjetividade. É a perspectiva de coisa e objeto do feminino pelo masculino. A imagem provoca um estranhamento que vai além de convenções morais ou contexto histórico. O quadro enigmaticamente invoca o significante fálico. É possível imaginar que a visão de Gustav Courbet da modelo reclinada é a visão do masculino antes, durante ou depois da penetração fálica. Imagino que pode existir distintas reações e sensações de acordo com o gênero do observador.
Courbet desafia a mitologia patriarcal e religiosa da origem do mundo pela magia do deus masculino, mas a imagem não deixa de ser reducionista, diminutiva e representa uma fragmentação do corpo da mulher, sem face ou identidade. A representação realista do nu feminino de Courbet desafia o clássico corpo idealizado da mulher nas artes, onde geralmente é representado em estágios pueris de desenvolvimento, sem os pelos pubianos, idealizado e cautelosamente composto em ordem de ser aceito para os olhos da sociedade. Diferentemente, a imagem sugere a genitália amadurecida, potencialmente fértil, reprodutiva, real. Nessa instância o quadro também serviu e foi considerado
como uma imagem pornográfica. A imagem pornográfica é desejada pelo homem para que este sinta algo de desejo, de posse, de sensações que têm a ver com o homem diante do objeto feminino. Para muitos a imagem da vulva provoca aversão e estranhamento.
Por que a imagem da vagina provoca estranhamento? A pintura acima havia sido encomendada por Khalil Bey em 1866. Khalil era um diplomata do império turco que apreciava decorar sua casa com arte erótica, mas, ao se deparar com o extremo “realismo” da pintura de Courbet, optou por pendurá-la no banheiro, onde era velada por uma cortina verde. O quadro chegou a ser velado mesmo por Jacques Lacan, seu último dono, adquirido em 1954, a estimulo de Bataille, que o descortinava apenas a visitantes seletos. A colocação da cortina nada tinha a ver com pudor por parte do dono, mas com um jogo de sedução daquele que vela para atrair, tal como a mulher que reveste sua genitália com um lingerie atraente e despe vagarosamente “este último véu que recobre a falta” para instigar o parceiro (SAVATIER, 2009).
O véu, mais do que cumprir a função de esconder o que se tem, vela o que não se tem. Para Lacan, ambas as funções são essenciais, já que esconder a falta de objeto participa da dialética imaginária que envolve o falo.
O falo deve sempre participar do que o esconde. Vemos aí a importância essencial daquilo a que se chama o véu. Mesmo quando o objeto real está ali, é preciso que se possa pensar que ele possa não estar, e que seja sempre possível pensar-se que ele está ali, precisamente onde não está. (LACAN, 1994, p. 198).
Essa análise me remete ao jogo de esconde-esconde onde a criança reage com grande excitação à brincadeira da presença e ausência (no colo da mãe).
Uma leitura psicanalítica situa o estranhamento para além de convenções morais e/ou contexto histórico. Para Mariana R.F. Ferreira a chave para o enigma do quadro é o significante fálico; o estranhamento causado no espectador, mais do que advir da confrontação com a representação da castração (aquilo que lançou o ser vivente na dimensão simbólica) é o de quem se depara com o que escapa a ela, o “Real” irrepresentável. O contato com o “Real” causa angústia, no entanto, abre a possibilidade do sujeito, a partir do confronto com o vazio que resiste em sua constituição – vazio inapreensível – contorná-lo através da sublimação, elevando o objeto à dignidade da Coisa. (FERREIRA, 2013). Para
Lacan o falo está dentro do quadro... existe na medida em que é ausente. 38 Essa que é uma interpretação psicanalítica de Lacan, coloca o falo masculino dentro do quadro, repetidamente, dentro da imagem da vulva feminina da modelo, adquirido como mercadoria, a imagem da genitália feminina que é o Outro, que é incompleta (ao olhar masculino) pela ausência (do falo), e destituída de direitos por ser animal, mas que é penetrada (pelo masculino) repetidamente, por cada olhar masculino que projeta seu falo (imaginário), sem a possibilidade de dar ou recusar consentimento.
Em contrapartida, em 1989, a artista feminista francesa ORLAN, conhecida por suas incursões na body arte e outras vertentes da vanguarda, criou sua versão do quadro de Courbet, na qual mostra um torso masculino com o pênis em ereção, em posição semelhante ao passivo reclinado do nu feminino de Courbet. Significativamente, intitula-o de “A Origem da Guerra”. Como tudo que Orlan faz, o quadro e o título convidam à polêmica. Mais uma vez traz à tona a questão do que deve ser exposto e do que deve ser ocultado. Ao atribuir às mulheres o poder criativo e delegar aos homens a carga da ‘destrutividade’, para tanto invertendo o significado convencional do falo enquanto símbolo de potência viril e fertilidade, ORLAN toma uma posição política de denúncia contra a violência machista ainda vigente mesmo nas sociedades mais evoluídas. A VIOLÊNCIA TEM GÊNERO.
Figura 13
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Fonte: ORLAN, A Origem da Guerra, 1989, fotografia, 102 cm x 89 cm.39
Para Mariana R.F. Ferreira a obra de ORLAN tenta reduzir a metáfora criativa de Courbet mas acaba reafirmando-a. Contudo, me perdi nos argumentos de Ferreira quando ela anula os efeitos da crítica feminista do quadro e parte para uma discussão sobre Édipo, amor e sexo. O pênis, mesmo ereto, não é o falo, mas é o seu representante imaginário próximo na construção de uma sociedade sexuada e desigual. As teorias de construção de gênero opõem a reduzir a feminilidade ou a masculinidade a seus aspectos anatômicos, mas ainda existe uma forte correlação do sexo com o gênero com as posições de efeito de sentido tributárias do Édipo e também da exclusão da fêmea humana dos direitos humanitários.