3. Kant’s conception of right: Moral and political
3.2 Kant’s conception of right: A reconstruction
Em o Segundo Sexo, Simone de Beauvoir argumenta que o homem criou para si a grande vantagem de idealizar um Ser Supremo masculino que apoia seu código de autoridade soberana sobre a mulher. O homem desfruta da grande vantagem de ter um deus endossando o código que ele escreve e, uma vez que o homem exerce uma autoridade soberana sobre as mulheres, é especialmente afortunado que essa autoridade tenha sido investida nele pelo Ser Supremo. Para os judeus, maometanos e cristãos, entre outros, o homem é mestre pelo direito divino; o temor de Deus, portanto, reprimirá qualquer impulso de revolta na mulher oprimida.35
As mulheres poderiam ter uma perspectiva divergente sobre a teoria da criação do homem. Experiente e ciente dos atos de concepção e nascimento, as mulheres passam a expressar a visão do Ser Supremo como fêmea e não macho, já que deus criou o homem à sua imagem e semelhança, ou o homem criou deus à sua imagem e semelhança. Monica Sjoo em sua obra God Giving Birth (Deus Dando a Luz) inspira-se na experiência de parto que teve com o segundo filho, nascido d e parto normal domiciliar. (ARTCORNWALL, 2017).
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Man enjoys the great advantage of having a god endorse the code he writes; and since man exercises a sovereign authority over women it is especially fortunate that this authority has been vested in him by the Supreme Being. For the Jews, Mohammedans and Christians among others, man is master by divine right; the fear of God will therefore repress any impulse towards revolt in the downtrodden female. Simone de Beauvoir, 1949.
Figura 11
Fonte: Monica Sjoo, God Giving Birth, 1968, óleo sobre tela, 180 cm x 120 cm.
God Giving Birth (Deus Dando a Luz) foi criado em 1968, e mostrado
pela primeira vez em 1970 em St. Ives, onde por ordem do prefeito teve que ser retirado por ter sido considerado uma blasfêmia. A alta figura de pé sustenta-se com suas pernas formando um portal por onde a cabeça da criança aparece coroando a vagina da figura, num mergulho ao mundo que o espera. Essa tomada de Monica Sjoo do deus ou deusa criadora revela e desafia questões de gênero de uma mitologia tradicionalista de um Ser Supremo masculino e caucasiano como criador do universo. A cabeça da figura é indiferenciada quanto ao gênero e raça, e as características femininas podem ser assumidas apenas pelos seios abastados e pela presença da vagina dilatada no ato do nascimento de outra figura. A cabeça parcialmente fora da tela toca o cosmos, ilustrando as galáxias e sendo a face apenas parcialmente iluminada enquanto os pés, também fora da tela, estão assumidamente plantados na terra. Sob o arco formado entre suas pernas flexionadas lê-se o título da obra em letras capitais, maiúsculas e em vermelho: GOD GIVING BIRTH.
A pintura de Monica Sjoo retratando sua leitura sobre God/Deus como uma fêmea dando à luz uma criança afronta o que ela chama de “mitologia absurda” de que a força criativa seja masculina e fálica. Considerado um escândalo público, obsceno e blasfemo, cada vez que a artista exibiu o trabalho figurativo ela teve que removê-lo do espaço devido a ameaças. Na exibição em Londres, na Swiss Cottage Library, chamaram a polícia, o ministério público e a
equipe do esquadrão contra a pornografia para investigar se a artista poderia ser processada por ofensa. Chamar o esquadrão da pornografia devido às pinturas figurativas dando à luz pode parecer uma tática contra o empoderamento feminino na arte. A arte de Sjoo e das mulheres que expunham com ela no show da Swiss Cottage library (biblioteca) era polêmica e política por confrontar não apenas os valores estéticos da arte clássica, mas acima de tudo pelo confronto dos valores políticos de hegemonia masculina sobre a criação, como expressa nas imagens religiosas patriarcais.
Monica Sjoo quis criar uma pintura que expressasse a crença religiosa emergente na Grande Mãe como Matriz da criação cósmica:
[...] queria criar uma pintura que expressasse minha crença religiosa emergente na Grande Mãe como Matriz da criação cósmica. Em todos as patriarquias, as mulheres foram de-sacralizadas e diminuídas, e a medicina e a religião foram tomadas por homens que invejam as forças sexuais criadoras das mulheres. (SJOO, 2017, tradução nossa) 36
Sjoo faleceu em 2005. Sobre a mesma obra, o historiador Michel Archer também afirmaria:
Relacionadas com este tipo de trabalho houve diversas tentativas de investigar e estabelecer um legado espiritual alternativo que pudesse falar às necessidades e desejos das mulheres e não dos homens. Haveria, quem sabe, alguma forma de sistema social matriarcal que fosse velada por deusas, e não por deuses, podendo ser vista como anterior à atual dominação patriarcal das coisas? Deus dando à luz (1968) de Monica Sjoo (1942-) é um exemplo direto e precoce disto. (ARCHER, p.117-54, 2001)
O masculino foi posicionado intencionalmente como superior ao feminino e na concepção de uma mitologia religiosa patriarcal os poderes de procriação e geração de vida das fêmeas foram usurpados; a origem do homem e da mulher foi atribuído a entidades fálicas (um deus masculino cria o primeiro homem do barro e cria a primeira mulher da costela do homem). Ideais mitológicos de supremacia da masculinidade foram conspicuamente criados e têm sido aceitos por mais de 2000 anos no mundo ocidental, afetando as estruturas sociais humanas com terríveis consequências de opressão, abuso e supressão sexistas e racistas, em detrimento da evolução de uma civilização mais igualitária e pacífica.
Como veio a ser que um coletivo masculino conseguiu inverter a ordem de criação e se colocar como progenitor do feminino? A óbvia constatação de que as
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fêmeas geram e dão à luz aos homens parece irrelevante nas mitologias da criação e são definitivamente negadas, passando a ser atributos dos homens.
“A fêmea é fêmea em virtude de certa carência de qualidades”, diz Aristóteles. “Devemos considerar o caráter das mulheres como sofrendo de certa deficiência natural”. E Sto. Tomás, depois dele, decreta que a mulher é um homem incompleto, um ser "ocasional". É o que simboliza a história do Gênese em que Eva aparece como extraída, segundo Bossuet, de um "osso supranumerário" de Adão. A humanidade é masculina e o homem define a mulher não em si, mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autônomo. "A mulher, o ser relativo...", diz Michelet. E é por isso que Benda afirma em Rapport d'Uriel: "O corpo do homem tem um sentido em si, abstração feita do da mulher, ao passo que este parece destituído de significação se não se evoca o macho [...] O homem é pensável sem a mulher. Ela não, sem o homem". Ela não é senão o que o homem decide que seja; daí dizer- se o "sexo" para dizer que ela se apresenta diante do macho como um ser sexuado: para ele, a fêmea é sexo, logo ela o é absolutamente. A mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem e não este em relação a ela; a fêmea é o inessencial perante o essencial. O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro. (BEAUVOIR, 1970, pp. 7- 23)