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Outra divisão criada para esta pesquisa a partir dos vínculos e redes sociais refere-se aos laços de amizades que pudessem, de alguma forma, contribuírem para as posições profissionais ou políticas dos engenheiros analisados. Uma das formas que estes laços de amizade se expressam é pelo compadrio ou apadrinhamento. Consta, por exemplo, que o já citado João Leivas de Carvalho era amigo de Julio de Castilhos. Castilhos e Parobé teriam sido seus padrinhos de casamento.

Se isto não revela laços de amizade, revela laços no mínimo de proximidade. No casamento do Engenheiro Ildefonso da Silva Dias, os padrinhos da noiva, foram o Dr. Poggi de Figueiredo e o Dr. Ildefonso Fontoura; por parte do noivo, o Dr. João Vespúcio de Abreu e Silva e o Dr. Gaspar Nunes Ribeiro. Ou seja, além de nomes como Figueiredo e Ribeiro, constava entre os padrinhos dois engenheiros: Vespúcio de Abreu e Silva, já abordado no capítulo dois, foi uma liderança política do estado e um dos fundadores da EEPA. Ildefonso Borges Toledo da Fontoura, era Coronel da Guarda Nacional, havia chefiado a Secretaria de Obras Públicas do RS em 1898 e entre 1904-1906. Também foi chefe do Serviço de Repressão ao Contrabando do RS em 1899, Coronel Comandante da 26ª Brigada de Infantaria do RS em 1901, chefe do Plano Geral da Viação do RS em 1907, inspetor de 1ª Classe do Telégrafo Nacional em 1908, engenheiro chefe do telégrafo de 1909 a 1913, e inspetor federal das estradas a partir de 1913.146

Conforme abordado na página 122 desta dissertação, a rede de Ildefonso da Silva Dias era mais extensa, já que foi cunhado do Cel. Aurélio Verissimo Bitencourt, Secretário da Presidência do estado, além de seu pai, o funcionário público Thomas da Silva Dias, ser ligado ao PRR. Ildefonso da Silva Dias atuou por muitos anos como Engenheiro de Fiscalização no Ministério da Viação, até que em 1920 Borges de Medeiros solicitou seu nome junto ao Ministro da Pasta para nomeá-lo como Engenheiro e Auxiliar Técnico na Viação Férrea do RS, tornando-se, poucos anos depois, Engenheiro Chefe.

No caso do Engenheiro Carlos Alberto de Barros e Silva isto também fica evidente:

146 V. FÉRREA DO RIO GRANDE DO SUL: ILDEFONSO FONTOURA. Disponível em

Manuel André da Rocha foi padrinho da noiva, enquanto que por parte do noivo as testemunhas foram os engenheiros João Simplício Alves de Carvalho e Cândido José Godoy. Este último havia sido Secretário das Obras Públicas do RS entre 1908-1913 e Secretário da Fazenda entre 1909-1913. Barros e Silva foi um dos diplomados que seguiu, primordialmente, carreira militar. Entre as informações encontradas a seu respeito consta que em 1925 foi promovido a Major e que teria sido Chefe do serviço de repressão ao contrabando, no entanto, não se localizaram mais detalhes a respeito desta informação.

Pode-se ainda citar o caso de Emilio Lúcio Esteves, Engenheiro Civil diplomado em 1914. Outro diplomado que desenvolveu importante patente militar, Esteves foi colega de turma de Getúlio Vargas e o acompanhou de Ponta Grossa ao Rio de Janeiro durante a Revolução de 1930. Além de reformar-se como General, foi professor na Escola de Engenharia e membro do Conselho Escolar.

Também era comum que entre outras atividades profissionais, diplomados fossem sócios de escritórios particulares. Era o caso da firma Goetze e Hervé, parceria profissional de Afonso Goetze Junior e Egydio Hervé, ou da W.S Companhia, sociedade de Waldemar de Carvalho e Silva e Pedro Drüg. Laços de amizade ou proximidade também podem ser vistos no caso de Manoel Itaqui que teria sido convidado por Rudolpho Ahrons, importante engenheiro da capital e professor paraninfo de sua turma, para colaborar em projetos arquitetônicos (WEIMER, 2004).

No jornal A Federação, este tipo de laço pode ser percebido através de artigos que tratavam da vida social. Em 1927, por exemplo, uma nota fala sobre um jantar que se realizaria no Clube do Comércio de Porto Alegre em homenagem às esposas de Borges de Medeiros e Getúlio Vargas. Nessa noite, Olga Siqueira Pereira, esposa do Engenheiro da Viação Férrea do RS, Francisco Moreira Pereira, cantaria uma ópera em homenagem às referidas damas.147 A participação dos indivíduos estudados era constante em jantares e

banquetes oferecidos à pessoas ilustres da época.

O caso mais exemplar em relação aos vínculos de amizade foi certamente o de Yedo Fiuza148:

Yedo Fiuza: Nasceu em 15/09/1894, em Porto Alegre/RS, sendo filho de Adolfo Fiúza e Maria Luísa Daudt Fiuza. Casou-se com Maria Teresa Sampaio, filha de Ângelo Mendes de Almeida Sampaio, militar. Diplomou-se em 1916 como Engenheiro Civil. Após a

147 VÁRIAS. A Federação, Porto Alegre, nº 297, 26 de dezembro de 1927, p.4. 148 Ver também: Oliveira, 2012.

formatura, Fiúza trabalhou como Engenheiro de Segunda Classe no Ministério da Viação e Obras Públicas, e como Engenheiro na Companhia Construtora de Santos, no Mato Grosso, uma empresa fundada por Roberto Simonsen. Neste período participou da construção dos quartéis de Campo Grande, Ponta Porã e Bela Vista. Possuía ligações com a região, pois seu pai era natural do Mato Grosso. Teria atuado como engenheiro em várias outras empresas particulares, construindo obras no interior do país, mas estabeleceu- se no Rio de Janeiro em 1924. Até 1930 atuou como Engenheiro na Dwhight P. Robinson, trabalhou na construção da Cidade Light. Após a Revolução de 1930 seria nomeado Interventor do município de Petrópolis, sendo Prefeito eleito em 1935. Atuou no cargo até 1937. Foi Diretor da Diretoria Geral do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), no Rio de Janeiro entre 1934 e 1945, acumulando os dois cargos. Candidatou-se a Presidência da República pelo PCB em 1945, apesar de não ser comunista. Conquistou cerca de 10% dos votos do eleitorado da época (570 mil votos). Atuou no Departamento Nacional de Estradas de Ferro, no Rio de Janeiro em 1945. Em 1947 foi candidato à Prefeitura de Petrópolis/RJ, pelo Partido Socialista Brasileiro, não se elegendo. Na década de 1950, quando Vargas voltou à Presidência, Fiúza assumiu o Departamento de Águas, no qual foi encarregado de elaborar, em curto prazo, um plano de abastecimento do Distrito Federal. Após a morte de Vargas, Fiúza foi colocado à disposição do cargo e não voltou a ser convocado para nenhuma atividade.

O caso de Fiúza é particularmente conveniente porque foi um dos poucos indivíduos para os quais se localizou projeção nacional, e porque indica o quanto esta projeção esteve ligada à figura de Vargas, seu amigo pessoal. Os primeiros contatos entre ambos teriam ocorrido já em Porto Alegre, mas teria sido sua nomeação como Interventor de Petrópolis, que firmaria os laços de amizade, já que o então Presidente da República costumava passar longas temporadas na cidade. Em recente biografia sobre Vargas, o autor José Carlos Mello sugere laços estreitos de amizade entre eles, ao passo que seria Fiúza o responsável em promover os encontros do Presidente com suas possíveis amantes: “Fiúza sabia onde estavam os melhores endereços para trazer calma ao presidente, conhecia as mais discretas garçonnières da cidade”. (Apud CARDOSO, 2012). 149 Conforme ele, as saídas de Vargas e

Fiúza aconteciam à noite ou mesmo no meio da tarde, quando o pretexto mais frequente seria a inspeção a obras rodoviárias.