Mas foi só com o advento da luz elétrica e dos outros sistemas [...] de iluminação e com o consecutivo prolongamento da vida noturna, que a luz tornou-se um elemento autônomo, quase uma dimensão acrescentada às demais. E não apenas o edifício em si, mas todo o organismo urbano [...] acabou adquirindo uma constante estruturação dupla: a diurna e a noturna.
(Gillo Dorfles, O Devir das Artes).
Durante a noite, ruas e praças enchiam-se de gente para passeios, apreciação das retretas realizadas pelas bandas de música dos corpos oficiais ou simplesmente para mostrarem-se boas maneiras e ricas «toilletes», num vai e vem de personagens encenando seus papéis. Mas os espaços para as diversões noturnas com as quais contava a sociedade fortalezense não se resumiam a suas ruas calçadas e praças aformoseadas; após os lampiões acenderem-se, ou, quando em noites de lua cheia, ela mesma se encarregar da iluminação da cidade, bailes, clubes de divertimento, cafés, espetáculos de vista, cinematógrafos, circo e teatros, entre outros, davam conta dos lazeres da cidade.
Os lampiões foram, inclusive, importantes ferramentas para essa dinâmica de sociabilidades que se tecia ao cair da noite. O primeiro sistema de iluminação pública da cidade iniciou suas atividades em 1848: 44 lampiões alimentados a azeite de peixe (“depositado numa caixinha e com uma torcida de algodão”) eram “conservados limpos e brilhantes das 6 horas da tarde e até que amanhecesse, ou até que... saísse a lua”. Esses aparelhos possuíam quatro faces, mais estreitas em baixo do que em cima, fundo e tampa de metal e localizavam-se suspensos nas esquinas para que projetassem luz pelas duas ruas que se cruzavam.272
Esse sistema foi substituído por combustores a gás carbônico na segunda metade do século XIX, quando a nova iluminação para capital foi contratada, em 16 de janeiro de 1864, a Joaquim da Cunha Freire e Thomaz Rich Brand. Com autorização da Presidência da Província, a concessão de exploração do serviço, por 59 anos, foi transferida no ano seguinte
à companhia inglesa The Ceará Gás Company Limited, que mantinha sede em Londres.273 Entretanto, apenas em 31 de julho 1867 o novo sistema foi inaugurado;274 os combustores (ilustração 10), em número de 604, eram acesos, “nos dias de noites escuras”, meia hora depois que o sol se punha e assim permaneciam até as cinco horas da manhã; já “nas noites de luar”, acendiam-se à mesma hora, mas apagavam-se “meia hora depois de nascer a lua”,275 visando à economia de gastos.
Ilustração 10: Rua Formosa. Álbum de Vistas do Estado do Ceará, 1908. Na foto, é possível ver a colocação dos combustores de forma alternada em cada lado da rua. Ao fundo, um bonde de tração animal, outro elemento concorrente para as sociabilidades noturnas da cidade no período, conforme será exposto mais adiante neste capítulo.
Apenas a partir de 1913, fora então do recorte temporal aqui estabelecido, o serviço de iluminação pública e privada a gás carbônico foi progressivamente substituído pela eletricidade,276 elemento já desde muito afestoado pelos atores em questão, que registraram, já durante o período, através dos periódicos, sua empolgação com essa novidade tecnológica que, para eles, caracterizava o século XX, «seculo da electricidade»:
a electricidade causa-nos, dia a dia, surpresas verdadeiramente inacreditáveis em todos os ramos da indústria, da agricultura e da medicina. [...] [Na Rússia, acabam] de experimentar um novo systema de caminho de ferro electrico, de suspensão, imaginado por engenheiros russos, e todas as experiências foram bem sucedidas. Essa via ferrea electrica realiza [...] um
273 STUDART, 2001, op. cit., p. 196.
274 JUNIOR, Antonio Joaquim Rodrigues. Relatorio apresentado ao Ex.mo2º Vice-Presidente da Província do Ceará, Dr. Gonçalo Baptista Vieira. Fortaleza: Typographia Brasileira, 1868, p. 17.
275 ALVIM, João de Souza Mello e. Relatorio com que o Ex.mo Senhor Tenente-Coronel de Engenheiros, Presidente da Província do Ceará, Passou a Administração da Mesma ao Excelentissimo Senhor 1.º Vice- Presidente, Dr. Sebastião Gonçalves da Silva. Fortaleza: Typographia Brasileira, 1867, p. 30.
276 COSTA, Maria Clélia Lustosa. Expansão da Infra-estrutura Urbana e dos Serviços Públicos em Fortaleza na Virada do Século XIX. In: Anais do X Encontro de Geógrafos da America Latina. Por uma Geografia Latino- americana: do labirinto da solidão ao espaço da solidariedade, São Paulo, 2005, p. 3770.
duplo e repentino progresso sobre os caminhos de ferro actuaes. [...] O novo systema permite obter francamente a incrível velocidade de 200 verstas por hora, o que equivale a 51 leguas francesas [aproximadamente 224,4 km/h]. [...] É a ultima palavra do progresso.277
Outros sistemas de iluminação estavam em uso e discussão à época, como o gás acetylene, utilizado aqui na iluminação de algumas residências e fachadas comerciais. No ano de 1900, os fortalezenses podiam importar, diretamente de Paris, o “MANUAL de informações praticas e tarifas de aparelhos de produção” do gás, para uso doméstico e industrial, enviado gratuitamente e com porte pago pelo construtor Deroy Flls Ainé, com sede na “rue du Thêatre, PARIS”.278 Já no ano seguinte, comerciavam-se aqui aparelhos de fabricação cearense, como os expostos pela Casa Vilar no Passeio Publico, onde realizou pelo menos uma experiência “em dous aparelhos portáteis”.279
Também a utilização do álcool como fonte de iluminação chegou ao conhecimento dos fortalezenses do início do século. O Unitario publicou, no ano de 1903, parte de uma conferência proferida em Recife a respeito das vantagens obtidas por tal sistema, dizendo que, em Pernambuco, além da iluminação pública de nove cidades, achavam-se iluminadas as redações dos principais jornais, a Pensão Derby (que substituíra a luz elétrica pelo álcool), diversas estações das vias férreas, muitas usinas de açúcar e centenas de casas particulares. Informava-se ainda que, nas descrições feitas pelos jornais das festas públicas e particulares havidas no Recife, lia-se sempre que “«o edifício ou a rua achava-se profusamente illuminado a álcool [...]»”.280
A despeito da empolgação do maior produtor de açúcar à época, o estado de Pernambuco, o uso do álcool na iluminação não parece ter interessado aos fortalezenses, não tendo sido encontrado qualquer registro da experiência aqui, sendo o uso do gás carbônico o mais difundido entre os espaços públicos e privados da capital. Esse sistema era (muito embora a superioridade da eletricidade fosse bastante apregoada), inclusive, celebrado e apresentado como um «signal progresso», envolvendo-se com espaços e práticas de lazer citadinos, pois o mesmo permitia que as sociabilidades mundanas da cidade estendessem-se noite adentro, dando aos frequentadores dos referidos espaços “a ilusão do prolongamento do dia”.281
277 AS MARAVILHAS da electricidade. Unitario, Fortaleza, ano III, n. 226, 29 de abril de 1905. 278 GAZ ACETYLÈNE. A Republica, Fortaleza, ano IX.
279 A Republica, Fortaleza, ano X, n. 230, 10 de outubro de 1901.
280 BEZERRA, José. A Illuminação a Alcool em Pernambuco. Unitario, Fortaleza, ano I, n. 70, 05 de dezembro de 1903.
Na ocasião da inauguração das Avenidas 7 de Setembro, a Praça do Ferreira foi iluminada internamente por “28 lampeões da luz publica”, e, externamente, “em derredor das grades”, ergueram-se “20 combustores auxiliares”, que produziram “o desejado effeito”.282 Também problemas com o fornecimento apontavam para a relação entre a iluminação e as sociabilidades da população, desencadeando protestos por parte desta, como se pôde observar na já referida reclamação mandada publicar “pela própria” Praça Visconde de Pelotas endereçada ao Intendente, que dizia não ter a mesma “a illuminação indispensavel”283 para que as famílias a frequentassem.
Em outra nota, reclamou-se de uma das praças “preferidas” (segundo a queixosa Visconde de Pelotas em 1903) do Intendente Guilherme Rocha e mesmo do Presidente Accioly, frente à qual este residia:
uma gentil conterranea nossa, bem conhecida do sr. Intendente, lembrou se de pedir nos para reclamar de s.s. contra a iluminação das Avenidas á praça Marquez do Herval. Disse-nos que nos dias de reunião já quasi ninguem se atreve a ir ouvir um pouco de musica, por não querer metter-se a passeio numas avenidas que, em quasi toda sua extensão, se acham no escuro, devido ao estado de estrago em que estão os incandescentes, muitos dos quaes, se conservam apagados. Lembre-se o sr. Intendente que essas Avenidas tem o nome do seu chefe e amantíssimo patrão, e deixal-as nas trevas é mesmo dizer que o sóba anda preto nos seus negocios todos. Não esqueça a ciumeira do velho ás cousas do município. Olhe, olhe...284
Tal os jornais recifenses, os da capital cearense também publicavam, em ocasiões de festas públicas e particulares, que estiveram as ruas, praças ou residências «profusamente illuminadas». Na ocasião das comemorações pelo retorno do Coronel João Brígido dos Santos à cidade, após uma viagem ao Rio de Janeiro, estampou em suas páginas o Jornal do Ceará a informação de que a fachada do prédio da casa do redator-chefe do Unitário, “profusa e brilhantemente iluminada por serviço especial de accetylene, em fócos de luz formando florões, apresentou deslumbrantemente aspecto”.285
A Republica, reportando a festa com que o Presidente “dr. Pedro Borges e Madame Pedro Borges festejaram [...] o anniversario natalicio de sua dilecta filha mademoiselle Xandóca”, informou que “os vastos salões de Palacio” estavam “illuminados por inúmeros bicos auer” (gás carbônico), achando-se “repletos do que de mais fino e mais distincto”
282 AVENIDAS 7 DE SETEMBRO. A Republica, Fortaleza, ano XI, n. 202, 12 de setembro de 1902. 283 PRAÇA de Pelotas. Senhor Intendente. Unitario, Fortaleza, ano I, n. 37, 12 de agosto de 1903. 284 Jornal do Ceará, Fortaleza, ano IV, n. 701, 13 de dezembro de 1907.
possuía a sociedade cearense. “Na fachada, lia-se expressivo e originalíssimo dístico illuminado a carbono, em homenagem á gentil patrícia”.286
As citadas notas apontam também para um tipo específico de sociabilidade, diferente daquele realizado dos espaços públicos, mas que também se beneficiava da dimensão noturna de que gozava a cidade; além da convidativa rua, das sociabilidades tradicionais em torno da Igreja, das praças, festividades cívicas e dos esportes, propagou-se nas classes mais abastadas da sociedade fortalezense, já durante o século XIX e estendendo-se ao XX, o gosto pelas “reuniões íntimas”, mais das vezes saraus lítero-musicais, que ocorriam nas residências das «melhores familias», os quais, por vezes, estendiam-se a movimentadas «soirées», sempre buscando o universo dos salões europeus.
Esse universo estava impresso, inclusive, nos nomes dados a algumas dessas reuniões, visando a conferir-lhes ares de elegância e refinamento, como o caso das festas realizadas pelo Presidente Pedro Borges, a “Soirée-Rose”, festa de aniversário “da grácil Mlle. Xandoca Borges”, que transformou “em festa o coração da elite cearense”287 no ano de 1900, e a “Soirée Blanche”, festa da “senhorita Maria Augusta” em 1901, em que a “caprichosa e artistica ornamentação dos salões era a nota predominante em todo aquelle conjunto decorativo, do qual sobresahia, entre as demais, a côr symbolica que emprestava o nome ao saráo.288
Jeffrey Needell, a respeito da “sociedade de salão” brasileira, aponta que essa – durante a Monarquia e República Velha – tentava a todo custo demonstrar uma “vitalidade contínua do paradigma aristocrático franco-inglês. Fosse na poesia declamada, nas canções cantadas, na música tocada, no estilo pessoal valorizado, no francês usado, [...] ou nos dîners apreciados, mudavam as modas europeias, [...] mas não o gosto por tais coisas”.289
As crônicas jornalísticas fortalezenses registraram essa operação em suas mais diversas faces, inclusive de forma ácida, quando, a exemplo, criticava-se que, em Fortaleza, “a paixão carióca pelas coisas up to date” também nos havia entrado as portas, “petulante, ligeira, requintada”, havendo aqui
pessôas tão possuidas pelo smartismo, que preferem extravagar no trajar e nas maneiras, fallar o francez harmonioso de mr. de Laveur a trocar palavras em nossa lingua de gente, lingua que não pertence ao numero das fallas
286 SALÕES. A Republica, Fortaleza, ano XI, n. 275, 11 de dezembro de 1902. Gazetilha. 287 SOIRÉE-ROSE. A Republica, Fortaleza, ano IX, n. 283, 11 de dezembro de 1900. 288 SOIRÈE Blanche. A Republica, Fortaleza, ano X, n. 187, 21 de agosto de 1901. 289 NEEDELL, 1993, op. cit., p. 141-142.
arrevezadas de outras terras – pobre lingua a que falta graça derniére
petrolette.290
A crítica acima – e havia muitas – a partir do que se pôde perceber através das fontes, não traduz especificamente uma defesa de caráter patriótico a nossa língua. Era, antes, fruto de disputas locais de cunho político. O autor da mesma, ínsita em um jornal de oposição ao então governo, o Jornal do Ceará, utiliza como “mau” exemplo “mr. de Lavour”, na verdade o Dr. Aurélio Lavor, médico aliado ao partido da situação, o Partido Republicano, comandado por Nogueira Accioly, encarado pelas folhas oposicionistas como “maior inimigo do Ceará”. O referido médico acabou por virar troça pelos jornais de oposição devido a sua mania de conversar em francês nas rodas «chics» da cidade: “e o nosso homem julga-se sempre em Paris, no SEU Paris, no SEU extraordinario Paris”.291
Mesmo que se considere que o autor do texto escreveu a crítica visando a defender nossa “pobre língua” pátria, o próprio fato de tê-lo escrito, referindo-se não somente ao “mr. de Lavour”, mas a muitas outras pessoas que compartilhavam com o médico o mesmo “mau costume”, denota ter sido o hábito de “fallar o francez harmonioso”, nas rodas elitizadas fortalezenses, uma prática bastante frequente.
No ano de 1910, era o cronista Carlos Câmara, em ocasião da leitura, em uma folha carioca, de “uma interessantissima chronica a proposito do momentoso thema da desnacionalização”, quem reclamava que, para os cearenses também, “homens e mercadorias, só [tinham] valor, se [eram] importados, si nos [vinham] do estrangeiro”. Bradava contra os “nomes arrevezados” que se ouviam a cada passo na cidade, chegando a fazer “mal aos nervos!”:
– Fulano, que tal esteve a “soirée” de hontem? – Up to date!
Continuou seu texto exclamando que “nos cinemas, nos bondes, nas lojas, em toda parte, [fosse] ou não no ‘high-life’”, estavam todos a buscar os modos das sociedades
290 JACK. O ôlho da rua. Jornal do Ceará, Fortaleza, ano V, n. 804, 23 de abril de 1908. “O ôlho da rua” era uma seção diária que – o depois conhecido – Américo Facó (BARROSO, 1979, op. cit., p. 198) escrevia para o Jornal do Ceará. Tratava, sob o tom de crônica, dos temas mais atuais e polêmicos de Fortaleza e era assinada apenas por Jack. A primeira publicação deu-se em 20 de novembro de 1907, onde se lia: “esta resenha de factos que hoje começa a occupar espaço no JORNAL deve, por motivos razoaveis ser tracejada sempre com bom humor, que eu não tenho para ahi um espirito sizudo de Hamlet apprehensivo” (JACK. O ôlho da rua. Jornal do
Ceará, Fortaleza, ano IV, n. 681, 20 de novembro de 1907).
europeias de salão.292 Havia muito tempo, essa sociedade, “famosa pelo refinamento e arte da conversação”, inspirava os frequentadores das ocasiões festivas “íntimas”.
Nesses encontros [...] encenavam-se pequenos quadros dramáticos, a elite afeita ao beletrismo recitava suas poesias, os que estudavam música demostravam suas habilidades no canto e em instrumentos executando um repertório romântico, trechos de peças ligeiras e árias de óperas italianas. Discutia-se política, teatro, literatura... ou, simplesmente, divertia-se com os jogos de cartas. [...] O salão de festas passou a adquirir uma forte importância simbólica, tornando-se uma marca de classe. [...] Possuir um salão significava mundanidade e sociabilidade, duas características [marcadamente] burguesas.293
Nas folhas diárias de Fortaleza, publicavam-se sempre notas a respeito de bailes e recepções em «amplos e luxuosos salões» de «confortaveis palacetes» da cidade. Salão Azul era o nome da secção do Jornal do Ceará que trazia informações sobre esses eventos, mas foi principalmente através do jornal A Republica que mais se publicaram notícias a respeito dos mesmos.294 Embora não dispusesse de uma secção específica para tais assuntos, publicando- os em pequenas ou extensas notas, aparecidas na primeira ou segunda página, geralmente estampava a “arte de receber” das elites fortalezenses sob o título «Festas Intimas».
A respeito desses momentos de sociabilidade “íntima”, Rosa Maria Barboza de Araújo explica que, de uma forma geral, “a arte de receber, abrindo os salões íntimos, era bastante apreciada” pelas elites dos centros urbanos brasileiros, que as utilizavam, para além da ideia de comunhão, como oportunidades de distinção dentro da sociedade:
o brilho e o sucesso da festa eram medidos pela seleção criteriosa dos convidados, que mereciam ser recepcionados calorosamente, mas num ambiente que denotasse bom-gosto e refinamento, com atrações de estilo europeu, como o canto lírico e as danças consideradas distintas e elegantes.295
Seguindo essa fórmula, principiavam-se essas «distinctas» festas pela lista de convidados, quase sempre noticiada em dias sequentes à realização das mesmas, quando como em 01 de junho de 1900 estampou, em duas colunas quase cheias da primeira página, o jornal A Republica: “a’s seis horas da tarde de hontem serviu-se á rua general Sampaio n.º 85, o sumptuoso banquete offerecido ao ex.mo sr. general Marciano Magalhães, por diversas
292 C. Entrelinhas. A Republica, Fortaleza, ano XVIII, n. 08, 11 de janeiro de 1910. 293 BITTENCOURT, 2007, op. cit., p. 88.
294 As elites política e econômica estiveram sempre ligadas, muitas vezes, na verdade, confundindo-se entre si. Daí, acredita-se, decorre a predominância das informações sobre as festas realizadas pela classe economicamente privilegiada no jornal oficial do Estado, gerido por integrantes do partido de situação à época, o Partido Republicano.
pessôas de sua amisade”. Na “sala aprestada para o banquete”, ao sentarem-se os convidados, explicou a folha, viram-se presentes muitos nomes de destaque da sociedade fortalezense.
Além de militares, como o próprio homenageado, General Marciano de Magalhães, o Coronel Antonio Nery, Capitão-tenente Ludgero Motta, Coronel Reinaldo Porto, Tenente- coronel Carneiro da Cunha, Coronel Cassimiro Montenegro, Capitão Francisco Benevolo e Alferes Martins Ferreira; estiveram presentes políticos, como Nogueira Accioly, “presidente do Estado e eminente chefe do Partido Republicano cearense”, Coronel Guilherme Cezar da Rocha, “chefe do poder executivo municipal” e José Accioly, “secretário do interior” do Estado. Também foram mencionados o Dr. Candido de Hollanda, Tristão Alencar, Dr. Anselmo Nogueira, Americo e Julio Porto, Ivo de Mattos, Emygdio de Araujo, Coronel Cabral da Silveira, Guilherme Moreira e o representante da folha,296 todos – pretendia deixar claro o autor do texto – “cavalheiros da mais alta distincção social”, acompanhados por “senhoras que [abrilhantavam] a fina flôr da sociedade cearense”.297
Tamanho critério na seleção de convidados era bastante propagandeado nas notas a respeito das festas realizadas pelas elites fortalezenses. Era um recurso tão usado que chegou inclusive a ser assunto de uma secção de tiradas jocosas do mesmo jornal que mais publicava notícias sobre tais eventos, a secção Bric-á-Brac do jornal A Republica. Relatou-se uma conversa entre um casal:
Já completaste a lista das pessoas que convidaste para o nosso baile! – Já.
– Convidaste a melhor gente? – Pudera! Aqui tens a lista. – Não falta ninguém?
– Faltam só os dois policias que hão de estar incógnitos, para evitarem que nos roubem alguma coisa.298
Sem assinatura, a secção, através do humor, elaborava críticas a modos e hábitos da sociedade à época. Quanto ao assunto em questão, contestava-se a «fidalguia» dos presentes nesse tipo de ocasião, para a qual o critério de seleção dos convidados, muitas vezes, não perpassava apenas as relações propriamente íntimas entre amigos e familiares, mas visava a outros critérios, como a promoção social do anfitrião ou homenageado, o que impelia que se convidassem muitas pessoas da “melhor gente” da cidade, mesmo que essas não se
296 FESTAS ao General Marciano Magalhães. A Republica, Fortaleza, ano IX, n. 125, 01 de junho de 1900. 297 Nota sobre a festa de aniversário do Major Arthur Borges, “distincto pharmaceutico e competente professor do Lyceu Cearense” (MAJOR Arthur Borges. A Republica, Fortaleza, ano IX, n. 204, 06 de setembro de 1900). 298 A Republica, Fortaleza, ano X, n. 128, 10 de junho de 1901. Bric-á-Brac.
configurassem em amigos conhecidos, o que gerou alguns inconvenientes para os frequentadores dessas reuniões.
Sempre às terças-feiras, realizava-se um concorrido chá no palácio da Presidência, oferecido pelo Presidente e sua Senhora. Esses chás transformavam-se, por vezes, em movimentados bailes, que se prolongavam até a madrugada e contavam com muitos dos integrantes das elites da capital.299 Justamente em uma dessas ocasiões, sofreu um inconveniente o negociante João Baptista Lopes, “filho do coronel Jesuino, da praça do Ferreira”, que reclamava através das páginas do Jornal do Ceará:
quem levou hontem do baile de palácio, escondeu ou guardou, uma cartola