Para não deixar dúvidas, já na primeira frase do livro Uma utopia
militante, Singer apresenta claramente seu objetivo: “este livro surgiu da
preocupação de reconceituar a revolução social socialista.” Duas décadas se passaram da publicação de O que é socialismo hoje e o autor reutilizará os mesmos passos de sua costumeira crítica. A crítica da doutrina marxista seguida da comprovação histórica de seu fracasso – a revolução bolchevique – e finalmente, a apresentação de sua tese sobre o equívoco da estratégia da conquista do poder político para a implantação do socialismo. Seu entendimento da natureza do socialismo, sua interpretação das estratégias para a sua transição e sua interpretação questionável do pensamento de Marx e Engels condicionam a sua conclusão.
Se a natureza do socialismo pressupõe a desalienação do trabalho na esfera produtiva, ou o controle efetivo dos meios de produção pelos produtores livremente associados, a simples estatização dos meios de produção, ou ainda, a adoção do planejamento centralizado da economia, não garantem a realização dos pressupostos socialistas. Ao contrário, explicam a inconsistência da natureza socialista do socialismo real instituído pela força sob influência da doutrina marxista de tomada violenta do poder, acrescida da visão parcial de que a abolição da propriedade privada representaria a efetiva socialização dos meios de produção. A descrição deste raciocínio sintetiza a lógica da crítica de Singer que o acompanha ao longo de sua produção teórica.
A tese da “rejeição da idéia de que o socialismo deve ser implantado a partir da conquista do poder político” de O que é socialismo hoje (SINGER, 1980: 69) se apresenta em Uma utopia militante como erro de inspiração marxista “de que a revolução social socialista seria consumada mediante uma única revolução política e que a efetiva consumação do socialismo só começaria a partir do êxito desta revolução consubstanciada na “tomada do poder”.” (SINGER, 1998b: 11) Desta forma,
A experiência fracassada [do socialismo realmente existente] revitalizou a hipótese de que o socialismo, enquanto modo de
produção, teria de ser desenvolvido ainda sob hegemonia do capitalismo, ou seja, como modo de produção subordinado, integrando a formação social capitalista [...] construído pela livre iniciativa dos trabalhadores em competição e contraposição ao modo de produção capitalista dentro da mesma formação social (SINGER, 1998b: 9).
Mas o fracasso do socialismo real justificaria transformar em objetivo do movimento socialista a criação de cooperativas capazes de competir em igualdades de condições com as empresas capitalistas no mercado capitalista? Transformar cooperativas em competidoras do mercado capitalista não poderia transformar em plataforma do socialismo a própria reprodução da lógica capitalista de produção?
Para Singer a essência do socialismo é “a organização democrática de produção e consumo, em que produtores e consumidores livremente associados repartem de maneira igualitária os ônus e os ganhos do trabalho [...] enquanto membros de cooperativas de produção e/ou de consumo” (Ibid.: 9-10). Estas formas coletivas de produção não podem, segundo o autor, ser instituídas de cima para baixo por um pretenso poder socialista. Elas devem ser criadas de baixo para cima, pela organização dos trabalhadores em cooperativas. Sua necessidade teórica de converter trabalhadores assalariados em empreendedores coletivos organizados em cooperativas em luta contra a hegemonia do modo de produção capitalista o faz rever o conceito de revolução social e separá-lo do conceito de revolução política. Somente desta forma, tais experiências cooperativistas parecem poder adquirir no interior do capitalismo a conotação de implantes socialistas de uma silenciosa e lenta revolução social rumo ao socialismo. Em outros termos, a revolução social socialista parece não demandar a ocorrência de uma revolução política para o seu desenvolvimento. Trata-se de um longo processo de transformação da organização da produção sob bases cooperativistas. A transferência dos meios de produção aos trabalhadores não se dará, segundo esta hipótese, através de uma revolução política, mas pela conversão gradual dos trabalhadores assalariados em empreendedores coletivos. E isto obrigatoriamente, demandaria muito tempo. Por isso, segundo Singer, se tornou:
necessário separar o conceito de revolução social do de revolução política [e] analisar o papel da revolução social, como processo multissecular de passagem de uma formação social a outra, e o papel da revolução política, como episódio de transformação institucional das relações de poder (SINGER, 1998b: 11).
Dito de outro modo,
a noção de revolução política ofuscou a de revolução social, por causa da tese (até há pouco predominante nos meios de esquerda) de que a condição necessária e suficiente para a conquista do socialismo seria a conquista do poder estatal”( Ibid.: 10).
Concluída a esta redefinição teórica, que possibilita ao cooperativismo adquirir o “status” de implante socialista no interior da formação social capitalista, Singer decreta teoricamente a seguinte realidade histórica: “o desenvolvimento de modos de produção socialistas em formações sociais capitalistas já está ocorrendo há mais de 200 anos” (Ibid.).
Mas se num primeiro momento a revolução social socialista parece estar em andamento há séculos, mais adiante Singer recua e afirma:
Como estamos longe de ter no mundo formações sociais em que o modo de produção socialista seja hegemônico, a implantação de cooperativas e outras instituições de cunho socialista é um processo que poderá ou não desembocar numa revolução social socialista. Trata-se, portanto, de uma revolução social em potencial, cuja culminação ou “vitória” é uma possibilidade futura (Ibid.: 12) Então, Singer coloca para um futuro distante o “destino da revolução social socialista” que para sua realização final está condicionada a solução, sem revolução, da contradição entre “a difusão inédita da democracia” e o “domínio crescente do capital privado global”.