À compreensão da interdição do discurso segue a necessidade de entendê-lo. Mas, afinal, o que é discurso? Para chegar à definição de discurso, Foucault (2008) nos leva à compreensão de enunciado como unidade elementar do discurso:
Em seu modo de ser singular (nem inteiramente linguístico, nem exclusivamente material), ele [o enunciado] é indispensável para que se possa dizer se há ou não na frase, proposição, ato de linguagem. [...] ele não é, em si mesmo, uma unidade, mas sim uma função que cruza um domínio de estruturas e de unidades possíveis e que faz com que apareçam, com conteúdos concretos, no tempo e no espaço (FOUCAULT, 2008, p. 102-103 – grifo nosso).
A função enunciativa, então, é que torna uma frase, uma proposição, um ato de linguagem em um enunciado. É importante ressaltar que o enunciado necessita de uma “espessura material” para se apresentar: “o enunciado precisa ter uma substância, um suporte, um lugar e uma data” (FOUCAULT, 2008, p. 119). Percorrido um caminho de formulação desses conceitos, Foucault (p. 137-138) define o discurso como sendo:
Um conjunto de enunciados, na medida em que se apoiem na mesma formação discursiva; ele não forma uma unidade retórica ou formal, indefinidamente repetível e cujo aparecimento ou utilização poderíamos assinalar (e explicar se for o caso) na história; é constituído de um número limitado de enunciados para os quais podemos definir um conjunto de condições de existência; [...] é parte a parte histórico – fragmento de história, unidade e descontinuidade na própria história, que coloca o problema de seus próprios limites, de seus cortes, de suas transformações, dos modos específicos de sua temporalidade, e não de seu surgimento abrupto em meio às cumplicidades do tempo.
Portanto, há no discurso um conjunto de elementos além do texto, exteriores à língua, exteriores ao sujeito, que está no social e é historicamente produzido, mas que precisa da língua para ter uma existência material (FERNANDES, 2007, p.18). Assim, a relação entre linguagem, história e sociedade está na base das reflexões de Foucault, cuja temática foi predominante na fase em que ele buscou o método arqueológico. Esses conceitos nos ajudarão a compreender, por meio das Histórias de Vida dos nossos “pés excluídos”, os seus discursos, uma vez que estes possuem, antes de tudo, uma história.
Quanto à interdição, na passagem da “arqueologia do saber” à “genealogia do poder” encontramos o tema da Ordem do Discurso, em que Foucault (2010, p. 8-9) afirma que a interdição é um dos mais evidentes procedimentos de exclusão da sociedade, pois em toda
sociedade a produção do discurso é controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos. Isso ocorre porque o discurso está ligado ao poder. “Por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e com o poder” (FOUCAULT, 2010, p. 10).
Foucault (2010) acredita que há três grandes sistemas de exclusão que atingem o discurso: a interdição, isto é, a palavra proibida; a segregação da loucura e a oposição do verdadeiro e do falso. Este terceiro sistema, ou seja, a vontade de verdade: “essa vontade de verdade assim apoiada sobre um suporte e uma distribuição institucional tende a exercer sobre os outros discursos [...] uma espécie de pressão e como que um poder de coerção” (FOUCAULT, 2010, p. 18). Portanto, acreditamos que entre os nossos “pés excluídos” encontramos essas interdições e, sobretudo, vimos em seus discursos, além dos conflitos latentes, essa voz institucional mesmo que de forma inconsciente.
Para entender o discurso dos “pés excluídos” é necessário entender de onde eles falam, ou seja, da “margem”, que também constitui o “tecido social” (DURAND, 1996, p. 171). Logo, os moradores de rua e a sociedade falam de lugares diferentes em perspectivas diferentes. O discurso é, portanto, um evento social. Por isso, não apenas a palavra deve ser compreendida, mas o sentido que lhe está subjacente, porque os sentidos são produzidos em decorrência da ideologia dos sujeitos em questão, de sua compreensão da realidade política e social na qual estão inseridos (FERNANDES, 2007, p. 20). Os discursos também se caracterizam como ação social, isto é, estão sempre se movendo porque acompanham as transformações da sociedade.
Etimologicamente, a palavra discurso “tem em si a ideia de curso, de percurso, de correr por, de movimento” (ORLANDI, 1997, p. 15). Assim, estudar o discurso é observar o homem “falando”, isto é, produzindo sentidos em conformidade com o lugar socioideológico que ocupa. As pessoas em situação de rua têm a rua como o seu lugar social, que lhes foi reservado. Este lugar imprime uma condição de animal ao homem; largado na rua, como algo sem valor, descartável: “Na imundície do pátio”, repousas a cabeça ainda imberbe. É preciso caminhar, guiar o corpo cansado e a cabeça sem rumo. Em seu trajeto, apenas “olhos mortos”, almas insensíveis”.
Os relatos de vida expressam o que Foucault (2010) denominou de interdiscurso, ou seja, os sujeitos são constituídos pelo discurso familiar, pela instituição religiosa e política. O sentido, integrado ao discurso, segundo nos informa Fernandes (2007, p. 19), é compreendido como um “efeito de sentidos” entre sujeitos em interlocução. Ou seja, os
sentidos não são imanentes, eles são produzidos em conformidade com os lugares ocupados pelo sujeito em irterlocução (FERNANDES, 2007, p. 21).
Partindo desse pressuposto, a análise dos sentidos dos enunciados dos sujeitos evidenciam as condições de produção, que compreendem os sujeitos e a situação social. Isto significa que o sujeito discursivo é um ser social, que interage, influencia e é influenciado, e, por isso, “não é o centro do seu dizer, em sua voz, um conjunto de outras vozes, heterogêneas que se manifestam. O sujeito é polifônico e é constituído por uma heterogeneidade de discursos” (FERNANDES, 2007, p. 29). Portanto, a voz desse sujeito revela o seu lugar social.
Uma vez que os discursos revelam a posição que o sujeito ocupa na sociedade, Foucault (2010) vai defender que esse sujeito não tem o direito de dizer tudo, nem pode falar de tudo em qualquer circunstância. Essa ideia é dada através do conceito de Formação discursiva:
[...] prática discursiva é um conjunto de regras anônimas, históricas, sempre determinadas no tempo e no espaço, que definiriam, em dada época e para uma determinada área social, econômica, geográfica ou linguística, as condições de exercício da função enunciativa (FOUCAULT, 2008, p.138).
Ou seja, aquilo que só pode ser dito em determinada época e espaço social, e com as condições de produções específicas e historicamente definidas. Esse controle social dos discursos, essa interdição está bem presente na voz dos excluídos, dos marginalizados, como do louco, do morador de rua, dos prisioneiros. Porque essas pessoas apresentam um comportamento considerado desviante em relação à norma exigida pela sociedade. Com relação à loucura, Foucault (2010, p.10) informa que há outro princípio de exclusão que é uma separação, uma rejeição que ocorre quando se opõe razão e loucura.
Enveredaremos assim, pelas nuances do imaginário das pessoas em situação de rua para ouvirmos a sua voz, a voz dos marginalizados construindo o social. Isso nos foi possível, primeiro, pela leitura de suas histórias de vida. A História de vida é um instrumento de pesquisa, que foi introduzido como meio de pesquisa pela Escola de Chicago, em 1920, cujo estudo objetivava estabelecer estratégias para a análise das experiências vividas e para a construção de um método de coleta de dados que levasse em consideração não apenas o indivíduo, mas todo o contexto de suas relações sociais (GOMES; SILVA, 2012). Esse instrumento de pesquisa revela-nos de que maneira o indivíduo se insere e atua no mundo e
no grupo do qual ele faz parte, por isso é um instrumento viável à coleta de informações contidas na vida pessoal de um ou vários informantes (CHIZZOTTI, 1991).
Logo, as Histórias de Vida das pessoas em situação de rua constituem o corpus textual da nossa pesquisa, cujo aporte teórico principal foi a hermenêutica simbólica durandiana. As imagens produzidas e expressadas no discurso dessas pessoas em situação de rua, na capital paraibana, nos induziram a inferir que há muitos véus escondendo a face de cada sujeito, isto é, há algo escondido por trás do discurso que não se revela totalmente.
3.2 IMAGENS E HISTÓRIAS DE VIDA DOS SUJEITOS DA CASA DE ACOLHIDA