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LAVERE TAP PÅ BANKENES FORETAKSLÅN
Logo na primeira semana do ano de 1917, a página inicial do Correio da Manhã continha a seguinte opinião:
Espalhar a fome entre os proletários de uma cidade, onde se ostentam os palacetes, os automóveis e o luxo dos que enriqueceram pelo peculato e pela fraude, é tentar o povo a repetir entre nós uma dessas lições, salutares talvez, mas sempre trágicas e dolorosas.229
Essa espécie de “conselho” pode ser relacionada ao fato de que a carestia manteve-se em altos níveis nos anos precedentes.
TABELA 8:
Índice de salários/custo de vida (1914-1921).
Ano Custo de Vida Salários
1914 100 100 1915 108 100 1916 116 101 1917 128 107 1918 144 117 1919 148 123 1920 163 146 1921 167 158
Fonte: MARAM, Sheldon Leslie. 1979. Op. cit., p. 121.
É consensual a afirmação de que o ápice da mobilização operária no Brasil, durante a Primeira República, ocorreu nos últimos anos da década de 1910, especialmente em 1917 e 1919. A Primeira Guerra Mundial permitiu a recuperação da produção industrial brasileira, sobretudo a partir de 1916, uma vez que parte das
98 mercadorias importadas deixaram de chegar aos portos brasileiros, e as indústrias nacionais voltaram a empregar para suprir o crescimento da demanda. Ao mesmo tempo, os operários conviveram com o aumento do custo de vida, e somente após a ascensão dos movimentos grevistas durante julho de 1917, a satisfação de reivindicações operárias, como o aumento dos salários, tornou-se uma realidade mais frequente.230 Precisamente, a retomada da atividade industrial não se faria sem o proletariado, que aproveitou-se dessa conjuntura para negociar as suas demandas.
As primeiras movimentações
Embora o custo de vida fosse elevado, e o desemprego contribuísse para a precarização das condições de vida e trabalho no Rio de Janeiro, entre os anos de 1914 a 1916 não foram organizados comícios de protesto contra a carestia. É provável que a possibilidade de um movimento social popular ser vitorioso em momentos de crise econômica e expressivo desemprego seja menor, se comparada ao contexto em que o crescimento econômico depende da mão de obra, e, assim, a negociação parece ser um caminho mais plausível. Essa pode ser uma das explicações para a ausência de lutas contra a carestia nesse intervalo de tempo.
Somou-se à retomada do desenvolvimento industrial, em 1916, o fato de que no ano de 1917 houve a maior diferença, desde 1914, entre o custo de vida e os salários dos operários. Assim, em 9 de janeiro, já era possível visualizar as primeiras movimentações para a organização de uma campanha contra a carestia, coordenada mais uma vez pelos militantes da FORJ:
Em vista da crítica e espantosa situação em que as classes menos favorecidas ficaram, em consequência da carestia dos gêneros de primeira necessidade, motivada pelos exorbitantes impostos, monopólios e ‘trusts’, a Federação Operária resolveu realizar brevemente uma reunião popular, afim de promover um movimento de protesto contra a carestia de vida, que atualmente se tornou insuportável. Para essa grande assembleia serão convocadas as classes e associações operárias desta capital. Prepare-se, pois, o operariado
230 BATALHA, Claudio Henrique de Moraes. 2000. Op. cit., p. 49; LOBO, Eulália Maria Lahmeyer. 1978. Op. cit., p. 521.
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para comparecer, em massa, a esse ato a fim de reclamar os direitos conspurcados pelos exploradores das classes laboriosas.231
Na noite de 17 de janeiro, na sede da FORJ, Praça Tiradentes, nº 71, foi então deliberada qual seria a primeira estratégia de combate à carestia: a organização de comissões de agitação nos bairros. Os membros dos subcomitês de bairro foram escolhidos secretamente, uma vez que na reunião havia policiais à paisana. Ficou definido, além disso, a composição de um manifesto, a ser escrito por uma comissão também nomeada, “expondo a situação precária a que se acham reduzidas todas as classes trabalhadoras”. Este manifesto seria distribuído por todo o país, por isso a necessidade de uma grande tiragem. Uma nova reunião fora convocada, para domingo, dia 21, também na sede da FORJ.232
Antes mesmo dos operários irem às ruas novamente em atos de protesto contra a carestia, comerciantes dos arredores do Largo de São Francisco de Paula escreveram à polícia para reclamar dos comícios lá ocorridos, alegando que os tais meetings espantavam a freguesia. O delegado Cid Braune cumpriu a ordem do chefe de polícia do Distrito Federal, que, sem titubear, declarou impedidos os comícios no referido Largo, sob a alegação de que “particulares” haviam reclamado dos comícios, e que a liberdade de um tem o limite no instante em que inicia a liberdade de outrem.233
Mais que uma argumentação sobre os significados da palavra “liberdade”, o que o representante da força policial fez foi uma interpretação da Constituição da República que impedia o exercício da livre manifestação e pensamento de todos (garantidos pela Constituição de 1891). O delegado favoreceu os comerciantes do Largo. O silêncio das ruas, mesmo naquele espaço, era interessante para os mais abastados, no entanto, para a classe trabalhadora, ele representava a continuidade de um contexto de dificuldades.
Após a reunião organizada na Federação Operária, um convite foi distribuído, em 20 de janeiro, pelas ruas do Distrito Federal:
AO POVO! – Neste momento doloroso para as classes laboriosas, que se conservam em mera expectativa, vendo a fome invadir-lhe os lares, torna-se urgente deixarmos essa apatia e irmos para o campo da luta pela existência, fazendo valer os nossos direitos de produtores da riqueza social. O momento é de verdadeira angústia e o povo precisa lutar antes que a exorbitância dos impostos nos mate à fome.
231 A Época. Rio de Janeiro, 9/1/1917, p. 5. 232 A Época. Rio de Janeiro, 18/1/1917, p. 3.
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Convidamos, pois, o povo em geral a comparecer domingo, 21, às 14 horas, na sede da Federação Operária, à Praça Tiradentes n. 71, para protestar contra a carestia de vida. – O ‘Comitê’.234
FIGURA 10:
Reunião na Federação Operária do Rio de Janeiro (FORJ).
Fonte: A Época. Rio de Janeiro, 22/1/1917, p. 1.
Na perspectiva do documento redigido em nome do Comitê vinculado à Federação Operária, os “produtores da riqueza social” deveriam agir, deveriam protestar por seu “direito à existência”. Destaca-se, até aqui, o fato de que para militantes socialistas e sindicalistas revolucionários a vida, ou a existência, era um direito inerente à classe trabalhadora.235
Em 21 de janeiro, às três da tarde na sede da FORJ, esteve presente “grande assistência”, que acompanhou uma reunião popular interessada em estabelecer as bases para a campanha contra a carestia. A mesa foi constituída pelos operários Maximiano de Macedo, José Maria Esteves e Modesto Ruas. O secretário da FORJ logo procedeu a
234 A Época. Rio de Janeiro, 21/1/1917, p. 1.
101 leitura de telegramas e cartas de solidariedade enviadas ao Comitê Central de agitação contra a carestia. Dentre elas a assinada por Manoel Terceiro, do Centro dos Chauffeurs, que lamentava não poder participar da reunião, em “obediência ao chefe de polícia”. Anarquistas de Belo Horizonte também telegrafaram em apoio à FORJ. O primeiro orador da reunião foi um representante do Centro Cosmopolita. A ele seguiu um representante do jornal Cosmopolita, que criticou a postura do chefe de polícia, interessado em apavorar as associações operárias com o objetivo de que as mesmas se definissem como adversárias da FORJ. Falou em seguida o representante da Liga Federal dos Empregados em Padarias, que “disse lamentar que muitas associações operárias, neste momento, estejam sendo manobradas pela polícia e também por pessoas estranhas aos centros de trabalho, sem que essas resoluções saiam das assembleias gerais”. Em seguida falou João Gonçalves, que de início se declarou anarquista. Em referência à Primeira Guerra Mundial, ele disse que “não fazia apologia daqueles que têm a missão de assassinar para defender a burguesia”. E “dissertou ainda sobre o socialismo e pediu para que ficasse bem patente que a presente agitação da Federação é contra a carestia dos gêneros de primeira necessidade”. Ao final de seu discurso, João Gonçalves afirmou: “defender a própria existência também é um direito sagrado”. “Uma delirante salva de palmas” cobriu as últimas palavras do orador. Adiante falou um representante do Sindicato Operário de Ofícios Vários. Maximiano de Macedo, José Caiazzo (do Grupo Clarim, Jovens Libertários), Pedro Matera (que também militou nas lutas contra a carestia de 1913) e Oswaldo Paixão (um acadêmico) também tomaram a palavra.
Particularmente, desta reunião resultou a proposta de organização de comícios sempre aos domingos, tendo em vista que a assistência poderia ser maior. Para o próximo domingo (28 de janeiro), cinco meetings foram programados em pontos distintos da cidade.
Foram representadas nessa reunião de preparação da campanha de 1917 as seguintes organizações: Sindicato dos Sapateiros; Sindicato Operário de Ofícios Vários; Centro Operário dos Marmoristas; Liga Operária dos Empregados em Padarias; Grupo Jovens Libertários; Centro dos Carregadores do Distrito Federal; Centro Cosmopolita; Subcomitê de Vila Isabel; União dos Oficiais Barbeiros; Sindicatos dos Operários em
102 Pedreiras; Grupo Libertários de Cascadura; Sindicato dos Panificadores; jornal O Cosmopolita; Grupo Operário de Belo Horizonte.236
Os comícios contra a carestia em 1917
No Correio da Manhã o sentimento de insatisfação por parte de um de seus colaboradores era o seguinte:
Mas o assunto é a miséria, e a miséria que tomou para sua carniça a classe proletária vem dos desconcertos fatais da República. Trata-se, pois, de matéria infinita. Não vá a polícia, apesar de seu relevante liberalismo, impedir que os que trabalham se confrontem com os que furtam, verbi gratia, que o paria das fábricas, com a mão calejada e a pele bronzeada ao fogo, não grite o seu protesto contra a fortuna do sr. Antonio Azeredo, o símbolo precípuo dos estadistas, republicanos, a enriquecer por meio de chaves falsas, e à custa da fome popular.237
À luz dessa opinião, os que trabalhavam possivelmente se oporiam aos que enriqueciam às suas custas, uma vez que havia miséria para eles, os produtores, enquanto por meio de “chaves falsas, e à custa da fome popular”, os que não trabalham, mas furtam, prosperavam.
Foi distribuído pelos subúrbios o seguinte convite, uma vez que os tradicionais meetings no Largo de São Francisco de Paula foram proibidos pela polícia:
Federação Operária do Rio de Janeiro – Convida-se o povo em geral para assistir aos comícios que se realizarão, hoje, domingo, 28, nos seguintes lugares: Madureira, às 14 horas, na estação; Engenho de Dentro, às 17 horas, na estação; Vila Isabel, às 16 horas, Praça 7; Gávea, às 16 horas, na Ponte das Taboas. Por isso, pede-se ao povo que acorde, para que não se deixe morrer de fome. Abaixo aos impostos! Abaixo à carestia de vida!.238
Em Madureira, a assistência era de aproximadamente 800 operários, que, a partir das três da tarde, acompanharam os operários Valentim de Brito e Antonio de Oliveira discursarem.239 Na Ponte das Taboas, Gávea, às quatro da tarde notava-se a presença do delegado João José de Moraes, com 10 Praças de cavalaria e 10 de infantaria. Não
236 A Época. Rio de Janeiro, 22/1/1917, p. 1-2. 237 Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 28/1/1917, p. 1. 238 A Época. Rio de Janeiro, 28/1/1917, p. 1.
103 obstante a presença das forças de repressão, os operários José Romero, Joaquim Campos e Benedito Lima discursaram. Segundo o Correio da Manhã, “esses oradores ocuparam-se, sobretudo, da falta de assistência de operários no comício, fato que foi veementemente profligado”.240
De outra maneira, na Praça Engenho de Dentro, a partir das quatro da tarde, 1.000 operários acompanharam Valentim de Brito, que havia chegado do comício em Madureira ocorrido há pouco, Bento Alves e Alvaro Silveira.241 Na Praça Sete de Março, no bairro de Vila Isabel, onde residia grande de número de operários em virtude das fábricas têxteis lá instaladas, Manoel da Silva e Henrique Castanheda foram os oradores. Ambos “formularam violentos protestos contra os homens do governo e contra os exploradores da bolsa do proletariado”. O policiamento constava de 10 soldados de infantaria, 10 de cavalaria, 20 guardas civis e alguns agentes de polícia. Além disso, o 2º delegado auxiliar percorreu de automóvel todos os pontos onde se realizaram comícios naquele dia.242 Madureira, Gávea e Engenho de Dentro inauguraram, assim, a série de comícios dominicais promovidos pela Federação Operária.
No Estácio de Sá, às cinco da tarde de 31 de janeiro, “a despeito da calidez da temperatura e de não ser também o local apropriado para tal fim”, regular concorrência compareceu ao novo comício promovido pela FORJ. “Alguém se lembrou de arranjar uma escada e assim foi, de pronto, improvisada uma tribuna, tendo então começado o ‘meeting’”. O primeiro orador foi o operário Maximiano de Macedo, que começou seu discurso “historiando longamente o estado a que se acha reduzida a classe dos trabalhadores em geral, o que contrasta com a opulência ostentada pelos privilegiados”. Disse que havia vários armazéns abarrotados de mercadorias, que lá ficariam até apodrecer se for preciso, uma vez que a intenção era gerar especulação. Maximiano de Macedo questionou: “Por que o governo não obriga esses especuladores a venderem as suas mercadorias, como o deviam fazer, se não quisessem esfolar o povo?!”. O orador também disse que pouco lhe importava morrer a “balas da polícia”, uma vez que tinha consciência de que cumpria o seu “sagrado dever”, e destacou que falava ao “povo” “como um português que foi obrigado a fugir de sua terra para não morrer de fome”. Azevedo Machado foi o segundo orador, com seu discurso escrito ele falou com “muita
240 Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 29/1/1917, p. 1. 241 Ibidem.
104 calma e eloquência, logrando, por vezes, arrancar francos aplausos à assistência”. Ele destacou: “A sociedade que não cumpre com a justiça é um agregado do despotismo”. Azevedo Machado ainda lembrou que o governo dava 60 contos de réis aos grupos carnavalescos para a preparação do carnaval, enquanto os operários passavam fome. Vicente Ferreira falou em seguida, seu discurso fora brilhante nas palavras do colaborador de A Época. O orador terminou sua oração recordando “belas estrofes de Castro Alves, sendo vivamente aplaudido”. Às seis e meia da tarde o meeting foi concluído.243
FIGURA 11:
Tribuna improvisada no Estácio de Sá.
Fonte: A Época. Rio de Janeiro, 1/2/1917, p. 1.
Um caminho relevante para conhecer melhor quem eram oradores dos comícios reside na citação a seguir:
Assim falaram aqueles homens que não cursaram academias, não usam gravatas de cores espetaculosas ou berrantes, não calçam luvas, jamais se sentaram a uma mesa do Assyrio e nem sabem mesmo o que
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isso seja, e que tinham na sua linguagem o colorido mais exato e a expressão mais justa, porque, sendo os que produzem, são também os que nada tem!244
A representação humorística do aumento do custo de vida pode complementar nossa compreensão das manifestações sociais que aconteciam nas ruas. Como no movimento contra a carestia de 1913, versos em forma de soneto foram publicados na imprensa. Vejamos um exemplo:
Novos protestos contra a crise aguda! Novos discursos contra a carestia! Do povo atiça-se a soberania;
Numa eloquência que o apetite ajuda. E hoje, como há três anos já fazia, Em direitos idênticos se escuda. (A estafada canção quanto mais muda Mais fica a mesma coisa de outro dia.) Arenga da qual mais eloquente:
-Mata-se à fome o pobre! É um desaforo! E são tropos e tropos, em torrente. E em vindo as eleições, o mesmo coro Aplaude e elege a mesma ignóbil gente Que lhe vive a arrancar cabelo e couro.245
As eleições foram lembradas nesse poema. A participação eleitoral em 1917 era restrita, como de um modo geral durante a Primeira República. Os trabalhadores que foram às ruas protestar contra a carestia, em sua maioria, não tinham o direito de voto assegurado, pois este não era concedido aos analfabetos, bem como aos operários estrangeiros. Aliás, as fraudes eram comuns nos pleitos realizados durante a República das Oligarquias.
No mês de fevereiro, A Época noticiava: “precisamente nos subúrbios onde existe uma intensa população operária é audaciosa a ganância dos exploradores. Não é possível a continuação desse horrível assalto à bolsa do pobre”.246 Logo no dia 11, dois comícios foram organizados, um deles em Ramos, e outro no Largo de Santa Cecília, Bangú.247 Em Bangú, Pedro Matera sugeriu que os trabalhadores se reunissem para
244 Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 31/1/1917, p. 1. 245 Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 30/1/1917, p. 1. 246 A Época. Rio de Janeiro, 3/2/1917, p. 6.
106 “descerem ao centro da cidade, nos dias de carnaval próximo, afim de inutilizar os préstitos carnavalescos, para os quais o governo concorreu com o dinheiro tirado do povo, que sente fome”.248 Para além da crítica ao uso “indevido” do dinheiro, o carnaval não era uma manifestação cultural que despertava o interesse dos anarquistas.
FIGURA 12:
Crianças presentes no comício do Largo do Barreto, em Niterói.
Fonte: Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 12/2/1917, p. 3.
No dia 25 foram organizados três comícios. Na Ponte das Taboas, Gávea, às quatro da tarde, Joaquim Campos “começou o seu discurso atacando o governo do sr. Venceslau Brás com frases ásperas e violentas”.249 Pedro Matera, adiante, “passou a atacar, energicamente, os que se aproveitam do trabalho do operário, deixando-o na miséria e com ele os que lhe são caros”. Embora estrangeiro, Pedro Matera fez questão de lembrar que vivia no Brasil desde os cinco anos de idade, e concluiu seu discurso afirmando: “o operário pugnando pelo seu direito, pugnava pelo povo”. Joaquim Campos tomou a palavra novamente, e disse que “combatia os que não trabalham vivendo do suor do operário. Insurgia-se contra a horda que se aproveita do trabalho dos
248 Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 12/2/1917, p. 3.
249 Venceslau Brás era mineiro, sua eleição à presidência da República ocorreu em 1º de março de 1914, após ter sido vice-presidente do governo Hermes da Fonseca (1910-1914).
107 operários gastando três vezes mais do que eles despendem; e nada fazem e nada produzem”. Joaquim Campos questionara: quem é o assassino? Sua resposta foi “o governo, o comércio e a burguesia podre”. “E por culpa de quem? Por culpa exclusiva do operário, que não conhece ser uma força; está nas suas mãos alcançar a reivindicação dos seus direitos”. Ele declarou-se anarquista. Juvenal Leal destacou no seu discurso que o operário não tem pátria, e “em qualquer lugar em que o operário esteja, assisti-lhe sempre o direito de protestar quando se vir espoliado, como nesta hora acontece no Brasil”. “Se o operário sofre é por culpa sua, porque se deixa explorar vilmente”. Ele “incitou o operariado a se unir, para a defesa de seus direitos, deixando essa indiferença que dia a dia lhe vae corroendo o caráter”. Joaquim Campos, novamente com a palavra, defendeu princípios do anarquismo, e citou Piotr Kropotikin, João Grave e Errico Malatesta. O comício foi encerrado com um “viva à Anarquia!”, por volta das 6 da tarde.250
Novas manifestações foram promovidas pela Federação Operária. Em 4 de março dois comícios foram organizados, um na Praça Onze de Junho e outro na Praça da Harmonia. O que se destacou é que em ambos foram desenvolvidas palavras a favor do anarquismo. Após se declararem libertários, “longas considerações elogiosas” foram feitas pelos oradores à ideologia que defendiam.251 De uma maneira distinta do movimento contra a carestia de 1913, os princípios libertários eram defendidos publicamente desde os primeiros comícios. Ocorre que em 1917 havia maior abertura para se falar de “anarquia” e “liberdade” nas manifestações, uma vez que a presença anarquista no movimento operário do Rio de Janeiro foi marcante entre 1917 e 1920.252 De certo modo, estamos acompanhando o processo de militância, desenvolvida pelos anarquistas nos sindicatos, que tinha como fim primordial organizar os trabalhadores do Rio de Janeiro nos sindicatos de resistência, e, a partir deles, conquistar os direitos sociais, mas também criticar e debater as formas de superar o sistema capitalista.
250 Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 26/2/1917, p. 3. 251 A Época. Rio de Janeiro, 5/3/1917, p. 2.
108 FIGURA 13:
Comício na Rua das Laranjeiras.
Fonte: A Época. Rio de Janeiro, 19/3/1917, p. 1.
Em 26 de março, às nove da noite, uma assembleia foi realizada na sede da Federação Operária, cujo objetivo principal era a produção de um manifesto, a tornar-se