– beslutningsgrunnlag for motsyklisk kapitalbuffer
RAMMEVERK FOR RÅD OM MOTSYKLISK KAPITALBUFFER
5.2 Finansielle ubalanser
O tipógrafo anarquista Rozendo dos Santos, secretário geral da COB, expressou através da imprensa operária logo no começo do mês de fevereiro de 1913 a sua revolta para com a carestia que afetava inúmeros trabalhadores do Rio de Janeiro.
É preciso que façamos chegar aos ouvidos dos poderosos o nosso ódio, a nossa indignação contra o aumento desbragado no preço dos gêneros que servem de alimento àqueles que não dispondo dos meios infames de que dispõe a burguesia decrepita deste país, encontra na carne seca, na farinha e no feijão os únicos elementos para mitigar a fome, enganando o estômago. É preciso formar-se um comitê de agitação, que obrigue essa horda de vampiros recuar ante o desígnio que lhe absorve a sifilítica imaginação”.96
Em 20 de fevereiro, no Centro Cosmopolita, Rua do Senado, nº 215, reuniram-se 300 pessoas para debater quais seriam as atitudes adotadas em relação à carestia. Um jornal operário e 11 associações de classe se fizeram representar nessa reunião, pelo envio de delegados.
TABELA 3:
Associações presentes na reunião de 20 de fevereiro de 1913.
Associações de Classe Delegados
Fênix Caixeiral Manoel Joaquim da Costa e Matheus Fernandes Vianna
Federação Operária do Rio de Janeiro Joaquim dos Santos Barbosa Comitê de Agitação de Vila Isabel Alves Junior
União Geral dos Pintores Alvaro Silva Associação Operária Independente Luiz Antonio Lourenço
A Voz do Trabalhador Cecílio Villar
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Sindicato dos Sapateiros José Ramos
Sindicato dos Carpinteiros Manoel Reis Confederação Operária Brasileira Cecílio Villar
União dos Alfaiates Antonio Moreira, Manoel Coutinho e Jacob Chain
Sindicato Operário de Ofícios Vários João Leuenroth, Demétrio Minaña Associação de Empregados Barbeiros e
Cabeleireiros
Custodio Pas, Domingos Ribeiro Cabral e Manoel Almeida Negra
Fonte: Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 21/02/1913, p. 3.
Na reunião houve a representação de associações de tipo sindical, como a FORJ, a COB, a União dos Alfaiates, o Sindicato Operário de Ofícios Vários e a União Geral dos Pintores. Além disso, uma organização que também tinha fins assistenciais, a Associação de Empregados Barbeiros e Cabeleireiros, foi representada por três operários. Estiveram presentes militantes anarquistas, como Cecílio Vilar e Rozendo dos Santos, que discursaram ao lado do advogado socialista Caio Monteiro de Barros, o responsável por presidir naquele dia a mesa de discussão.97
Na ocasião foi fundado o Comitê de Agitação Contra a Carestia de Vida, que teria como atribuição principal combater o aumento do custo de vida, seu presidente seria Caio Monteiro de Barros. Concluídas as intervenções, foi redigida uma moção, assinada pelos membros do recém fundado Comitê de Agitação. Ela continha as seguintes reinvindicações:
O povo delibera, para debelar essa aflitiva situação, reclamar do governo a modificação da taxa dos direitos de importação, até mesmo da entrada, livre de direitos, durante o prazo que julgar necessário, para os artigos de procedência estrangeira, que possam competir com os similares produzidos ou açambarcados pelos trusts nesta Praça ou em outra do país (art. 55, n. VIII, da lei 2719, de 31 de dezembro de 1912, que orça a receita geral da República para 1913). Rio de Janeiro, 20 de fevereiro de 1913 – (Assinados) Caio Monteiro de Barros, presidente, Alfredo Ford, Alberto Franco, Marcelino Ferrão.9899
97 BATALHA, Claudio H. M (coord.). 2009. Op. cit., p. 32, p. 99 e p. 149. 98 Grifos no original.
48 Neste documento uma aposta foi defendida como modo de solucionar a “aflitiva situação” que vivia a classe trabalhadora do Rio de Janeiro: ela se fundamentou na crítica aos impostos, e na defesa do livre mercado e da livre concorrência, a partir da aplicação da lei que orçava a receita geral da República para o ano de 1913 (que não permitia a formação de monopólios). É possível relacionar essa moção com o movimento internacional do capitalismo monopolista, na medida em que desde finais do século XIX a segunda revolução industrial possibilitou a formação de megaempresas que controlavam grande parte dos mercados, e impediam o exercício da livre concorrência. Em 1913, a imprensa do Rio de Janeiro comentava sobre a atuação dos trusts do açúcar e do charque.100
Após as discussões travadas na reunião em 20 de fevereiro, no Centro Cosmopolita, ficou decidido que a organização de comícios públicos de protesto tornar- se-ia o método de luta adotado pelos operários do Distrito Federal. Duas forças sociais autônomas seriam as responsáveis por conduzir as manifestações, uma vez que além do Comitê de Agitação Contra a Carestia de vida, a Federação Operária também iria iniciar, após o carnaval, uma série de comícios contra a carestia.
Considerando que a alta do preço dos gêneros de primeira necessidade vem mais de perto agravar a situação precária em que se encontra o povo desta Capital, já tão escravizado pelos impostos que sobre si pesam e pela falta de liberdade tão lindamente escrita na constituição da República, mas negada seja a quem for (exceto aos graúdos), pois que para isso o governo nos aponta ironicamente a boca da barra ou a Casa de Detenção; Considerando que o momento atual das condições de vida do operariado não pode de forma alguma passar despercebido pela Federação Operária, representante genuína do proletariado livre da Capital; A mesma Federação incitará, após as festas carnavalescas, uma série de comícios públicos na cidade e nos arrabaldes, afim de protestar contra o desleixo, aliás comum, dos senhores da Prefeitura e contra os trusts nacionais, que são a causa das dificuldades com que luta atualmente o povo do Rio de Janeiro. A carestia dos aluguéis de casas também será tratada nessas reuniões públicas, que de alguma forma hão de produzir resultados práticos para todos aqueles que sofrem as consequências nefastas do capitalismo. De completo acordo com a F. O. R. J., aqui estamos para acompanha-la nessa campanha, em tudo que estiver ao nosso alcance. A Voz do Trabalhador é do povo e pelo povo trabalhador.101
100 Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 19/02/1913, p. 2. 101 A Voz do Trabalhador. Rio de Janeiro, 01/02/1913, p. 3.
49 FIGURA 1:
Reunião em 20 de fevereiro no Centro Cosmopolita.
Fonte: Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 21/02/1913, p. 3.
Os comícios do primeiro semestre de 1913
“Um popular”, passando pelo capinzal próximo a olaria da Vila Militar, na estação de Deodoro, encontrou um “indivíduo desconhecido” caído no chão. O colaborador de A Voz do Trabalhador, identificado como Cecilius, disse o que pensava sobre aquele episódio.
Quanta contradição, quanta iniquidade: o operário, aquele que produz, tudo faz, ver-se na contingência de morrer à mingua. Oh! sociedade corrupta, como estás organizada: para uns os prazeres, todos os confortos, o supérfluo enfim; para outros, a grande maioria, - a
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miséria, a fome; o cárcere, a morte ou a deportação quando por acaso se revoltam.102
Sentimentos de indignação como este produziram novas atitudes. No dia 23 de fevereiro, ocorreram dois comícios de protesto contra a carestia, um deles promovido pela FORJ, no Sindicato dos Pedreiros e Serventes. Por volta das quatro da tarde, cerca de 3.000 operários103 tomaram a Praça Ponte das Taboas, no Jardim Botânico, para outro comício, convocado pelo Comitê de Agitação Contra a Carestia de Vida. Falaram aos presentes Caio Monteiro de Barros, os operários Caralando Filho e Vicente Nunes Ferreira, o operário sindicalista104 Antonio Moreira, e o educador anarquista Pedro Matera.105
Caio Monteiro de Barros, “recebido debaixo de uma salva de palmas”, foi o primeiro a discursar. Ele lembrou que “a carne seca, o arroz, o feijão, a banha, o açúcar, alimentos que eram do povo”, não podiam mais ser. E afirmou que era “preciso a solidariedade do povo”, sua ação coesa, intransigente, para a reivindicação do direito à vida, para defender-se da morte pela fome”. Caio Monteiro de Barros observou que a multidão estava ali por uma “causa de verdade”, de justiça, que não tinha “cor política”, porque interessava àqueles que viviam do trabalho. E disse que a vida estava “caríssima, insuportável para o povo, monopolizados todos os gêneros de primeira necessidade por meia dúzia de exploradores”. Ele notou que a produção estava “nas mãos” dos açambarcadores, e que por isso as cooperativas produtivas não resolveriam o problema da carestia. A solução seria, portanto, a aplicação do artigo 55 n0 VIII da Lei da Receita Federal, que permitia a isenção de direitos de importação para os produtos que estivessem monopolizados pelos trusts.106
A caracterização daquele comício de protesto como algo destituído de “cor política” implicava em distanciá-lo, a priori, de interesses pelo poder, materializados na intenção de ocupação de cargos públicos através de eleições, ou no interesse de mudança de regime, através de um golpe de Estado. A carestia, dessa maneira, era uma questão econômica que envolvia todos aqueles que sentiam as consequências do
102 A Voz do Trabalhador. Rio de Janeiro, 15/02/1913, p. 3.
103 FICO, Carlos. Cidade capital: abastecimento e manifestações sociais no Rio de Janeiro, 1890-1945. Dissertação de mestrado em História. Niterói, UFF, 1989, p. 137.
104 Adotamos a classificação de sindicalista para aquele trabalhador membro ou delegado de uma organização de classe que tinha essa orientação.
105 BATALHA, Claudio H. M. (coord.). 2009. Op. cit., p. 101. 106 A Época. Rio de Janeiro, 24/02/1913, p. 1.
51 aumento do custo de vida. No entanto, uma manifestação pública, mesmo quando se diz interessada apenas por questões econômicas, possivelmente é caracterizada por fins políticos, mesmo que estes estejam implícitos.
A moção redigida no comício de 20 de fevereiro, no Centro Cosmopolita, foi lida e aprovada por aclamação pelos operários na Praça Ponte das Taboas. Antonio Moreira, então, tomou a palavra. Ele afirmou que “o povo deve levantar-se em peso para pugnar pelos seus direitos, à vida que estava comprometida”. Vicente Nunes Ferreira, por sua vez, disse que aquela era uma agitação popular, e que por isso ele ali estava na condição de orador e operário. Por fim, ele discorreu sobre a “miséria” que atacava o operariado. E foi muito aplaudido. O próximo a discursar foi o educador anarquista Pedro Matera, da Associação Independente de Vila Isabel, que destacou trazer seu inteiro apoio a agitação.107
Eram seis da tarde quando haviam discursado todos os oradores. Caio Monteiro de Barros tomou a palavra novamente, e observou que nas fábricas de tecidos, “naquele bairro, se poderia dizer qual era a situação verdadeira do povo. A fome invadia os lares. Os salários eram insuficientes a existência e baixavam ainda mais com a concorrência das suas próprias mulheres”. Encerrado o comício, com a presença de uma patrulha de cavalaria e policiais com o intuito de intimidar os manifestantes, ouvia-se gritos de “Morra aos trusts”, “Morra aos sindicatos exploradores do povo” e “Morra às tarifas proibitivas”. O “povo” acompanhou o Comitê de Agitação até o ponto dos bondes.108 Assim, ao final dessa manifestação, foi expressa a crítica aos trusts, à burguesia exportadora, corresponsável junto aos poderes públicos pelo aumento dos preços dos gêneros de primeira necessidade.
A presença de operários de correntes ideológicas adversárias nesse comício foi seguida de um reconhecimento, de Caio Monteiro de Barros, acerca da necessidade de um combate conjunto à carestia. Por ser uma questão econômica abrangente, a luta contra a carestia não poderia ser “contaminada” por ideologias, sejam elas quais fossem, socialistas ou libertárias.
Pode a carestia de vida ser sentida mais dolorosamente por uns do que outros, mas a verdade é que o operário, o funcionário público, o jornalista, o agricultor, o empregado no comércio, o advogado, o
107 Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 24/02/1913, p. 3. 108 Ibidem.
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médico, o soldado, todos sem exclusão, sentem-na muito. É necessário, pois, que, agindo, o povo ponha de lado, como inconvenientes, impróprias, inteiramente prejudiciais à sua ação e à vitória da causa em debate, outra questão qualquer. Nesse momento não se trata de civilismo ou de hermismo, de republicanismo ou de monarquismo, de socialismo ou de libertarismo, de clericalismo ou de anti-clericalismo, ou de coisa semelhante terminada em ismo. Não.109
Essa convocação de Caio Monteiro de Barros poderia ter obtido a adesão dos operários organizados, uma vez que aquela conjuntura foi caracterizada por uma abrangente ameaça de fome, no entanto, ela pode não ter causado interesse, uma vez que as divergências ideológicas no movimento operário não eram pequenas. Para compreendermos o que pode ter ocorrido é preciso acompanhar a dinâmica dos comícios contra a carestia que ainda seriam organizados.110
Parece-nos certo que, a despeito da carestia atingir também às classes médias (pequenos comerciantes, profissionais liberais, advogados, e etc), os operários eram quem mais sentiam as consequências diárias do aumento dos preços. Para exemplificar, o Correio da Manhã nota que os trabalhadores conservadores de ruas, encarregadores, calceteiros e serventes, recebiam salários insignificantes da Prefeitura, o que naquele contexto os colocava em situação muito difícil.
Estabelecer salários como os que paga a Prefeitura, cortados a cada instante pelos domingos, pelos feriados, pelas chuvas e pelos festejos, que os reduzem à expressão mais simples, corresponde a decretar à morte pela miséria aqueles a quem a fatalidade conduz aos trabalhos de conservação das ruas!.111
Em 24 de fevereiro, a FORJ e a COB, que assinavam em conjunto a organização dos meetings (encontros públicos de protesto, que tinham no comício ou na passeata seu ápice), promoveram sua primeira manifestação com maior participação.112 Cecílio Villar, tipógrafo anarquista, os operários sindicalistas Antonio Moreira, Candido
109 Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 25/02/1913, p. 3.
110 As discussões entre socialistas e anarquistas eram recorrentes na imprensa. O tipógrafo anarquista Cecílio Villar, colaborador de A Voz do Trabalhador, travou um debate intenso sobre uma greve dos tecelões ocorrida em Petrópolis, que o cigarreiro e jornalista socialista Mariano Garcia, colaborador de A
Época, acusava de ter sido pressionada pela COB, em detrimento da escolha dos operários de Petrópolis.
A Voz do Trabalhador. Rio de Janeiro, 15/04/1913, p. 1. Outras divergências entre socialistas e anarquistas podem ser conferidas em: A Voz do Trabalhador. Rio de Janeiro, 01/05/1913, p. 5; A Voz do
Trabalhador. Rio de Janeiro, 01/09/1913, p. 3.
111 Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 26/02/1913, p. 2. 112 Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 25/02/1913, p. 3.
53 Costa,113 Joaquim Pinto Leal Junior,114 e o tipógrafo e ator socialista Ulisses Martins,115 tomaram parte desse comício como oradores. Eles falaram para mais de 3.000 pessoas.116
Cecílio Villar convocou o povo do Rio de Janeiro a combater pelos seus direitos, e foi muito aplaudido. Antonio Moreira, da União dos Alfaiates, discursou em seguida sobre as comemorações feitas naquele momento no Catete, “enquanto os trabalhadores, o povo, passavam miséria”. Joaquim Pinto Leal Junior disse, adiante, que o “povo” trabalhava e os ricos gozavam às suas custas. Não havendo mais oradores, Cecílio Villar tomou a palavra novamente, e, por volta das cinco e meia da tarde, encerrou o meeting, ressaltando que o “povo” devia continuar lutando. Ele convidou os presentes a seguirem em passeata até as redações dos jornais apoiadores do movimento contra a carestia.117
Enquanto as manifestações sociais tomavam as ruas em fevereiro, o Correio da Manhã destacou que o proletariado da cidade do Rio de Janeiro118 estava lutando uma “questão econômica, alimentada pelos governos e pelos legisladores, forjada nas antecâmaras das grandes negociatas”.119 Em meio ao clima dos comícios, foram escritos alguns poemas, na forma de soneto, que representaram a carestia em tons de humor e crítica social. Abaixo citamos dois exemplos reproduzidos nos jornais.
A carestia de vida
O arroz está por preço exorbitante A carne seca sobe cada dia
As bebidas por mais marca 'barbante' Ficara num desaforo a freguesia! Clama o povo medida à palpitante Questão que os nossos bolsos desafia Pois a ir por diante a carestia
Morre a gente de fome assolapante Em matéria de amor, já nem se fala Até os beijos que dás [faltastes]
113 BATALHA, Claudio H. M. (coord.). 2009. Op. cit., p. 48-49. 114 Ibidem, p. 87.
115 Ibidem, p. 100.
116 A Voz do Trabalhador. Rio de Janeiro, 15/03/1913, p. 1. 117 Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 25/02/1913, p. 3.
118 Na cidade do Rio de Janeiro, durante as duas primeiras décadas do século XX, o proletariado que atuava no movimento operário era em sua maioria composto por operários assalariados que detinham saberes de ofício, como tipógrafos, sapateiros, alfaiates, pedreiros, marceneiros, padeiros e barbeiros. BATALHA, Claudio H. M. 2006. Op. cit., p. 170-172.
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Sofrem da carestia as consequências Já me não beijas, e por não beijá-la Minha boca [...]
Vai comícios fazer e conferências.120
_______________________ A carestia de vida
A vida está penosamente cara! Queixa banal a todo instante ouvida Sob esse lindo céu de Guanabara
Que aos gozos da existência nos convida. Morar bem hoje em dia é coisa rara; Cara é a roupa, caríssima a comida E há muita gente que só morre para Deixar aos outros barata a vida. Estudando o problema tive ensejo De ouvir um pronto que as ideias prontas Tem e as questões resolve num lampejo. Esse me disse: anda esse povo às tontas E o remédio não vê que já muito vejo:
Comprar-se fiado e não pagar-se as contas.121
Nas ruas, os atos de protesto continuaram. Em 1º de março, o Comitê de Agitação Contra a Carestia de Vida promoveu novo comício no Largo de São Francisco de Paula. Eram cinco da tarde quando tomaram a escadaria da Escola Politécnica, além de Caio Monteiro de Barros, Luis Franco, Deocleciano Martyr, Alberto França, Simão da Costa e Francisco Pereira Lima.122
Caio Monteiro de Barros lembrou o ex-presidente da República marechal Floriano Peixoto, que teria atuado contra a carestia durante seu governo (1891-1894). Nos vários estandartes erguidos ao alto pelos manifestantes, as palavras de ordem eram: “Abaixo aos trusts”; “Abaixo às tarifas proibitivas”; “Morra o protecionismo”; “Abaixo aos exploradores do povo!” e “Comitê de Agitação Contra a Carestia de Vida”. Deocleciano Martyr discursou brevemente, durante cinco minutos, e observou que há 20 anos os trabalhadores não saiam em direção à praça pública, e naquele dia movia-se o
120 Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 02/03/1913, p. 2. 121 A Época. Rio de Janeiro, 04/03/1913, p. 1.
55 alto e legítimo direito do “povo”, o governo, portanto, deveria atender seus reclamos. Deocleciano Martyr concluiu da seguinte maneira: “o povo não pede, não suplica”.123
Novamente com a palavra, Caio Monteiro de Barros pediu atenção para a leitura de uma nova moção, que exigia do presidente da República o cumprimento do artigo 55 n0 VIII da Lei da Receita Federal. Terminada a leitura, os presentes aprovaram o documento por aclamação. Ao final do meeting, ele convidou os manifestantes para se dirigem em passeata às redações dos jornais que apoiavam o movimento contra a carestia. Os presentes seguiram até a redação do Correio da Manhã, onde discursou o operário Vicente Nunes Ferreira. Ele criticou o protecionismo que fechava os portos brasileiros ao mercado internacional. E observou que o comércio deveria ser livre, pois a indústria brasileira já teria recebido muitos incentivos, e com eles formado trusts dificultadores da vida dos “pobres”. Citando as decisões de Dom João VI, o operário Vicente Nunes Ferreira concluiu que os portos deveriam novamente ser reabertos.124
FIGURA 2:
Comício em 1º de Março, no Largo de São Francisco de Paula.
Fonte: A Época. Rio de Janeiro, 02/03/1913, p. 5.
123 Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 02/03/1913, p. 3. 124 Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 02/03/1913, p. 3.
56 Os presentes seguiram em direção às redações do Jornal do Comércio, Gazeta de Notícias, O Imparcial, A Hora, O Século e A Noite. Durante o percurso, discursaram Sebastião Sampaio e o operário João Amazonas. Ao final da manifestação, Caio Barros pediu aos presentes para dispersarem-se, a fim de evitar confrontos com a polícia lá presente. O Comitê de Agitação encarregou-se de levar até o presidente Hermes da Fonseca, em Petrópolis, a moção aprovada no meeting.125
Uma comissão popular, composta por Caio Monteiro de Barros, Luiz Franco, Raul Deveza, Francisco Pereira de Lima, Simão da Costa e Vicente Nunes Ferreira, reuniu-se no dia 2 de março no Palácio Rio Negro, em Petrópolis, com o presidente Hermes da Fonseca. Era uma da tarde quando a autoridade os recebeu declarando que iria “dar uma solução à crise, cumprindo a lei e empregando medidas enérgicas e imediatas em favor do povo”. Detalhadamente, ele lembrou o “caso do marechal Floriano, quando a população do Rio de Janeiro esteve ameaçada de fome pelos