Nos dias de hoje, a comunicação não só disponibiliza a possibilidade de construção de ligações sociais e comunitárias, como se instrumentaliza e se potencializa nas vidas humanas, individuais ou grupais. Ela sai dos bastidores, onde interligava as redes sociais para se mostrar no palco contemporâneo, pautando as relações sociais as quais apenas assessorava. Nesse protagonismo comunicativo (ou informativo), os atos comunicativos estão regidos pelas técnicas, pela performance, pela imagem e pelo esvaziamento de conteúdos, numa perda da densidade discursiva.
Para Ribeiro (2002, p.11), a comunicação é a mais básica e vital de todas as necessidades. Desta maneira, ele afirma que:
O que a pessoa pensa, sua conversa consigo mesma (inteligência intrapessoal), é muito importante, mas não é o bastante para uma boa comunicação. O que realmente importa, para que o conhecimento não fique no fundo do oceano da mente, é a capacidade de transmitir nossas
mensagens, nossos pensamentos e sentimentos. (RIBEIRO, 2002, p. 11)
Neste contexto, a televisão surgiu gerando imagens e sons e colocando bens culturais à disposição da sociedade. Informar ao mundo os acontecimentos através de imagens que poderiam se mover como se estivéssemos frente a frente com elas. Antes, os acontecimentos eram representados através dos desenhos e da escrita, até que surgiu a televisão, uma grande mídia, para exercer este “domínio” sobre a sociedade.
Desde as pinturas pré-históricas as imagens tem sido meios de expressão da cultura humana. Hoje em dia, a vida quotidiana está totalmente imersa nas imagens visuais.
Várias disciplinas são responsáveis pelo estudo das imagens: as teorias da cognição, história da arte, estudos da mídia, semiótica visual, etc. Pelo que se observa, o estudo da imagem se caracteriza por ser interdisciplinar.
Nos dias de hoje, a imagem trabalha com a produção mais atual da tecnologia, introduzindo, cada vez mais, elementos inéditos em nossa cultura. A imagem que antes era estática num quadro, ou num livro ou numa tela, hoje nos traz a dinamicidade e a translocalidade que a tecnologia ajudou a desencadear.
Em todo o mundo, a televisão ocupa um lugar privilegiado nos meios de comunicação. No caso do Brasil, a TV não é apenas um veículo do sistema nacional de comunicação, mas desfruta de um prestígio tão considerável que assume a condição de única via de acesso às notícias e ao entretenimento para grande parte da população.
Vários fatores contribuíram para que a TV se tornasse mais importante no Brasil do que nos outros países: a má distribuição da renda, a concentração da propriedade das emissoras, o baixo nível educacional, o regime totalitário nas décadas de 1960 e 70, a imposição de uma homogeneidade cultural e até mesmo a alta qualidade da nossa teledramaturgia. (REZENDE, 2000, p.23).
Para Martini e Luchessi (2004, apud PEREIRA JUNIOR, 2005, p. 1), “Através dos noticiários televisivos a sociedade tem a possibilidade de aceder a uma série de fatos aos quais não teria acesso: o mundo é visível desde os meios massivos de comunicação”. A agenda diária de cobertura dos fatos
pelos telejornais influencia a agenda pública. As consequências desse agendamento e do enquadramento dos acontecimentos feito pelos noticiários sugerem que eles não só nos propõem sobre o que devemos pensar, como também nos propõem como pensar.
É bem clara, portanto, a influência dos noticiários televisivos no dia-a-dia das pessoas e na forma como elas percebem o mundo. Os telejornais desempenham no Brasil um papel central no conhecimento dos indivíduos. Funcionam como uma forma de conhecimento do cotidiano.
Mas no que se refere à televisão, a “prioridade que dá ao componente visual das mensagens, de maneira a causar uma grande fascinação ao publico, acentua a progressiva desvalorização do poder expressivo das palavras” (REZENDE, 2000, p. 26).
No entendimento de Aumont (2004, p. 81), “a imagem tem por função primeira garantir, reforçar, reafirmar e explicitar nossa relação com o mundo visual: ela desempenha papel de descoberta do visual”. E completa: “Essa relação é essencial para nossa atividade intelectual: o papel da imagem é permitir que essa relação seja aperfeiçoada e mais bem dominada”.
As imagens possuem o poder de garantir a sobrevivência do homem no sentido de que o mesmo está programado biologicamente para reconhecer as coisas que o cercam e a partir disto saber distinguir o que lhe é benéfico para garantir a sua permanência. “Na sobrevivência do ser humano também depende de coisas e signos reconhecíveis que lhe são de grande significado” (GOMBRICH, 1981, apud SANTAELLA; NÖRTH, 2008, p. 42).
A valorização da imagem pela televisão se constitui em um grave problema, pois ao mesmo tempo em que consegue atingir um maior percentual de adeptos, também restringe àqueles que necessitam do recurso do som para compreender de forma mais completa a notícia. É o caso dos DV, os quais são desprovidos do benefício da imagem para captar o que está sendo passado pelo veículo comunicacional.
A imagem é instrumento primordial na TV, visto que ela tem o importante papel de passar as informações adicionais ao som. Campos complementa:
É necessário lembrar, ainda, que no telejornalismo o papel da palavra é dar apoio à imagem. O texto só tem sentido quando está casado com a imagem, quando se relaciona com ela,
quando não entra em conflito com ela. Ambos precisam se completar, ao invés de caminharem em paralelo, pois neste caso um não faria falta ao outro. (CAMPOS, 2003, p. 2)
Na TV, imagem e som se completam, de modo que “se o som faz ver a imagem de modo diferente do que esta imagem mostra a ele, a imagem, por sua parte, faz ouvir o som de modo distinto ao que este se ressoaria na obscuridade”, (CHION, 1993, p.31 apud REZENDE, 2000).
No caso do DV, mesmo sem o recurso da imagem, ao assistir à televisão, esses sujeitos acabam por captar as informações através dos demais sentidos senão a visão. Assim, por exemplo, os efeitos sonoros e a fala fomentam a imaginação, proporcionando-lhes a formação de “imagens auditivas”. “A outra dimensão é acrescentada na própria mente do leitor ou ouvinte, quando a imaginação compõe o quadro”. (DINES, 1974, p. 58 apud REZENDE, 2000) e ainda:
A expressão sonora dá-se em condições nas quais as imagens sonoras vivenciadas compõem um conjunto de possibilidades que transitam pelo imaginário dos indivíduos e da cultura, espaço este que a imaginação cria e recria a depender das condições de seu exercício e desenvolvimento. (SÁ, 1991, p. 128 apud REZENDE, 2000).
A verdade é que, no telejornalismo, texto e imagem não podem competir entre si. Eles, no entanto, se completam. O papel da palavra e do sonoro é enriquecer a informação repassada pela imagem, esta última, fator determinante e diferenciador da televisão para os demais veículos de comunicação.
Ao assistir ao que é repassado pela TV, o DV tenta adivinhar, reproduzir em sua mente uma realidade que não sabe reconhecer como verdadeira ou não, mas garante uma coerência capaz de sustentar sua permanência.
CAPÍTULO IV