Apesar de sua grande contribuição, a abordagem de Redes aqui exposta e, mais especificadamente, as redes de advocacy, apresentam alguns aspectos que têm sido pouco tratados pelos estudiosos da área. Enquanto questões relativas à relevância e à efetividade das redes transnacionais, as quais enfatizam uma abordagem estrutural, tem prevalecido nas análises acadêmicas (VON BÜLOW, 2010; McATEER; PULVER, 2009; RODRIGUES, 2000, 2002, 2004), os estudos intra-rede, com foco nas inteirações entre os agentes, tem recebido menos atenção19. Faz-se necessário olhar para a ação coletiva transnacional para além de seus resultados, de modo a considerar mais a fundo os processos de criação e de ruptura dos laços sociais entre os membros (VON BÜLOW, 2010).
De acordo com Neera Chandhoke (2007, p. 608), ao desnudar a realidade das organizações da sociedade civil para além das ideias de “solidariedade, autoajuda e boa vontade”, que em um primeiro momento nos é apresentada, é possível identificá-las como um ambiente permeado por conflitos, clivagens, ambiguidades e, até mesmo, opressão. Para Paul Nelson (2002, p. 133), ao mesmo tempo em que as redes apresentam compromissos compartilhados, elas também evidenciam desacordos acentuados quanto às questões
19 A exceção tem sido os estudos que buscam analisar a representatividade, a legitimidade e o grau de
accountability da rede. Embora esses sejam aspectos internos, a tendência tem sido abordá-los em sua relação com o nível de efetividade da rede, ou seja, como esses elementos influenciam a eficácia das campanhas (CHANDHOKE, 2005; NELSON, 2002; RODRIGUES, 2004; SIKKINK, 2002).
fundamentais da agenda e às estratégias a serem adotadas: “redes envolvem relativamente novos atores políticos internacionais que manifestam diferenças e relações de poder, bem como a solidariedade e os valores compartilhados”. Já Sikkink (2002) argumenta que, mesmo reconhecendo que há um exercício informal de poder dentro das redes, isso não significa que elas perdem, necessariamente, a sua efetividade.
Ainda com relação a esses conflitos, uma das interpretações mais enfatizadas, sobretudo, nas primeiras formações recentes das redes transnacionais de advocacy a partir da década de 1970, foi o enquadramento das relações entre os membros a partir das perspectivas “Norte/Sul”. Como o conceito de redes aqui apresentado pressupõe conexões entre ativistas de diferentes nacionalidades e culturas, essas formações poderiam ser vistas como uma tentativa de imposição dos valores do “Norte” sobre o “Sul”. Além desse aspecto, a diferença material e estrutural entre as entidades, como infraestrutura organizacional, nível de institucionalização e posse de recursos financeiros, também seria um fator determinante para produzir assimetrias entre os membros da rede.
Segundo as autoras Keck e Sikkink (1998, p.16, tradução nossa), “as conexões com as redes do Norte exigem níveis mais elevados de confiança, pois os argumentos que justificam as intervenções por razões éticas confrontam, muitas vezes, com o nacionalismo presente em grupos políticos dos países em desenvolvimento, como também com as memórias das relações colonialistas e neocolonialistas”. Em outro artigo, Sikkink (2002) afirma que o financiamento externo pode ser considerado tanto a força vital das redes transnacionais, como o principal recurso de assimetria dentro delas. No entanto, a autora não acredita que a leitura Norte/Sul seja suficiente para capturar a complexidade das divisões entre os membros, uma vez que essas derivam mais de uma lógica organizacional inerente às redes do que propriamente das diferenças políticas e estruturais Norte/Sul. Ela acrescenta que o predomínio de ONGs e Fundações do Norte como “propulsoras” das redes transnacionais, em um primeiro momento, contribuiu para reforçar essa associação.
Para os autores Bandy e Smith (2005) e Heller (2013), a relação dos conflitos internos da rede transnacional com o debate Norte/Sul tem perdido sua força atualmente devido à tendência crescente de maior agrupamento regional entre os grupos da sociedade civil. Para os primeiros autores, as tentativas de cruzar os grupos da sociedade civil do Norte com os do Sul provaram ser muito difíceis, fazendo com que os ativistas preferissem buscar coalizões regionais ao invés de devotar extensiva quantidade de energia e tempo para construção de coalizões entre grupos tão diversos (BANDY; SMITH, 2005). Já para o segundo autor: “as ONGs do Sul global têm simplesmente se tornado mais efetivas, mais reconhecidas e
detentoras de maiores quantidades de recursos, comparado ao que eram há uma década. A formação e a difusão de redes diretas Sul-Sul têm se tornado cada vez mais comum” (HELLER, 2013, p. 16, tradução nossa).
Nesse sentido, além de os estudos dessa temática frisarem as relações da rede de advocacy com seus respectivos alvos de campanha, reforça-se a importância de se incorporar a essas análises os aspectos internos da rede, mais precisamente, aqueles que evidenciam as relações entre os membros, de modo a identificar quais foram os possíveis conflitos, clivagens e assimetrias entre eles. Conforme ressaltado acima, essas questões foram pouco abordadas pela literatura, principalmente, nos estudos de caso cujas campanhas focaram em questões específicas, as quais acabaram reforçando uma visão otimista acerca da duração e dos impactos positivos e ações bem sucedidas da rede (VON BÜLOW, 2010).
Outro procedimento relevante nessas análises consiste em considerar o contexto específico ao qual se insere a rede de advocacy, uma vez que o próprio fenômeno de mobilização transnacional se trata de um processo dinâmico, capaz de se transformar ao longo do tempo. Para Von Bülow (2010), devido à fluidez das interações, não é possível observar o transcurso de criação e ruptura dos laços entre os agentes, descontextualizados de seu momento político. Sendo assim, além de examinar como as conexões são construídas entre si e se os atores superam ou não suas diferentes, outro processo fundamental consiste em refletir sobre o desdobramento dessas relações ao longo do tempo.
Sendo assim, procederemos ao longo das próximas páginas com as descrições e análises das redes de advocacy em torno dos Programas POLONOROESTE e PLANAFLORO, considerando, dentro do objetivo de pesquisa, as interações entre os agentes, os conflitos internos à rede e os principais contextos que as envolvem. Acreditamos que esses elementos – fracamente considerados – permitem uma compreensão mais clara e, consequentemente, mais próxima da realidade, das dinâmicas e interações que permeiam as respectivas redes, destacando, inclusive, possíveis desvantagens dessa estruturação da ação coletiva no nível transnacional.
3. O POLONOROESTE