O Auto da Liberdade é uma festa-espetáculo que celebra a liberdade e a coragem do povo mossoroense. Essa festividade é o evento principal da Festa da Liberdade, que conta com vasta programação em comemoração ao caráter libertário desse povo. O Auto dá-se em torno de quatro fatos históricos ocorridos na cidade, tidos como atos heróicos de bravura e como motivo de orgulho. São eles: o Motim das Mulheres, a Abolição da Escravatura antes da Lei Áurea, o Voto Feminino e a Resistência ao Bando de Lampião (ver figura 07).
Figura 07 - Cena do Auto da Liberdade Fonte: Prefeitura Municipal de Mossoró
O Motim das Mulheres9 foi um movimento de mulheres, em torno de 300, que, em agosto de 1875, munidas de panelas, desafiaram as autoridades e a justiça locais com o objetivo de impedir que seus filhos, noivos e maridos fossem recrutados para o Exército. Isso se deu em função dos traumas vivenciados pela Guerra do Paraguai. A revolta deu-se em diversas partes do Rio Grande do Norte, mas foi em Mossoró onde ganhou maior destaque pelo fato de ter sido organizado exclusivamente por mulheres. As revoltosas organizaram uma passeata pela cidade, rasgando os editais de alistamento e batendo em panelas. As mossoroenses insurgentes chegaram a travar luta corporal com os soldados responsáveis por acabar a movimentação. Ana Floriano era a líder do grupo que também teve em posição de destaque Maria Filgueira e Joaquina Maria de Góis.
O dia 30 de setembro é importante para o mossoroense por se tratar do “marco da liberdade” - um feriado municipal que comemora a abolição da escravatura e que é tido como mais importante que a data de emancipação da cidade. Mossoró foi a primeira cidade potiguar a fazer um movimento com a pretensão de liquidar a escravatura. Na época, o município contava com 153 escravos, número pouco representativo para a população de 2.493 habitantes, não dependendo o Estado dessa mão-de-obra. A busca pela abolição, porém, de acordo com o deputado-geral Casimiro José de Morais Sarmento, foi gerada por um fator externo, atrelado à seca de 1877, que provocou êxodo da população das cidades do sertão do Rio Grande do Norte para as proximidades do litoral.
Aquele foi um tempo de dificuldade. Os fazendeiros chegavam a vender seus escravos para o sul do país. Mossoró era ponto de venda. Assim, a Loja Maçônica 24 de Junho cria a Sociedade Libertadora Mossoroense, que tinha por finalidade libertar os escravos. Nesse período, havia 86 escravos na cidade e, em junho, quase metade deles foi libertada. Os demais ficaram livres em 30 de setembro do mesmo ano, data
9 O Motim das Mulheres está relacionado ao alistamento militar obrigatório aprovado no governo Rio
Branco e regulamentado no governo Duque de Caxias, o qual continha normas de recrutamento para o Exército e a Armada. De acordo com Crispiniano Neto (2005), tratava-se de um movimento inserido nas lutas sociais do fim do Império. A questão posta é que havia o antigo costume de recrutar soldados apenas quando ocorria o prenúncio de um novo conflito militar.
oficial para a extinção do trabalho compulsório. A importância do fato deve-se à questão de que, cinco anos antes da promulgação da Lei Áurea, Mossoró teria sido a pioneira na abolição da escravatura no Brasil (PREFEITURA MUNICIPAL DE MOSSORÓ, 2007b).
Ainda de acordo com a Prefeitura Municipal (2007b), durante a sessão da Sociedade Libertadora Mossoroense, ocorrida na Câmara Municipal, onde foram lidas cartas de alforria, foi declarado, pelo Presidente da Sociedade, Joaquim Costa Mendes, que era “[...] livre o município de Mossoró da mancha negra da escravidão”. Após a libertação, foi criado, por idéia de Almino Afonso, o Clube dos Spartacos, com o intuito de reunir os ex-escravos para que tivessem amparo e abrigo, face às dificuldades que iriam encontrar ao longo de sua inserção em uma sociedade que, até há pouco tempo, tivera-os como um bem de capital.
Uma tensão entre autenticidade e representação: é assim que António Fernandes (1999) define o desenvolvimento das ações dos homens. Os eventos da vida social, por mais banais que possam parecer, irão passar por processos de idealização e simbolização, assumindo assim certa “teatralidade” – todos são atores sociais desse sistema criador da memória coletiva. No contexto de ritualização, as festas mostram sua importância na quebra do cotidiano e no surgimento de um mundo distinto. É por esse processo que passam os fatos históricos mossoroenses, que se transforma em espetáculo para ser perpetuado pela população.
O modo como o fato histórico da abolição da escravatura no município mossoroense é recontado para o grande público é uma questão a ser pensada. Durante a festa, para as pessoas que não conhecem a história, a imagem passada é a de que Mossoró libertou seus escravos por uma questão humanitária, porque seus políticos tinham um instinto fraterno. O espetáculo sugere que os líderes políticos participaram do movimento não por imposição política ou por uma necessidade que se ampliava a cada dia pelos acontecimentos que ocorriam, mas por iniciativa própria, exaltando os mossoroenses. Para Felipe (2001, p.169), “O que importa aqui é [...] revitalizar esse imaginário e sinalizar o seu território [...] para mostrar os seus deuses, fortalecê-los como crença [...]”.
Outro fato histórico que faz parte do Auto é a Resistência ao Bando de Lampião, ocorrida em 1927. Esse é tema central do espetáculo Chuva de Bala, realizado durante as festividades do Mossoró Cidade Junina, já abordado anteriormente.
O último fato histórico elencado no Auto da Liberdade é a Instituição do Voto Feminino em Mossoró (1928). A história registra que o deputado mossoroense Adauto Câmara elaborou projeto com vistas à inexistência da distinção de sexo para o exercício do voto, o qual foi sancionado através de lei pelo então governador José Augusto Bezerra de Medeiros em 25 de outubro de 1927. Assim, a professora Celina Guimarães requereu sua inclusão no alistamento eleitoral e, preenchendo todos os requisitos, seu nome foi incluído na lista geral de eleitores do município. Ela tornou-se, então, a primeira eleitora de Mossoró, do Brasil e da América Latina. A questão do voto de Celina Guimarães teve repercussão mundial.
Em mais de cem países, as mulheres não tinham direito ao voto. A encenação apresenta Celina Guimarães como sendo natural de Mossoró. Na verdade, a primeira eleitora brasileira não era mossoroense nata, mas apenas moradora da cidade. Mais uma vez, o espetáculo tende a mostrar os fatos da maneira conveniente aos seus promotores. Quem não tem um conhecimento da história do voto feminino absorve a idéia passada pela encenação de que Celina Guimarães era nascida em Mossoró. Outra questão pertinente é o fato de que ela não foi a primeira a requerer sua inclusão no alistamento eleitoral. Quem o fez foi Júlia Alves Barbosa, a qual teve seu requerimento retardado por ser solteira.
Os ideais de bravura, heroísmo e pioneirismo buscam ser mostrados a todo instante no espetáculo, numa conotação perceptiva de que é “Tudo por conta da abnegação de todos e do sentimento de orgulho que são transpostos para o espetáculo, um retrato fiel do que representa todos esses quatro importantes feitos” (PREFEITURA MUNICIPAL DE MOSSORÓ, 2007b). O espetáculo reconstrói versões comuns das histórias transmitidas por via oral pelo povo de Mossoró de geração em geração. O Auto da Liberdade aconteceu em sua primeira versão em 1999, como uma proposta para dar novo formato às comemorações do dia 30 de setembro, que não
mais atraíam o povo mossoroense. Os atores da cidade puderam ter uma oportunidade para aperfeiçoar e mostrar seu trabalho. Anteriormente, o que ocorria era uma espécie de desfile cívico. O texto do novo espetáculo teve como base o livro “Auto da Liberdade”, do poeta Crispiniano Neto. Nos primeiros anos do evento, foram organizados espetáculos simples, produzidos no chão. As encenações aprimoraram-se ao longo dos anos. Há a idéia de que, a cada dois anos, o diretor seja mudado, para que um novo conte a mesma história sob a sua ótica. De acordo com Francisco Carlos, Secretário Municipal de Cidadania, o envolvimento da população cresce a cada ano, e o retorno do investimento é sentido não somente no turismo, mas também no resgate cultural e na valorização da história da cidade de Mossoró.
Segundo entrevista concedida pelo produtor cultural Francisco das Chagas Soares, conhecido na cidade como Chiquinho Window, a festa-espetáculo tem dois aspectos. Por um lado, em termos de incentivo cultural, a festa é extremamente vantajosa, visto que leva a imagem de Mossoró ao Brasil como um centro cultural, onde as ações são desenvolvidas no sentido de incentivar o desenvolvimento do turismo cultural. Contudo, por outro lado, o período da festa é um momento muito político. O produtor faz uma crítica no sentido de que não é interessante criar uma grande estrutura para a realização do evento e depois deixá-la morrer, como ocorre em Mossoró. Após o evento, afirma Chiquinho Window, há um abandono das ações de incentivo à cultura e de estímulo ao pessoal envolvido.
Para o produtor cultural, seria interessante a continuidade das ações propostas para a realização do Auto, através da montagem de oficinas, preparação permanente do pessoal, para que os atores pudessem transformar-se em multiplicadores de desenvolvimento cultural nas comunidades da cidade. O produtor afirma que a cidade transforma-se em função das festas nela realizadas. Há um aumento significativo do número de turistas, movimentando equipamentos de hospedagem. Chiquinho Window conta que, há menos de uma década, nada havia no setor cultural de Mossoró. Ele afirma que era uma cidade abandonada nesse sentido e acrescenta que, hoje, está colocada no mapa do turismo cultural graças aos grandes investimentos que o setor recebeu.
Mesmo assim, o grande diferencial da cidade é de ser um lugar onde as pessoas ainda se conhecem.
Artesãos, bordadeiras, costureiras, figurinistas e pequenos vendedores são diretamente beneficiados pela promoção da festa. Há uma preocupação em utilizar a mão-de-obra local, em especial, a das pessoas das periferias. Todavia, Francisco Soares alega que os trabalhadores não têm consciência da importância de seu trabalho, tampouco de que estão sendo beneficiados em função da realização das festas-espetáculo. Ele conclui que, além de atividade com fins econômicos e culturais, “[...] o Auto é também momento de confraternização, visto que a população como um todo, de todas as camadas sociais, assiste ao espetáculo”.
Diante dessas informações, percebe-se, então, que as medidas governamentais de ação cultural caracterizam-se, assim, como intervenções pontuais. Como declarado anteriormente, faz-se necessário um trabalho contínuo no sentido de envolver a comunidade nas ações de planejamento da atividade turística. Isso engloba a participação dos grupos de teatro locais, visto que o turismo cultural em Mossoró está diretamente atrelado às festas e aos espetáculos. Independentemente dessas questões, porém, trata-se de um passo que já foi tomado no sentido de incentivar e trabalhar com esse tipo de manifestação em Mossoró, embora se veja a necessidade de uma intervenção maior por parte do poder público, no sentido de tornar o trabalho que vem sendo realizado um processo permanente.
Kátia Lopes10 afirma “apoiar a iniciativa do espetáculo, o qual demonstra a busca permanente pela liberdade de expressão e pela questão da inclusão”. Segundo ela, a Prefeitura busca incluir a comunidade no processo, convocando as pessoas para os ensaios. A diretora critica o poder público por não viabilizar uma manutenção da atuação de tais voluntários, com vistas a criar grupos de teatro e diz que muitos talentos são “desperdiçados” em função disso. Para ela, uma prova de que deveria haver um investimento permanente é o fato de pessoas que começaram no Auto terem se tornado profissionais. Assim, esse número poderia ser bem mais significativo.
10 Diretora técnica do espetáculo em 2006. Fragmento da entrevista concedida no dia de realização do
O Auto teve 450 atores em cena, em 2007, e se envolveram 200 pessoas na montagem do espetáculo, 400 peças de figurino entre roupas e acessórios. Utilizou um palco de 30x30m, dividido em 3 níveis. Nos anos anteriores, o espetáculo vinha crescendo em números de artistas participantes, tendo 120 atores, em 2003, e 2000 artistas em cena, em 2006.
O Cortejo Cultural11 acontece atrelado ao Auto. No último dia de sua realização, quando é feriado em Mossoró, o Cortejo sai pelas ruas principais da cidade a representar os feitos e ideais de liberdade. De acordo com a Prefeitura Municipal (2005), são mais de 10 mil pessoas envolvidas, trajadas com figurinos e alegorias, fazendo emergir uma “evolução lúdica”. O evento envolve escolas, programas e projetos sociais, quadrilhas estilizadas, corais, além do elenco do Auto. O trajeto vai da Avenida Alberto Maranhão até o Alto da Conceição, com final na Estação das Artes.
Na programação da Festa da Liberdade ocorre ainda o Seminário Novas Liberdades. Nesse evento, ocorrem ciclos de palestras, debates, apresentações culturais e lançamentos de livros que têm como tema a liberdade. Anualmente, dentro da Festa da Liberdade, o Seminário Novas Liberdades precede o Auto em uma semana e reflete sobre o tema através da participação de políticos, gestores públicos, pesquisadores, professores e estudantes. A partir de temáticas associadas à liberdade humana, são discutidas questões acerca da liberdade de expressão, da educação, da cultura, das etnias, da sexualidade, das diferenças de gênero, de emprego e renda, de responsabilidade social, do uso indevido de álcool e do consumo de drogas e da inclusão digital, dentre outros.