Devido a contratempos diversos, o início propriamente dito das atividades do Núcleo Horizonte do “Alinhavando Sonhos / Construindo Realidades” ocorreu somente a partir do mês de fevereiro de 2007.
A primeira capacitação realizada foi a Oficina de Retalhos, durante a qual as mulheres confeccionaram produtos, principalmente bolsas femininas, utilizando pedaços e sobras de tecidos doados por costureiras e empresas do ramo têxtil do município. A facilitadora da oficina foi uma professora do curso de Estilismo e Moda da UFC, que costumeiramente trabalha com grupos de mulheres na periferia de Fortaleza e em cidades do interior do Ceará. Todas as peças foram elaboradas conjuntamente e à mão, uma vez que as máquinas de costura ainda não estavam disponíveis para o grupo, como pode ser observado no registro fotográfico abaixo:
FIGURA 3 - Fotografia da Oficina de Retalhos Fonte: Elaborado pelo autor, 2007.
O material produzido nessa primeira oficina foi exposto em um estande na VI Feira de Negócios de Horizonte, durante as comemorações do 20º aniversário da cidade, como pode ser visto na fotografia abaixo.
FIGURA 4 - Fotografia da Exposição de produtos Fonte: Elaborado pelo autor, 2007.
Os depoimentos, oriundos dos formulários de avaliação preenchidos anonimamente ao final de cada atividade (Apêndice D), refletem a visão delas acerca da vivência no projeto, logo no início. O quadro abaixo apresenta, fielmente, trechos dos textos produzidos pelas integrantes do projeto, razão porque não foi feita qualquer correção ortográfica:
QUADRO 2 – Observações da Avaliação da Oficina de Retalhos.
Críticas nenhuma. Vamos consegui acasar no hobigetivos. Sugestões ter mais hunião entre o grupo.
Apesar de ter tão pouco tem po até agora deu tempo para aprendermos várias coisas interessantes isso nos mostra que daqui pra frente temos muita capacidade para aprendermos mais e mais durante este projeto.
Sugestões para que nois continue quada vez mais desenpenhada nas participação do nosu curso. Que nuca desista desa grandi oportunidadi.
Tá tudo maravilhoso.
O curço foi muito bom é um sonho realizado. Esperamos que continuem dezevolvendo cada veis mais.
Eu aprendi muito durante as oficinas e eu quero parabenizar a todas.
Gostei muito do projeto porque mostrou que nois pordemos fazer com nossa criatividade.
Nunca pensei que fosse capaz. Não costurava nem mesmo as roupas do meu marido e consegui produzir.
É muito bom trabalhar em equipe, uma ensinando às outras. A oficina ajudou a dispertar a criatividade de todos
É uma experiência que temos que agarrar.
Poder mostrar nosso produto, nossa história, trabalhar com artesanato.
Foi excelente, em só duas semanas de trabalho já conseguimos expor nossas peças. Fizemos na mão e as pessoas já queriam comprar nossos produtos. Imagine quando começarmos a costurar.
Por que eu aprendi nova atividade e tive a chance de conhecer novas pessoas capaz de ajuda o próximo.
Até agora, só posso parabenizar o trabalho de todas as meninas que estão à frente do projeto e das alunas pela força de vontade.
Porque eu gostei muito de ter aprendido coisas novas. Fonte: Relatório de Projeto de Extensão, 2007.
A exposição das peças produzidas no mencionado evento municipal parece ter sido de extrema importância para o pontapé inicial de formação daquele grupo, tendo em vista os elogios tecidos pelos freqüentadores da feira e a visibilidade proporcionada ao trabalho e à comunidade das artesãs.
As mulheres que participaram diretamente da exposição manifestaram o seu contentamento diante dos comentários de reconhecimento de sua coleção e mostraram- se satisfeitas em apresentarem e divulgarem seus trabalhos para moradores e visitantes de Horizonte. Mais uma vez os depoimentos das mulheres oferecerem um panorama acerca da experiência: “na feira conseguimos até encomendas”; “se Deus quiser, ano que vem estaremos vendendo”; “foi muito bom poder mostrar nosso produto, nossa criatividade”; “nossa barraca estava cheia de harmonia”. (UFC, 2007, p. 8).
A atividade seguinte foi conduzida por uma artesã horizontina, que ensinou às mulheres a confeccionar peças de “fuxicos”10, que podem ser visualizadas na figura:
FIGURA 5 - Fotografia da Oficina de Fuxicos Fonte: Elaborado pelo autor, 2007.
Os fatos de a facilitadora ser uma pessoa da mesma classe social que as mulheres e de ela utilizar uma linguagem simples foram relevantes para o aprendizado, no sentido de proporcionar uma troca de experiências interessante para todas. Enquanto profissional do artesanato, a instrutora pôde repassar informações não somente acerca da criação dos produtos, mas também sobre a sua profissão, os benefícios e dificuldades de se trabalhar por conta própria. Vale a pena transcrever alguns manuscritos da avaliação dessa oficina:
QUADRO 3 – Observações da Avaliação da Oficina de Fuxicos.
A instrutora foi muito legal com todos nós. Eu acho que seria muito bom se for possível ter mais aulas com ela.
A estrutora é muito legal, mais durou muito pouco.
A oficina foi ótima, a capacitadora e muito legal, mas que pena que durou pouco. Não gostei de algumas pessoas que não fazia nada, mais a instrutora foi maravilhosa. Pra me so teve pontos positivos foi tudo de bom.
Foi bom porque nós aprendemos mais um trabalho.
O aprendizado de fuchicos como fazer cortinas, flores, enfeites etc. O modo da professora nos tratar muito bem...
Fonte: Relatório de Projeto de Extensão, 2007, p. 3.
Outro grande momento para o grupo de mulheres ocorreu durante as primeiras aulas do tão aguardado Curso de Costura, pois, conforme relatos, a maioria
10 Técnica de costura em que círculos de tecido são costurados em forma de pequenas trouxas e cuja
nunca havia manuseado uma máquina elétrica para esse fim. O aprendizado dessa capacitação consistiu em um aumento das possibilidades de concepção de peças, já que, até ali, as aprendizes dispunham apenas de agulhas para a junção dos cortes de tecido.
FIGURA 6 - Fotografia do Curso de Costura Fonte: Elaborado pelo autor, 2007.
Vale ressaltar a importância da parceria firmada com a associação comunitária neste projeto: não foi necessário adquirir novas máquinas de costura através do financiamento do PNUD, pois a ARQUA havia recebido a doação de 12 equipamentos industriais para quatro tipos diferentes de técnica de costura (overloque, galoneira, reta e interloque), além de uma máquina para corte de tecido. Assim sendo, o dinheiro pôde ser investido em outras atividades.
A metodologia usada pela costureira, também moradora de Horizonte, ao ensinar os passos da atividade, com simplicidade, respeitando o ritmo e valorizando o conhecimento de cada uma, demonstrou ser outro diferencial, pois pareceu contribuir ainda mais para a integração do grupo em geral e com o desenvolvimento técnico das participantes. O projeto buscou, assim, valorizar o potencial dos cidadãos horizontinos e contribuir para o fortalecimento da identidade e da cultura, através da contratação, sempre que possível, de profissionais da própria região.
No final de junho de 2007, foi realizado o Seminário Alinhavando Sonhos / Construindo Realidades, no Auditório da Reitoria da UFC, para socializar as atividades dos núcleos de Fortaleza e Horizonte em sua primeira etapa e dar visibilidade aos resultados obtidos até ali. O evento representou um momento importante para a
visibilidade interna e externa dos grupos, além de contar com a representação de membros do MDS, do PNUD e de outras instituições parceiras. A foto seguinte contém grande parte da equipe de trabalho e das integrantes dos dois grupos do projeto.
FIGURA 7 - Fotografia do Seminário na UFC Fonte: Elaborado pelo autor, 2007.
As mulheres demonstraram estar orgulhosas por aquilo que produziram, já que foi feita uma mostra da produção para a comunidade acadêmica. Na ocasião, elas tiveram contato, pela primeira vez, com as companheiras do outro núcleo e seus trabalhos. O seguinte trecho de uma avaliação resume o evento: “Palestras bastante esclarecedoras, onde aprendemos muito mais com relação ao projeto como um todo e como ele funciona em outros lugares, enfim foi bem produtivo”.
Esse primeiro contato com o grupo de Fortaleza serviu para estimular a produção das mulheres, pois, como o primeiro havia iniciado suas atividades semanas antes, o arsenal produzido foi superior ao das horizontinas, como pode ser constatado na seguinte opinião de uma integrante: “Creio que a mostra de produtos foi boa, porém poderíamos melhorar na produção para termos mais a apresentar”. Além disso, o projeto foi divulgado nas mídias televisiva e impressa, através de matérias nas quais integrantes deram seus depoimentos sobre a vivência no projeto.
Seguindo o objetivo específico de buscar a melhoria da qualidade de vida das mulheres e suas famílias, o projeto ofereceu palestras educativas sobre “Auto- medicação”, “Atenção à Saúde” e “Sexualidade”, visando fornecer esclarecimentos acerca de cuidados básicos com a saúde, de prevenção a doenças sexualmente transmissíveis (DST), planejamento familiar e outros assuntos.
Oficinas de crescimento e desenvolvimento interpessoal também foram realizadas com as participantes, durante as quais foram abordados temas como elevação da auto-estima, auto-conhecimento, desenvolvimento de habilidades de comunicação e de trabalho em grupo. A fotografia abaixo registra um momento dessas oficinas.
FIGURA 8 - Fotografia da Oficina de Crescimento e Desenvolvimento Pessoal Fonte: Elaborado pelo autor, 2007.
Em outra atividade, efetivada para contemplar os propósitos acadêmicos do projeto de fortalecer o diálogo sobre a Psicologia Social do Trabalho e de ampliar o debate sobre as novas tendências do mercado de trabalho (BRASIL, 2006), realizou-se uma roda de conversa sobre trabalho, cuja participação das seis mulheres se deu de forma espontânea. Foi solicitado que essas mulheres pusessem livremente no papel, sob a forma de desenho, música, palavras, tudo que lhes viesse à cabeça com relação à temática. Em seguida, cada uma apresentou sua produção para o grupo, expressando em que consistiam os desenhos, frases ou palavras escritas.
FIGURA 9 - Fotografia da Roda de Conversa sobre Trabalho Fonte: Elaborado pelo autor, 2007.
Algumas mulheres representaram o trabalho através de desenhos diversos: utensílios e móveis domésticos (vassoura, fogão, talheres), retratos humanos, figuras bucólicas (flores, jardins), bolo confeitado, peças de vestuário e textos. O quadro seguinte apresenta partes dos textos escritos por elas. Outros fragmentos dessa apresentação, que foi gravada com o consentimento delas, serão apresentados em capítulos posteriores.
QUADRO 4 – Manuscritos de roda de conversa sobre trabalho.
O trabalho é um dom de Deus que nus deu cada um di nois para sermos sidadao. (Luzirene).
Trabalho nem sempre quer dizer emprego, muitas vezes trabalho é produzir algo sem ter remuneração. Trabalhar é você sentir útil, produtivo e capaz de com o seu trabalho, seja ele qual for sentir-se realizado, como profissional e pessoa. Trabalho dignifica, dá auto-estima e é algo de suma importância na vida do ser humano. (Virgínia).
Trabalho para min e uma fonti que quada um di nos dependi deli porque sem trabalho nos não somos nada. Dependemos deli para todas as coisas di nossas sobrivivencia. Trabalho e uma coisa muito inportanti não so di pão vivi o homem mais di toda palavra da boca di Deus. (Lucimar).
Trabalho e tudo aquilo que faz parte da nossa vida, principalmente quando se faz com amor carinho e dedicação, paciência. (Letícia).
No meu ponto de vista trabalhar e senpre ter auqela tarefa a fazer todos os dias e fazer co carinho porque trabalhar e lida do dia-a-dia. Todo dia estamos trabalhando, fazendo uma coisa ou outra. (Valquíria).
Trabalhar pra mim significa tudo porque através do trabalho nós temos tudo que sonhamos e se inda não temos com certeza algum dia da vida teremos, pois quem espera por Deus não cansa. Temos que ter nosso próprio trabalho pra que nós possamos se alto sustentar comer do próprio suor do nosso rosto por que mente vazia é oficina do diabo e também eu gostaria de trabalhar para ajudar meu marido e pagar a faculdade do meu filho. Trabalho que eu amo fazer é costurar. Peço muitas forças a Deus pra que eu possa alcançar esse objetivo. (Marília).
Fonte: Material interno do projeto “Alinhavando Sonhos / Construindo Realidades”.
Iniciado o segundo semestre de 2007, as mulheres participaram de um curso para confecção de bonecas de pano, instruídas por duas senhoras fortalezenses, integrantes da Rede Cearense de Sócio-Economia Solidária. A foto que segue destaca um dos modelos aprendidos nesse curso.
FIGURA 10 - Fotografia da Oficina de Bonecas de Pano Fonte: Elaborado pelo autor, 2007.
O intercâmbio proporcionado por essa experiência foi importante para a ampliação dos conhecimentos das mulheres acerca da situação do artesanato na cidade de Fortaleza. Igualmente importante foi a fabricação de produtos ainda não encontrados na comunidade, como bolsas infantis em formato de bonecas, enfeites de sapos e outros bichos, o que resultou em inúmeras encomendas por parte de vizinhas e colegas das mulheres.
Uma das contribuições dessa oficina foi que as mulheres puderam utilizar os conhecimentos adquiridos de diferentes formas, pois elas próprias passaram a buscar outros modelos de bonecas e novos detalhes para diferenciar seus produtos.
O passo seguinte ocorreu com outra oficina, ministrada pela professora de Estilismo e Moda, para a elaboração de uma coleção de roupas, segundo a criatividade das alunas, para apresentação durante a I Feira de Integração Universidade-Movimentos Sociais da UFC. A interface com outros grupos produtivos, de outras cidades e de produtos variados proporcionado por essa feira, permitiu uma comparação entre estilos e trouxe novas expectativas e opções para os núcleos.
Esta ocasião constituiu em outro marco nas atividades do projeto, pois foi a primeira vez que os grupos puderam vender seus produtos. Assim, o aprendizado ultrapassou os aspectos da técnica e da concepção, uma vez que as mulheres tiveram a oportunidade de lidar diretamente com o cliente, na relação do comércio daquilo que elas próprias haviam elaborado.
Outra questão importante, ocorrida a partir dessa feira, se deu com a divisão do dinheiro arrecadado entre as mulheres, cujos critérios utilizados foram definidos por elas mesmas. Para a realização daquela feira, houve maior engajamento na produção e / ou na venda por parte de algumas. Outras haviam desistido, afastado-se temporariamente por doença, nascimento de filhos ou algum outro motivo. Assim, o dinheiro, que embora não fosse alto, era bastante representativo por consistir no primeiro fruto financeiro do processo. A fotografia seguinte ilustra a ocasião em que foi definida a forma de divisão do dinheiro arrecadado.
FIGURA 11 - Fotografia de Reunião Interna do Grupo de Mulheres Fonte: Elaborado pelo autor, 2007.
A segunda oportunidade de venda das peças do grupo ocorreu na I Mostra Alinhavando Sonhos / Construindo Realidades na Comunidade de Alto Alegre, ocasião ansiosamente esperada pelas próprias mulheres e pela localidade em geral, que se mostrava curiosa em conhecer os resultados de tantos meses de curso e trabalho conjunto. A população das redondezas reclamava o fato de suas conhecidas já terem participado de feiras na capital e aparecido na televisão mostrando seus produtos e os ganhos pessoais advindos do projeto, sem, no entanto, terem feito isso na própria comunidade. Algumas mulheres já vendiam peças ou recebiam encomendas individualmente, mas de forma coletiva ainda não havia acontecido nada nesse sentido.
A essa altura do projeto, alguns aspectos foram se evidenciando, tais como a diminuição do interesse de algumas mulheres, concomitantemente a um maior engajamento de outras integrantes, a aptidão de determinadas mulheres para a divulgação e venda dos produtos, enquanto outras se destacavam na produção e criação.
A última atividade organizada e dirigida pela coordenação do projeto foi a participação em um desfile de moda que aconteceu durante o evento de comemoração ao Dia Nacional da Consciência Negra (20 de novembro). As vestimentas foram desenhadas, cortadas e costuradas pelas mulheres, isto é, não existiu em momento algum um facilitador para gerenciar o processo. Crianças da comunidade (foto abaixo) e garotas de Alto Alegre e adjacências que concorriam ao posto de Miss Negra 2007 de Horizonte trajaram as peças confeccionadas, apresentando as obras elaboradas por suas conterrâneas para toda a comunidade.
FIGURA 12 - Fotografia do Desfile de Moda Infantil Fonte: Elaborado pelo autor, 2007.
Diante da contextualização geral do projeto exposta acima, cabe apresentar como essas mulheres percebem e significam o trabalho e a experiência no projeto, bem como o que pensam sobre suas condições de vida, suas experiências de trabalho e sobre si mesmas, enquanto mulheres e artesãs.
6 AS NOVAS ARTESÃS: A VIDA, O TRABALHO, A FAMÍLIA, OS
SONHOS
Temos, todos que vivemos, uma vida que é vivida / E outra vida que é pensada / E a única vida que temos / É essa que é dividida / Entre a verdadeira e a errada. (Fernando Pessoa).
Este capítulo trata, principalmente, das informações obtidas durante as entrevistas realizadas com o grupo de mulheres envolvidas na pesquisa. Aqui apresentamos, de modo sucinto, a história de cada uma das sete entrevistadas, atentando para aspectos considerados essenciais para contextualizar a situação atual de vida delas. Tais aspectos têm o intuito de mostrar como vivem em seu cotidiano, como lidam com as atividades laborais, a industrialização de Horizonte, os estudos, o cuidado da casa e dos filhos, os costumes familiares e as experiências no projeto “Alinhavando Sonhos / Construindo Realidades”. Para intitular cada uma destas histórias, foram utilizados fragmentos de falas que caracterizam experiências, momentos ou opiniões de grande relevância para a vida delas.