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Landskapskarakter og reiselivs- reiselivs-profil - Parkeringsplass Eggum

SOBREVIDA”.

Nascida em Madalena, no interior do Ceará, Virgínia foi morar em Horizonte há 13 anos, sendo acompanhada logo em seguida pelos pais. Eles já tinham parentes morando no distrito de Queimadas e a busca por emprego, estudo e novas oportunidades foram os motivos que levaram todos à transferência de cidade. A entrevistada comenta que esse tipo de mudança para Horizonte é muito comum, pois as pessoas vão se inserindo nas fábricas, constituindo suas famílias e influenciando seus conhecidos a fazerem o mesmo.

Virgínia acha interessante morar em um lugar que já foi um quilombo. Mesmo não conhecendo bem a história dessa descendência, revela que é bom morar em uma comunidade quilombola e sente-se fazendo parte dela por conta da convivência. Porém, a moradora não é associada à ARQUA e não sabia nada sobre as origens da população local até participar do projeto “Alinhavando Sonhos / Construindo Realidades”. Ela considera que as mudanças advindas a partir do reconhecimento oficial do território quilombola e as oportunidades de emprego e profissionalização que têm surgido fazem com que as pessoas queiram dizer que são constituintes desse contexto, pessoas que antes negavam qualquer descendência.

Outra observação dela sobre essa questão diz respeito à diminuição, a seu ver, das atitudes de preconceito e racismo, que ocorriam de forma mais forte entre os próprios moradores. Atualmente, Virgínia diz que o preconceito ainda existe, mas de forma “velada”. Sobre as visitas constantes de pessoas de fora, Virgínia as considera positivas, uma vez que “contribui pro bem do município”.

Aos 33 anos, Virgínia mora em casa própria e com os filhos, pois está separada do companheiro há cerca de um ano. Ela relata que “morar sozinha com dois filhos pra cuidar é a coisa mais difícil que eu já vi na minha vida. Não é fácil, mas é um aprendizado, não tem só parte ruim, não”.

Para a manutenção da casa, o ex-marido contribui financeiramente com a alimentação, enquanto que ela recebe ajuda dos pais e realiza atividades diversas para arcar com todas as outras despesas, além de estudar à noite para concluir o Ensino

Médio. Suas palavras revelam a situação difícil do seu cotidiano: “Eu não sei como, mas eu me viro! Eu faço salgado aqui e acolá pra vender. E a gente vai se virando”.

Nos primeiros anos de moradia em Horizonte, Virgínia trabalhou por poucos meses na Sapatos e, apesar de haver sido demitida há quase dez anos, deseja muito uma outra oportunidade de emprego na empresa: “Eu sou louca pra voltar pra lá! Mas eu ainda não consegui voltar, ainda tô atrás, mas não desisti ainda não. Eu só quero se for lá! Eu tô brincando, com certeza se tivesse outra oportunidade eu queria”. Ela critica as pessoas que lá trabalham e que reclamam das condições oferecidas:

Hoje você vê pessoas que dormem no SINE12, se for o caso, pra arranjar

uma carta pra Sapatos, aí se esforçam, fazem de tudo pra ir pra lá. Quando dá dois meses, três meses que tão lá, começam a reclamar, porque trabalham demais, porque a comida é ruim. Então, reclamam de mal-agradecidos que são, eu vejo dessa forma. Você batalha por um trabalho, quando consegue, fica reclamando.

Virgínia acha positivo o fato de as empresas darem prioridade aos moradores horizontinos no momento da contratação: “Nós temos emprego pra população do Horizonte, principalmente com relação às mulheres, porque nem todas as empresas dão oportunidade pras mulheres. No caso, a Sapatos é uma das que mais dá oportunidade”. A continuação dessa fala apresenta ainda um lugar importante que a Sapatos tem no imaginário dessas mulheres de Horizonte: é a principal porta de entrada, senão a única, para as mulheres no universo fabril. “Pra mim esse é um dos pontos mais positivos que eu vi acontecendo aqui depois desse tempo. É realmente a oportunidade de emprego que nós temos”.

Quando questionada sobre os seus objetivos e planos para o futuro, Virgínia afirma que “queria ter uma vida mais tranqüila, [...] um trabalho que me desse a estabilidade que eu preciso”. Por qualidade de vida, Virgínia entende que:

É você poder oferecer pra sua família uma vida estável, sem você ter que ter aquela correria, sem ter que me preocupar, por exemplo, se eu vou ter dinheiro pra pagar uma água, uma luz, as minhas contas do mês eu vou poder pagar. [...] Porque a correria que a gente vive, contando coisas, se vai dar ou não vai dar, isso pra mim não é vida, é uma sobrevida.

12 O Sistema Nacional de Empregos (SINE) é um programa do governo federal, coordenado pelo MTE,

que tem como missão “contribuir de modo ativo e permanente com o processo de desenvolvimento econômico e social do Ceará, participando da formulação e implementação de políticas públicas que assegurem a expansão do volume de emprego no Estado e possibilitem a adequação da força de trabalho aos espaços ocupacionais ofertados pelos diferentes setores da economia”.

Nos seus anseios, Virgínia insere logo aquilo que deseja para os filhos, que consiste em que eles não precisem passar por tudo aquilo que ela passou. Quando tinha a idade da sua filha de 12 anos, por exemplo, Virgínia disse que:

Já trabalhava nas casas de pessoas, porque realmente era preciso, porque onde a gente morava, o trabalho do meu pai não era seguro e o meu pai não podia me dar aquilo que eu precisava [...] Então eu não quero que ela precise fazer isso. Eu quero ter uma estabilidade que dê a ela a oportunidade de estudar e arranjar uma coisa boa pra ela futuramente.

Assim, com relação aos filhos, Virgínia fala sobre planos distintos da sua experiência de vida: apenas, em último caso, gostaria de vê-los em funções como a que desempenhou na Sapatos, porque considera que “os jovens de hoje têm oportunidade tão maiores que a gente tinha que eles podem arranjar uma coisa melhor [...], se eles se prepararem bem. A Sapatos, ela tem umas oportunidades para o jovem que tá se preparando direitinho”.

Até certo momento da entrevista, Virgínia demonstrava que estaria satisfeita se conseguisse um emprego que lhe desse estabilidade. Contudo, ao ser questionada sobre o trabalho dos seus sonhos, seu discurso começou a mudar:

Eu acho que dificilmente você trabalha com o trabalho dos sonhos, eu acho que as oportunidades vão surgindo e você vai aproveitando. Trabalho dos meus sonhos, eu queria trabalhar pra mim, eu não queria trabalhar pros outros [...] Eu vendo pra pessoas e ganho por comissão. Eu sou muito boa de vender, por isso o sonho de botar um negócio pra mim. [...], mas isso é tão difícil! [...] Nesse momento da minha vida eu não vejo a menor possibilidade de isso acontecer,[...] porque eu tenho que passar ainda muita coisa.. É tão distante, que no momento, uma Sapatos funcionava.

O projeto “Alinhavando Sonhos / Construindo Realidades” é percebido por Virgínia como uma grande oportunidade que foi oferecida a ela e ao grupo para aprender várias coisas, além de costurar, mas que poderia ter sido melhor aproveitada por todas que dele participaram: “Nós poderíamos ter aprendido mais, no caso, de proveito pra gente, entendeu? Porque o projeto deu essa oportunidade pra nós”. Outro ponto enfocado foi sua esperança em ser encaminhada pela equipe do projeto para a Sapatos, pois o que Virgínia realmente quer é uma vaga nesta empresa.

No seu tempo de moradia em Horizonte, Virgínia já vislumbrou várias mudanças na cidade, principalmente no tocante à educação. Ela cita o transporte para os alunos que moram longe como uma das principais facilidades encontradas, além do

ensino de qualidade, dos professores de Fortaleza, da existência de creches e do ensino da história do município nas escolas. Contudo, ela acha que são as oportunidades de trabalho mesmo que atraem as pessoas e fazem que elas permaneçam no distrito industrial: “Porque o município dá possibilidade de trabalho, seja qual for a família, e o trabalho dá a segurança que as famílias precisam, que isso a gente não tinha lá onde a gente vivia”.