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La Morfología Distribuida y la Nanosintaxis

Para construir e configurar sentido, isto é, semiotizar, são necessários dois processos, segundo Charaudeau (2005)89: de transformação, em que o sujeito age e transforma o “mundo a significar” em “mundo significado”; e de transação, no qual os sujeitos fazem desse “mundo significado” um objeto de troca com outro sujeito. O primeiro compreende quatro operações e o segundo, quatro princípios (QUADRO 3).

89 Texto não paginado. Disponível em: http://www.patrick-charaudeau.com/Uma-analise-semiolinguistica-

Quadro 3– Processos de construção e configuração do sentido

TRANSFORMAÇÃO TRANSAÇÃO

Operações Princípios

Identificação Apreender, conceitualizar e nomear o mundo e seus seres

Alteridade Ato de linguagem é troca entre parceiros que desempenham um papel, reconhecem-se, partilham universos de referência e finalidades Qualificação Caracterizar/descrever o

mundo fenomênico e seus seres

Pertinência Os saberes implicados no ato de linguagem devem ser pertinentes à situação e à finalidade do processo Ação Seres agem e sofrem ação Influência O sujeito visa a atingir seu

parceiro que sabe ser alvo de influência

Causação Seres agem e sofrem ação em razão de algum motivo

Regulação Os sujeitos recorrem a estratégias para que a troca se efetive, regulando o jogo de influências

Fonte: quadro elaborado pela autora com base em Charaudeau (2005)90

A partir dessas definições, podemos compreender quais são os principais elementos para se entender o ato de linguagem ou de comunicação conforme a abordagem semiolinguística, isto é, como um encontro dialético entre o processo de produção e o de interpretação, situados em um espaço de fala e psicossocial, como esclarece Santos (2000). Esse intercâmbio pode ser percebido quando Charaudeau (2005) trata do princípio de alteridade, que situa os sujeitos da troca comunicativa estruturada em dois espaços de significância: um externo, onde se encontram o sujeito comunicante e o interpretante (seres sociais, interlocutores); e outro interno, em que estão o sujeito enunciador e o destinatário (seres de fala, intralocutores), como já mencionamos.

Esses sujeitos precisam se reconhecer e, para tanto, devem compartilhar saberes, além de terem motivações comuns. Sem essa reciprocidade, o ato de linguagem não tem validade, pois é ela que fundamenta seu aspecto contratual. Logo, se esses saberes são partilhados, eles deverão ser pertinentes tanto à situação de comunicação, quanto à intenção do sujeito, que constrói seu projeto de fala levando em conta esse contrato. Assim, o princípio de pertinência confirma o aspecto contratual. No caso do nosso corpus, O Globo publica as fotografais

90 Texto não paginado. Disponível em: http://www.patrick-charaudeau.com/Uma-analise-semiolinguistica-

jornalísticas tendo em mente as características de seu público alvo, o qual já possui um horizonte de expectativas em relação ao tipo de abordagem que o jornal costuma conferir às informações (sejam verbais ou visuais) que veicula. Assim, todas essas instâncias, ao se envolverem no ato de linguagem, partilham saberes e, a princípio, estariam de acordo com o contrato da situação de comunicação.

Seguindo esse raciocínio, ter um projeto de fala significa portar uma intenção. Portanto, o sujeito pretende atingir o parceiro da troca. Mas, como este sabe que é alvo de influência, existem restrições a essa influência. Para que a troca se efetive, mesmo com tais restrições, os sujeitos buscam então estratégias, possíveis escolhas para a mise en scène do ato de linguagem. No caso de fotos jornalísticas, tais estratégias podem estar ligadas a escolhas de elementos da linguagem fotográfica, do tema retratado, dos imaginários partilhados, por exemplo, que possam contribuir para o sucesso do projeto de fala. Há, por exemplo, limites para expor fotos de tragédias, delimitados pela maior ou menor tolerância do público, como mostram estudos de Lester (1999)91.

Desses princípios da transação, dependem as operações de transformação, pois os sujeitos – que partilham universos de referência comuns – apreendem, conceituam, nomeiam, caracterizam, descrevem o mundo e seus seres, bem como suas ações e as relações de causalidade, em dada situação de comunicação, regida por um contrato, que pressupõe tanto restrições quanto possibilidades de manobras para se atingir o objetivo da troca comunicativa.

Em resumo, a construção do sentido, especificamente na comunicação midiática (que é o caso de nosso estudo), realiza-se por meio desse duplo processo de transformação e transação:

Nesse caso, o “mundo a descrever” é o lugar onde se encontra o “acontecimento bruto” e o processo de transformação consiste, para a instância midiática, em fazer

passar o acontecimento de um estado bruto (mas já interpretado), ao estado de

mundo midiático construído, isto é, de “notícia”; isso ocorre sob a dependência do

processo de transação, que consiste, para a instância midiática, em construir a notícia em função de como ela imagina a instância receptora, a qual, por sua vez, reinterpreta a notícia à sua maneira. Esse duplo processo se inscreve, então, num contrato que determina as condições de encenação da informação, orientando as operações que devem efetuar-se em cada um desses processos. (CHARAUDEAU, 2010a, p. 114)

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Lester (1999) apresenta vários exemplos de situações em que leitores reagiram a imagens consideradas por eles ofensivas. Nossa referência é a versão digital, de 1999, do livro editado em 1991 pela Lawrence Erlbaum Associates, Publishers, Hillsdale, New Jersey.

É a partir da compreensão desse mecanismo que Charaudeau (2005, 2010a) entende de que maneira, a partir de uma materialidade linguageira, os sentidos podem ser construídos e configurados. E é esse processo que temos interesse em estudar, ao analisar imagens fotográficas. Dessa forma, ao partirmos para o estudo do corpus, temos que considerar a finalidade da instância de produção – jornal O Globo – ao veicular imagens de favelas cariocas; em que situação social e histórica isso ocorre e quais são os papéis sociais desse produtor no contexto enunciativo. Inserido no espaço midiático da imprensa, o veículo se apoia em uma linha editorial, regida por interesses tanto sociais quanto mercantis e ideológicos, que orientará suas produções.

Outro fator importante é que, a partir do momento em que o autor da teoria Semiolinguística valoriza as circunstâncias sociais em que ocorre o ato de linguagem e são produzidos os discursos, torna-se essencial considerar também as circunstâncias históricas dessa mise en scéne, como recomenda Santos (2000). Assim, temos que compreender como a favela se situa social e historicamente nesse contexto (vide capítulo 2) e quais representações sociais e imaginários seriam compartilhados, produzidos, reforçados ou modificados por e nos discursos elaborados sobre esses locais e seus moradores (vide item 3.4).