6 La mère comme figure du vieillissement
6.2 La mère dans Un Barrage contre le Pacifique
O texto La forme termina com a transcrição da discussão feita após a apresentação da conferência de Benveniste. Participaram dessa discussão: Paul Gochet, lógico belga, professor emérito da Universidade de Liège; Martial Gueroult, francês historiador da filosofia; Chaïm Perelman, lógico polonês, fundador da Nova Retórica; Jean-Claude Piguet, escritor suíço; e Paul Ricoeur, filósofo francês. É importante, pois, considerá-la neste texto porque permite compreender melhor o objeto e o método da Semiótica e da Semântica.
Gochet pergunta se haveria diferença entre frase e enunciado. Na Filosofia Analítica, frase – “sentence” - teria um caráter abstrato, portanto, seu valor de verdade seria o mesmo em qualquer tempo verbal que lhe fosse atribuído; o enunciado – “statement” – teria um caráter concreto, seu valor de verdade dependendo, pois, do tempo verbal, de seu uso. Quer saber, então, se a frase estaria para o modo semiótico e se o enunciado, para o modo semântico. Benveniste responde que para ele não há diferença entre frase e enunciado, e inclusive define frase como “énoncé de caractère nécessairement sémantique”212. Quer se
utilize a palavra “enunciado” ou “frase”, estar-se-á referindo ao que está para o modo semântico da língua. Quer essa frase seja uma menção, ou de qualidade reportada, ou uma regra gramatical, ela já está semanticamente enformada. No modo semiótico, não é possível haver frase, já que as unidades semióticas estão para o paradigma.
Gueroult insiste sobre a questão da menção, afirmando que uma citação seria frase (no sentido da Filosofia Analítica) por ser uma afirmação tomada em favor de alguém; portanto,
com valor abstrato. Gochet faz a ressalva de que uma frase que enunciasse um exemplo da gramática – “sentence” – não poderia ser tomada como enunciado – “statement” – por ela não ser atribuída a ninguém em particular. Benveniste admite não ter discutido devidamente essa questão e afirma poder considerá-las um material de enunciados fixos sob a forma escrita, isto é, frases que já estão funcionando no modo semântico, mas que possuem um caráter permanente, não-pessoal.
Em seguida, Perelman diz que os lógicos colocam a Sintaxe, a Semântica e a Pragmática na Semiótica e interroga o porquê de Benveniste não fazer essa divisão tripla. Ao que Benveniste responde:
Si je ne me trompe, la notion de syntaxique, la notion de sémantique, la notion de pragmatique sont les trois ordres de notions auxquels les logiciens en général adhèrent. Ces trois notions constituent un ensemble qui est tout autrement articulé que ce que la langue en elle-même permet de concevoir. Ensemble ou séparément, elles appartiennet exclusivement au domaine qui est, dans ma terminologie, celui du sémantique. (BENVENISTE, 1974, p. 233)213
Como a Lógica não tem como objetivo estudar a língua por ela mesma, essa tripla divisão pode ser aí bem fundamentada. Entretanto, na Linguística, em que a preocupação é de ir até os fundamentos, essa divisão não se justifica, uma vez que o que os lógicos chamam de semântico, de pragmático e de sintático o que já está para a ordem do sintagma e, portanto, do modo semântico.
Por esse motivo, Benveniste chama a atenção para o fato de que a noção de sintaxe tem a ver necessariamente com estrutura, não com sistema, não podendo, então, ter um caráter universal, como o é tomado na Lógica, dado que ela depende das leis de combinação de um idioma particular. Além disso, não é necessário distinguir a Semântica – que, na Lógica, refere-se à relação entre as palavras e as coisas – e a Pragmática – ao jogo de relações entre aqueles que se servem da língua, o locutor e o interlocutor – dado que a língua considerada como realização no modo semântico já pressupõe um locutor e uma situação que se relaciona ao mundo, seja a coisa no mundo ou um outro locutor.
Perelman afirma que a sintaxe comportaria mais do que ele havia dito, mais que uma simples concatenação entre signos. Ora, a sintaxe, estando para o modo semântico, não é uma simples concatenação entre signos, mas compreende o agenciamento entre palavras. De
213 “Se não me engano, a noção de sintaxe, a noção de semântica, a noção de pragmática, são as três ordens de
noções às quais os lógicos em geral se aderem. Essas três noções constituem um conjunto que é articulado de outra maneira que não a que a língua, nela mesma, permite conceber. Em conjunto ou separadamente, elas pertencem exclusivamente ao domínio que é, na minha terminologia, o do semântico”.
qualquer forma, ele ainda diz compreender que a Semântica, na Linguística, possui outro caráter que na Lógica, já que o linguista não se interessa pelos valores de verdade.
Sobre a análise e a síntese do modo semântico, Piguet assevera, tomando essas palavras como se fossem as de Benveniste, que “le sens de la phrase équivaut à la totalité de l’idée, perçue sémantiquement; la forme de la phrase en revanche est donée par la dissociation de cette totalité en unités sémiotiques ou par la composition d’unités sémiotiques indépendantes”214. Como vimos até aqui nesta dissertação, tanto a análise quanto a síntese no
modo semântico implicam unidades semânticas, as palavras, não as unidades semióticas, os signos. De qualquer forma, ele pergunta se a Semântica compreende um método analítico e se a Semiótica, um método global não-analítico. Benveniste responde que realmente há duas Linguísticas distintas. Porém, não saberia dizer em que consistiriam os métodos de uma e de outra, por ainda estar no começo da grande reconstrução na qual ele insere a Linguística.
Ricoeur faz a intervenção de que essa bipartição da Linguística traria consequências filosóficas importantes, como a questão da “clôture” do universo linguístico. Referindo-se aqui ao mundo dos signos, ele pergunta, a partir das considerações de Chomsky, se o semiótico, como o semântico, não poderia ser prolongado à ordem sintagmática e se se poderia falar tanto de uma Semântica quanto de uma Semiótica da frase. Benveniste replica novamente que a frase não pode estar no modo semiótico, em que, por mais matemáticos que sejam os procedimentos adotados, “[ils] visent en définitive des réalisations. Nous ne cessons pas d’être dans le sémantique”215. E assevera que o princípio estrutural da língua, os
mecanismos gramaticais gerados pelo sistema, não está propriamente nem no modo semiótico nem no modo semântico, uma vez que a significação aí não intervém. Isso implica dizer que falar de gramática de uma dada língua não implica falar de agenciamento sintático diretamente. A estrutura específica de uma língua, que Benveniste chama de necessidade idiomática, está para outra ordem, que ele não chega a dissertar profundamente.
Outro congressista, cujo nome não é apontado, pergunta sobre a relação entre Lógica e Semiótica. Benveniste responde que a Linguística não tem a necessidade de pensar a questão dos valores de verdade; portanto, nesse sentido, a Lógica não se relacionaria à Semiótica. E finaliza dizendo que “quant à la place du sémiotique, je crois que c’est un ordre distinct, qui
214 PIGUET apud BENVENISTE, 1974, p. 235: “o sentido da frase equivale à totalidade da ideia, percebida
semanticamente; a forma da frase, em contrapartida, é dada pela dissociação dessa totalidade em unidades semióticas ou pela composição de unidades semióticas independentes”.
215 BENVENISTE, 1974, p. 237: “[eles] concernem, em definitivo, a realizações. Nunca cessamos de estar no
obligera à réorganiser l’appareil des sciences de l’homme”216. Ele admite que suas
considerações tenham impactos importantes para a ciência. No entanto, como elas estão apenas no começo, ficaria difícil discorrer sobre mais desdobramentos possíveis.
4. EM RESUMO
Neste capítulo, discutimos do décimo primeiro ao vigésimo oitavo parágrafo do texto La forme, como também a discussão que sucede o texto, parágrafos 34 a 55. O tema principal foi a diferença existente entre a análise das entidades livres, os signos, e da frase, no discurso, isto é, em que consistem a Semiótica e a Semântica para Benveniste.
A Semiótica tem como objeto de estudo a estrutura fonemática do significante. Por ser estrutura, ela está ligada a uma língua em particular. O aspecto fonemático implica analisar a função que um determinado segmento da imagem acústica preenche no signo. Como essa segmentação só é possível por meio do significado, estudar a estrutura fonemática do significante não implica estudá-lo isolada daquele. Com isso, é possível compreender o funcionamento do signo no paradigma, no que se refere aos sêmio-fonemas, aos sêmio- categoremas ou aos sêmio-lexemas.
A Semântica tem como objeto a frase. A frase implica sentido e referência, tanto dela mesma quanto das palavras que a compõem. O sentido das palavras é o seu emprego, isto é, as circunstâncias de uso, o valor, na frase; e a referência, a coisa significada pela língua a que se refere. Já o sentido da frase é a ideia que se produz na e pela coaptação das funções proposicionais das palavras, e a referência, a situação de discurso. Por discurso, compreendemos o ato em que o locutor maneja a língua, o que Benveniste também chama de enunciação ou alocução, já que sempre pressupõe um alocutário. Ademais, discurso pode ser a manifestação da enunciação, como também um modo específico de manifestação – o enunciado em que apenas o eu é implicado. Assim, a situação de discurso são as circunstâncias (materiais ou mentais) em que esse ato é realizado.
Consequentemente, Benveniste não faz a tripla divisão da Linguística em Sintaxe, Semântica e Pragmática, como o fazem os lógicos, por defender que os linguistas devem se interessar pela articulação semântica, que faz compreender a natureza da língua, e não por valores de verdade.
216 BENVENISTE, 1974, p. 238: “quanto ao lugar do semiótico, creio que seja de uma ordem distinta, que
Como, neste capítulo, discutimos teoricamente os fundamentos da Semiótica e da Semântica, no próximo, problematizaremos as questões envolvidas em torno do nosso objeto de pesquisa e do nosso objeto de estudo para justificar os pressupostos benvenistianos de que nos utilizaremos para fazer a análise do corpus.