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2   Réflexions méthodologiques

2.3   La Grounded theory

Outra posição-sujeito construída nesse discurso educacional-pedagógico é o de professor como observador:

SD35

Observador: [...] O professor deveria ser capaz de observar e canalizar as reações que ocorrem no grupo, bem como exercer uma observação sobre o processo de aprendizagem de cada indivíduo, isto é, das estratégias de aprendizagem do aluno. (SÃO PAULO, 1986, p. 19, grifos meus)

A representação em SD35 nos remete à ideia de Panóptico, de Bentham, apropriadamente discutida e disseminada por Foucault ([1975] 2000a). O Panóptico refere-se a uma concepção arquitetônica, especialmente criada para a construção de penitenciárias, no século XVIII, que, por meio de um observatório central, seria possível ver todos os locais onde ficavam os presos. Foucault, assim, define este espaço como um dispositivo disciplinar, que visava a:

[...] induzir no detento um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento autoritário do poder. Fazer com que a vigilância seja permanente nos seus efeitos ... que a perfeição do poder tenta tornar inútil a atualidade do seu exercício... (FOUCAULT, ([1975] 2000a, p. 166)

A posição-sujeito de “observador” parece apresentar a evidência de neutralidade. O “observador” é aquele que está de fora do discurso: o onisciente, o onipresente e o onipotente. Também, remete a uma filosofia de educação positivista, em que o sujeito observa seu experimento (professor observando seu aluno) no laboratório (sala de aula), de modo a produzir um efeito de neutralidade, sem que haja a interferência de sua cultura e de suas concepções no objeto analisado. Como se essa possibilidade permitisse a separação de sujeito e objeto.

Essa posição-sujeito representa o desejo da imparcialidade, da supremacia da razão e da objetividade. Ao colocar o sujeito-professor nesta posição, o discurso deixa entrever, “num jogo entre o dito e o silenciado”, conforme Lima (2003, p. 259), a figura de controlador, que, em tese, se exerce com a observação. A questão silenciada pode estar relacionada à capacidade de o sujeito-professor exercer essa posição. Na formulação “o professor deveria ser capaz”, podemos recuperar, por meio da paráfrase, o sentido o professor não é capaz, pois a construção modalizada exerce a função de exprimir a posição do enunciado dividido, portanto, contraditório, em relação ao que se enuncia.

Essa posição-sujeito “observador” pode ter relação com o que Foucault (1988) chama de tecnologias do eu, que contribuem para a subjetivação do indivíduo. As tecnologias do eu:

[...] permitem aos indivíduos efetuar por meios próprios ou com a ajuda de outros um certo número de operações sobre seus próprios corpos, almas, pensamentos, conduta e modo de ser, para que se transformem a fim de alcançar um certo estado de felicidade, pureza, sabedoria, perfeição ou imortalidade. (FOUCAULT, 1988)

Nesse sentido, o professor é convocado a observar os processos interiores do aluno, com clara hierarquia que posiciona o sujeito-professor como aquele que tudo vê. Na posição de “observador”, o sujeito-professor alcançaria essa sabedoria sobre “o processo de aprendizagem de cada indivíduo”, tendo domínio sobre seu corpo, mente etc. e alcançando um patamar de controle para atingir a perfeição do aprendizado.

Nessa esteira, é interessante observar o funcionamento da representação do sujeito-professor “observador” e avaliador62 articulado ao de orientador, na próxima sequência discursiva:

SD36

[...] compreender o papel docente como de orientador e, portanto, como parte do processo de aprendizagem – o que vai além do papel de mero observador e corretor de erros [...] (BRASIL, PCNs+LEM, p. 127, grifos meus)

Na SD36, o enunciado é parte de uma lista topicalizada do que seja ou significa avaliar bem em língua estrangeira. Tomando por base o sentido de pressuposto como algo que se supõe antecipadamente, o discurso do DOPLE-inglês reitera a posição- sujeito de “observador” e “corretor de erros”. Essas posições-sujeito continuam constituindo o imaginário. Ao enunciar “o que vai além do papel de mero observador”, o discurso educacional-pedagógico reifica e cristaliza a imagem que constrói do sujeito-professor.

Voltando à posição-sujeito “observador”, uma vez controlados o corpo e a mente, tal como sugere o Panóptico, o sujeito-professor está apto a assumir a posição identitária de organizador, o que nos remete à ideia de que, se havia algo fora da ordem, agora, essa ordem poderá ser restabelecida.

SD37

Organizador: Dentro de uma metodologia dirigida em função da progressão gramatical, em geral as atividades da aula de línguas obedecem a esquemas mais rigorosos no que se refere à seleção dos pontos a serem ensinados. Na medida em que se trabalha com uma metodologia centrada nas necessidades de comunicação e não com um elenco de itens linguísticos, o professor deixa de ser o centro, o controlador absoluto e assume a função que é mais de orientação e organização das estratégias e atividades que induzirão o aprendizado. Sua própria experiência de vida e de educação transformar-se-á em fonte valiosa de conhecimento para o aluno. O professor ajudará

o aluno a se organizar para trabalhar bem em aula e em casa. (SÃO PAULO, 1986, p. 19-20, grifos meus)

Em SD37, a posição-sujeito parece ter relação com a de observador no sentido de ser aquele capaz de definir, a partir do conhecimento das estratégias individuais de aprendizagem, por meio da observação, quais são as reais “necessidades de comunicação”. Ao pressupor essas necessidades, o sujeito-professor seria capaz de induzir o aprendizado de forma mais eficaz que o modelo anterior.

O modo de subjetivação/ objetificação empreendido pelo currículo vem construindo um sujeito-professor dotado de saber verdadeiro, portanto inquestionável, e que corrobora uma posição-sujeito assimetricamente com maior poder, como explicitado abaixo:

O professor é aquele que...

...procederá a atividades de [...] transmissão.

...direcionará o aluno no domínio de elementos linguísticos.

...intervirá no processo, a fim de dar aos alunos o material linguístico necessário.

...deverá ser capaz de observar os processos individuais de aprendizagem.

...ajudará o aluno a se organizar.

Em síntese, nas sequências analisadas, o professor “é mediador, é organizador, é observador, é avaliador”. Esse elenco de predicação produz um efeito de sentido que busca fixar a identidade do sujeito-professor. Esse funcionamento discursivo, presente nas referidas sequências, pode ser caracterizado como nominalização: ao descrever o sujeito-professor como “mediador”, atrelam-se ao sentido desse significante os dizeres nominalizados [a] “transmissão”, o “direcionamento”, caracterizando a predicação “mediador” como aquele que “intervém” (SD31) no processo de construção do conhecimento, recuperando o efeito de sentido que o significante intervenção veicula no domínio de uma formação discursiva investida pelo discurso ditatorial. O mesmo ocorre com as demais posições- sujeito, “observador, organizador e avaliador”. A todas essas predicações subjaz o efeito de sentido daquele que detém o poder sobre o outro, tornando esses modos de

subjetivação naturalizados, convocando o sujeito-professor a se posicionar nestes espaços discursivos, que guardam em sua memória a posição hierarquizada já-dita, já estabelecida entre sujeito-professor e sujeito-aluno.