Para muitos pesquisadores, a defesa de seus mestrados/doutorados repercute em novas e melhores oportunidades profissionais, acadêmicas e científicas, podendo influenciar ainda em aspectos de sua vida pessoal. Por isso, foi perguntado a cada entrevistado se as investigações e seus resultados impactaram de algum modo o seu cotidiano. O QUADRO 23a – Influência da pesquisa na vida pessoal, profissional, acadêmica e científica do entrevistado
63Este tópico possui duas análises que se complementam: a influência da pesquisa para a vida profissional do entrevistado e seu posicionamento quanto a continuidade da investigação sobre a ID. Os resultados foram divididos em dois quadros seguidos por comentários e trechos literais das entrevistas para fins ilustrativos. A análise completa do tópico será apresentada ao final desses resultados.
mostra o grau de envolvimento do pesquisador com seu objeto de estudo, bem como as oportunidades que o mesmo suscitou:
QUADRO 23a
Influência da pesquisa na vida profissional, acadêmica e científica do entrevistado
Mudanças imediatas no cotidiano do pesquisador Nº %
Crescimento profissional 5 20
Crescimento profissional e acadêmico 8 32
Crescimento profissional, acadêmico e científico 10 40
Não proporcionou nenhuma influência 2 8
Total 25 100%
Elaborado pela autora, 2010
Ainda que houvesse tênue delimitação nas categorias que refletissem a contribuição da pesquisa para a vida do entrevistado, foi possível identificar o perfil de cada um e apontar que o trabalho realizado proporcionou maiores e melhores oportunidades a 92% do total, conforme apresentado a seguir:
a) Crescimento profissional: apesar de não atuar academicamente, houve ascensão profissional para cinco pesquisadores, 20%, ao assumirem novas ocupações em decorrência de sua titulação.
b) Crescimento profissional e acadêmico: muitos entrevistados, oito no total, 32%, deram início às atividades de docência durante e após a realização das pesquisas. Outros que já atuavam, chegaram a ocupar cargos de destaque em coordenações de curso e/ou programas:
“Sou coordenador de um curso na área de tecnologia [...]. Mas eu gostaria de
quem sabe, no futuro, estar numa instituição maior, realmente voltada para a pesquisa, existem mais condições de trabalhar e divulgar o trabalho.” (Entrevistado 11)
c) Crescimento profissional, acadêmico e científico: entrevistados que já atuavam com a docência e se destacavam com publicações científicas ou pesquisas, dez ao todo, 40%, ampliaram suas atividades investigativas, não as limitando ao término do mestrado/doutorado:
"Na verdade, eu me sinto muito privilegiada, porque acho que foi uma grande
aqui no IBICT, tem muito a ver com isso. O meu balanço é muito positivo." (Entrevistado5)
“O mestrado foi de grande valia para minha atuação, ampliando meu
repertório teórico, metodológico e cultural, promovendo a oportunidade de
auxiliar a coordenar um curso de Licenciatura em Computação.”
(Entrevistado13)
d) Não proporcionou nenhuma influência: para um pesquisador, 8%, o título alcançado não proporcionou nenhuma modificação em suas atividades profissionais, conforme seu relato:
“Não, não ajudou nada diretamente no trabalho. Mas o que eu acho bom em
qualquer estudo é que você sempre aprende coisas novas ou revê coisas que você já viu. É uma boa atualização.” (Entrevistado 30)
Dificilmente um tema de pesquisa é trabalhado com profundidade em apenas um estudo a ponto de não ser necessário maior aprofundamento a respeito ou mesmo a consolidação do tema. As pesquisas aqui analisadas tendem a mencionar contribuições futuras a serem desenvolvidas por outros pesquisadores que não o próprio que a escreveu. Por isso, é valioso quando o investigador insiste no tema trabalhado em busca de respostas mais concretas a respeito. O QUADRO 23b – Posição futura quanto a manter-se envolvido na pesquisa/estudo sobre a ID mostra o direcionamento dos entrevistados pós-graduados e explicita os rumos que cada pesquisador segue/pretende seguir atrelado ou não às discussões sobre a ID:
QUADRO 23b
Posição futura do pesquisador quanto a manter-se envolvido na pesquisa/estudo sobre a ID
Planos futuros do pesquisador Nº %
Pretende consolidar seus conhecimentos acerca da ID
na CI 11 44
Pretende consolidar seus conhecimentos acerca da ID,
mas em outras áreas que não a CI 3 12
Pretende dar continuidade às atividades de
estudo/pesquisa, mas em outra temática 5 20
Abandono completo das atividades de estudo/pesquisa
sobre o tema 6 24
Total 25 100%
As respostas quanto a essa questão foram agrupadas da seguinte maneira:
a) Pretende consolidar seus conhecimentos acerca da ID na CI: as dúvidas suscitadas pelos resultados obtidos por onze pesquisadores, 44% do total, motivaram o entrevistado a prosseguir nos estudos sobre a ID, principalmente na CI – seja por identificar-se com a área ou por acreditar que é a mais indicada para analisar os aspectos da ID:
“Independente do que eu faça aqui, que tem a ver com inclusão, [...] a gente
tem projetos independentes daqui que eu continuo desenvolvendo com eles, a gente já desenvolveu um software educacional que está em vários municípios, não está em Brasília, mas está em outros, a gente tem desenvolvido conteúdos, enfim: tem sido um negócio bem legal.” (Entrevistado 5)
“Me vinculei com a universidade aqui de Colômbia, que tem um observatório
de Sociedade da Informação, me vinculei com a universidade de Columbia, em Washington. Aí eu passei minha pesquisa e enviei artigos. Além disso, eu fui professora virtual de políticas para governo em linha e também passei diferentes artigos para o Brasil, para o México, estou continuando na área, não tanto o quanto eu quisesse pelas minhas aplicações profissionais, mas continuo na área mesmo. (Entrevistado 6)
“Meu doutorado é uma continuidade do tema do mestrado, tendo como
motivação investigar mais a fundo quais as reais dificuldades que os surdos, em especial, encontram no acesso às informações em ambientes digitais.” (Entrevistado13)
b) Pretende consolidar seus conhecimentos acerca da ID, mas em outras áreas que não a CI: o entrevistado acredita que realizou uma análise profunda sobre a ID, mas que a CI não possui base suficiente para o aprofundamento do tema – o que justifica sua transferência para outras áreas do conhecimento a fim de obter resultados mais consistentes. Essa postura foi adotada por três pesquisadores, 12%:
“Por estar hoje na área da saúde, focado exatamente na área da saúde, eu
confesso que não posso mais me dedicar somente à inclusão digital pura e simplesmente. Inclusão digital onde, para quem, para quê? Essa minha inclusão digital é para a saúde. Mas eu estou muito feliz com tudo o que eu tenho feito, com os resultados da tese [...]. Eu continuo produzindo vestígios da minha tese.” (Entrevistado 1)
c) Pretende dar continuidade às atividades de estudo/pesquisa, mas em outra temática: para outros cinco pesquisadores, 20%, os resultados encontrados responderam ao seu problema de pesquisa e, aliado a isso, não manifestam mais nenhum interesse em dar continuidade às investigações científicas sobre a ID. Pretendem fazê-lo sobre outros temas de interesse:
“Meu orientador queria que eu seguisse nesse rumo, e no início continuei
nessa linha. Mas, eu teria que conseguir outro grupo para a coleta de dados e isso me deixou um pouco insegura. No decurso do meu doutorado [...] grandes mudanças ocorreram na minha vida. Com isso, me mudei de cidade e de trabalho. Então, surgiram outras frentes e reformulei o projeto inicial. Portanto, não sigo o mesmo tema.” (Entrevistado 29)
"Acho que eu já escrevi o que tinha pra escrever, hoje não escrevo mais [sobre
a ID]. Hoje eu tava pensando em fazer o doutorado em tecnologia, pensando não, vou fazer, já estou estudando para isso. É uma área que eu gosto bastante também, estou me voltando pra isso. Eu que meio que desgostei um pouco sabe [da ID], estou querendo novos desafios, acho que todo mundo chega numa hora que quer mudar um pouco os temas, estudar outras coisas." (Entrevistado 28)
d) Abandono completo das atividades de estudo/pesquisa sobre o tema: seja por motivos pessoais, profissionais ou por vontade própria, o abandono da pesquisa é uma realidade para seis, 24% dos egressos dos PPGCI analisados:
Minha vida mudou totalmente e eu acabei deixando a pesquisa de lado. Já
tinha me mudado e eu voltei pra Brasília só para a defesa. Depois eu vim pra cá e a minha vida mudou de rumo [...] e eu abandonei na verdade, não dei continuidade. Tenho vontade de voltar, de continuar, de apresentar. Mas eu não dei sequência.” (Entrevistado 3)
“Em relação ao meu trabalho, não tenho dado continuidade a pesquisa. Hoje
estou focada na minha atuação como jornalista.” (Entrevistado 24)
“Quanto a continuidade, pretendo dar, mas não agora. Quero mesmo é aplicar
um pouco do que estudei, não ficar apenas na teoria.” (Entrevistado 31)
As considerações sobre esse tópico abrangem duas particularidades comuns a qualquer investigação transformando-se num questionamento único: o que muda na vida de um pesquisador ao término de seu trabalho? Ao iniciar uma pesquisa como as de um mestrado e doutorado, a única certeza que o pesquisador possui é o prazo limite que terá para concluí-la. Sua trajetória e implicações só poderão ser percebidas após o distanciamento de todo o trabalho realizado. De imediato, na opinião dos entrevistados, as modificações mais nítidas estão relacionadas às novas oportunidades de trabalho decorrente da titulação recebida. Do grupo entrevistado, oito deram prosseguimento aos estudos e pesquisas através do doutorado. Para alguns pesquisadores, contudo, seu envolvimento com a pesquisa ultrapassou os limites da investigação e tornou-se uma experiência de vida, suscitando modificações em seu cotidiano – o que mostra que por mais científica que seja, o impacto de uma pesquisa pode ir além dos resultados publicados.