5. Empirisk modellering
5.1 Lønnsdannelse i industrien (K)
A religiosidade e a teologia são aspectos fundamentais na vida pessoal e na formação intelectual do jovem Heidegger. Sua formação católica e seu vínculo religioso são determinantemente influentes na construção de suas investigações iniciais e decisivos para a compreensão do seu projeto de elaboração de uma fenomenologia da vida religiosa, na época dos cursos de Freiburg. A investigação da vida humana faticamente vivida, em sua historicidade imediata e pré-teórica, acarreta uma profunda problemática pessoal e religiosa, sobretudo no que diz respeito aos laços confessionais católicos, o financiamento dos estudos e a orientação teológica neo-escolástica.
Martin Heidegger nasceu aos 26 de setembro de 1889, em Messkirch89. É o primeiro filho de uma família eminentemente católica que conservou lealdade à Igreja romana, de forma inabalável, mesmo durante os períodos de grandes controvérsias. Seu pai, Friedrich Heidegger, era sacristão da Igreja. Por ocasião do Concílio de Roma, em 1870, na região de Baden, surgiu o movimento dos católicos liberais, que rejeitaram a proclamação do dogma da infalibilidade papal. Esse grupo, os “católicos antigos” (altkatolisch), considerava-se moderno e tratava “os romanos” como gente simplória, atrasada e limitada, presa a costumes eclesiásticos autoados. Por conta desse conflito, desde cedo, “vivenciou uma atmosfera de profundo contraste entre tradição e modernidade”90.
Sua infância está envolvida pela atmosfera do cristianismo. Martin auxiliava seu pai nos serviços religiosos. Em um texto próprio, de 1954, recolhido por Peter Trawny, observamos o ambiente camponês religioso:
Logo cedo, nas manhãs de natal, por volta das seis e meia, os meninos tocadores de sino de Messkirch, após o bolo e o café com leite, servidos pela mãe sacristã, iam tocar os sinos na torre da Igreja de Saint Martin. Essa hora encantada repetia-se ao longo do ano, compondo-se assim uma fuga misteriosa que perpassava as festas eclesiásticas, as vigílias, o andamento das estações e as horas cotidianas matinais e vespertinas91.
Em 1903 Heidegger ingressou no internato jesuíta do Liceu de Constança92. A formação ginasial foi sustentada por uma bolsa de estudos, financiada pelo pároco de sua cidade, Camilo Brandhuber e por Conrad Gröber. Nesse ambiente, Heidegger se depara com uma visão progressista e liberal, democrática e anticonfessional. De acordo com o biógrafo Safranski, o internato procurava manter seus alunos imunizados do espírito livre da escola. Os internos, sob vigilância constante, recebiam formação clássica, cultural e apologética, sendo preparados para lidar com os “mundanos” do ambiente burguês liberal93.
Com o auxílio de outra bolsa de estudos, em 1906, Heidegger se transfere para o internato do ginásio jesuíta de St. George, em Freiburg, onde frequenta o ginásio Bertold94. Diferentemente de Constança, Freiburg conserva uma atmosfera tradicional, e se estende ao redor da catedral de estilo gótico. Permanece ali por três anos e orienta seus estudos para o serviço eclesiástico, sem sentir-se atraído pelas tendências modernas.
89 Cf. HEIDEGGER, M. Vita, p. 41. 90 SAFRANSKI, R. Heidegger, p. 32. 91 TRAWNY, P. Martin Heidegger, p. 31.
92 Cf. HEIDEGGER, M. Lebenslauf (Zur Habilitation 1915), p. 37. 93 Cf. SAFRANSKI, R. Heidegger, p. 37.
Em 1909, aos vinte anos, Heidegger se sente inclinado para a vida religiosa, e ingressa no noviciado dos jesuítas, em Feldkirch, na Áustria. Poucas semanas depois, reclamando problemas cardíacos, é aconselhado a retornar para casa. Posteriormente, ingressa no seminário arquidiocesano de Freiburg e inicia, no semestre de inverno de 1909, seus estudos na Faculdade de Teologia da Universidade Albert Ludwig95. Nessa época, desperta um interesse vivo pela teologia católica, de orientação escolástica. Em seu escrito Meu caminho
para a fenomenologia, faz referência à influência do teólogo C. Braig, um dos últimos expoentes da Escola Católica de Tübingen96. Estudou a fundo seu livro Vom sein. Abriss der
Ontologie, de 1896. As sessões maiores do texto lhe traziam, no fim, passagens sobre Aristóteles, Tomás de Aquino e Suarez, além da etimologia das palavras designantes dos conceitos ontológicos fundamentais. Braig ter-lhe-ia transmitido a consciência da tensão entre ontologia e teologia, presente na estrutura metafísica. Despertou-lhe a atenção crítica para o conflito entre a escolástica, baseada no primado do ser, e o modernismo, orientado pela teoria do conhecimento. Mesmo após sua transferência da faculdade de teologia para a de filosofia, em 1911, continuou freqüentando as aulas de teologia.
Na faculdade de teologia, além das disciplinas teológicas e exegéticas, Heidegger estuda disciplinas filosóficas, tais como lógica, metafísica e história97. Entretanto, as preleções não o satisfaziam muito, de modo que apelou para estudos pessoais de livros sobre a doutrina escolástica. Eles proporcionaram certa formação lógico-formal, mas no aspecto filosófico não lhe oferecem o que procurava. Exausto, sente o retorno dos problemas cardíacos. Em situação extremamente delicada, interrompe seus estudos teológicos e abandona definitivamente o propósito da vida clerical98.
Conforme relata em seu Lebenslauf, Heidegger começa, então, os estudos de matemática e ciências naturais99. Ao mesmo tempo, continua a leitura das obras de Husserl:
Logische Untersuchungen, Philosophie der Arithmetik e Philosophie als strenge
Wissenschaft. Ao abandonar os estudos teológicos, em 1911, tem interesse em estudar com Husserl, em Göttingen, pois seu livro Philosophie der Arithmetik lançou nova luz sobre a
95 Cf. HEIDEGGER, M. Vita, p. 41.
96 HEIDEGGER, M. Meu caminho para a fenomenologia, p. 495. 97 Cf. HEIDEGGER, M. Vita, p. 41.
98
Heidegger vive uma intensa crise existencial, que incluía também as preocupações financeiras. Seguindo o conselho dos autoiores, abandona a idéia de tornar-se sacerdote e a formação teológica. Os versos de um poema que ele escreve, na primavera de 1911, intitulado Auf Stillen Pfaden, exprimem a intensidade de sua crise (HEIDEGGER, M. Auf Stillen Pfaden. In. Reden und andere Zeugnisse eines Lebensweges, p. 16).
99 Cf. HEIDEGGER, M. Lebenslauf (Zur Habilitation 1915), p. 38. Até 1913, Heidegger estuda intensivamente
matemática e ciências naturais, cursando também geometria, cálculo, álgebra, física e química. Isso explica seu conhecimento avançado de autores como Galileu, Newton, Einstein, Planck, conforme constatamos nos primeiros trabalhos.
matemática. As Logische Untersuchungen influenciaram seus trabalhos posteriores, como ainda veremos. Entretanto, foi impedido pelas dificuldades financeiras100.
Durante os estudos de doutoramento, o filósofo conjuga estudos de teologia com C. Braig, matemática e filosofia. Todavia, convém ressaltar que os estudos matemáticos e o interesse pelos neokantianos não impediram Heidegger de trilhar um percurso filosófico católico de orientação aristotélica e neo-escolástica101. Para tanto, recebeu subsídio da Igreja católica, que fornecia bolsa aos estudantes interessados na escolástica102. É o que expressa claramente seu projeto, ao escrever para a Fundação em honra a S. Tomás de Aquino:
O submisso abaixo assinado pensa em poder agradecer sempre ao reverendíssimo cabido da catedral pela sua valiosa confiança, pelo menos dedicando o trabalho científico de sua vida a tornar fluído o pensamento depositado na escolástica pela batalha espiritual do futuro em torno do ideal de vida católico-cristã103.
Em 1916, lecionou pela primeira vez filosofia neo-escolástica na cadeira de filosofia católica em Freiburg.
Por meio da escolástica, Heidegger apropria-se da tradição, sobretudo da sabedoria e da mística, como forma de combater o relativismo e a volatilidade dos valores da modernidade. De acordo com Safranski, a “objetividade da lógica e o autoritarismo da fé são para ele a mesma coisa, modos diferentes de participar do eterno”. Nessa época, lógica formal e matemática eram uma espécie de serviço religioso. Pela lógica se entra na “disciplina do eterno, uma espécie de apoio no vacilante chão da vida”104. Na Idade Média, o pensamento cristão demonstrou uma força capaz de determinar toda a vida histórica. Isso impulsionou seu projeto ontoteológico.