Ao classificarem as ideias acerca do tema vantagem competitiva, Vasconcelos e Cyrino (2000) remetem-se, num primeiro momento, à Escola de Posicionamento que teve Porter (1989) como autor de grande destaque e influência. Nessa perspectiva, os autores ressaltam que os níveis de desempenho empresarial poderiam ser explicados prioritariamente por fatores externos à organização e por seu posicionamento de mercado, deixando num segundo plano a associação das questões afetas à a gestão de pessoas ao desempenho empresarial. O comportamento organizacional, nesse contexto, teria tão somente o papel de reforçar o posicionamento de mercado que maximizaria a rentabilidade da organização.
Vasconcelos e Cyrino (2000) destacam, contudo, que as perspectivas mais recentes relacionadas à vantagem competitiva colocam em posição de destaque os recursos e as dinâmicas internas às organizações como determinantes de patamares superiores de desempenho empresarial. Os autores argumentam a existência de uma crescente convergência entre os temas relacionados à estratégia e à teoria das organizações, o que traz amplas implicações sobre a gestão de pessoas que passa a ser considerada uma função de destacada importância para o entendimento e obtenção de níveis superiores de resultados organizacionais.
De acordo com Mascarenhas (2013), o desempenho da organização depende dos recursos que ela possui e que a permitem implantar estratégicas diferenciadas. Para o autor, a teoria dos recursos busca compreender a diferença entre a performance das firmas. Segundo a teoria dos recursos, firmas de um mesmo setor tendem a apresentar desempenho econômico distinto, e isso acontece porque elas detêm e exploram recursos e capacidades internas heterogêneas, o que as posiciona em patamares diferentes de resultados.
Quanto à origem da teoria dos recursos, Mascarenhas (2013) afirma que a partir das décadas de 1960 e 1970 já se discutia as organizações como conjuntos únicos de recursos produtivos integrados ao longo da história organizacional (PENROSE, 1995) e como detentoras de competências distintivas que deveriam ser exploradas para a obtenção de vantagem competitiva (ANDREWS, 1971).
Quanto ao conceito de recursos, Barney (1986) afirma que não inclui apenas os recursos físicos ou financeiros, mas abrange também os intangíveis. Assim, o autor apresenta a ideia de que recursos e capacidades podem ser classificados em financeiros, físicos, humanos e organizacionais.
De acordo com a visão baseada em recursos ou resource-based view (RBV), uma organização possui vantagem competitiva num dado mercado quando a sua estratégia possibilita a criação de valor econômico, ao passo que as outras empresas não estão engajadas em ações similares. Tal vantagem competitiva pode ser considerada como sustentável a partir do momento que não se faz mais possível ou desejável por outras firmas replicar a estratégia da primeira. Nessa perspectiva, a vantagem competitiva de uma organização estaria relacionada a um estado persistente de heterogeneidade de recursos, que não poderiam ser copiados ou transferidos (BARNEY, 2002).
A teoria dos recursos sugere que a vantagem competitiva é encontrada primeiramente no conjunto de recursos e competências sob controle das organizações e, secundariamente, na estrutura das indústrias onde elas se posicionam (WERNERFELT e MOTGOMERY, 1986; RUMELT, 1991 apud MASCARENHAS, 2013). Barney (2002) complementa essa visão ao afirmar que a vantagem competitiva vem, primeiramente, dos recursos estratégicos que, segundo ele, são aqueles considerados valiosos, raros, de difícil ou custosa imitação e substituição, além de bem gerenciados pela organização. Esses quatro pré-requisitos compõem um modelo de análise denominado VRIO.
Segundo Mascarenhas (2013) o primeiro pré-requisito trata da questão do valor, e liga a análise interna dos pontos fortes e fracos da organização à análise das oportunidades e ameaças externas. Diz respeito à capacidade de determinado recurso permitir que empresa responda adequadamente a oportunidades e ameaças do ambiente de competição. A questão que se faz é se o recurso detido pela organização permite implantar estratégias que ofereçam valor ao mercado.
A identificação dos recursos e as capacidades valiosos de uma empresa pode ser feita a partir da análise de sua cadeia de valor, ou seja, do conjunto de atividades que desempenha para desenvolver, produzir e comercializar seus produtos ou serviços. Estágios distintos na cadeia de valor tendem a requerer diferentes tipos de recursos e capacidades, e diferenças de escolhas na cadeia de valor das
organizações podem gerar diferenças entre os recursos e capacidades desenvolvidos e controlados por empresas diferentes. (BARNEY; HESTERLY, 2011).
Os segundo pré-requisito, segundo Mascarenhas (2013), diz respeito à raridade do recurso. Nesse contexto, os recursos que trazem vantagem competitiva para a organização são aqueles que possibilitam a implantação de uma estratégia de criação de valor que não é empregada por outras organizações simultaneamente.
Recursos e capacidades valiosos e não raros podem ser fontes apenas de paridade competitiva, sendo que deixar de investir nesses recursos pode criar desvantagem competitiva para uma organização (BARNEY, 1991).
O terceiro pré-requisito está relacionado à possibilidade de imitação ou substituição do recurso. Além de ser valioso e raro, determinado recurso só pode continuar a ser considerado estratégico caso outros competidores não possam imitá- lo perfeitamente ou substituí-lo. Nesse sentido, a vantagem competitiva de uma organização se sustentará apenas se a estratégia da empresa se mantiver isolada de cópia por outras empresas (MASCARENHAS, 2013).
Por fim, Mascarenhas (2013) complementa que um recurso considerado valioso, raro e de difícil imitação ou substituição só será estratégico se a empresa estiver organizada adequadamente para explorá-lo. Para tanto, é necessária a atenção aos atributos organizacionais como cultura da empresa, estrutura organizacional e os sistemas de gestão de pessoas.
Considerando a natureza complexa e hipercompetitiva dos mercados, que estão em constante mudança e transformação, o fato de conhecer e gerenciar de forma eficiente recursos e capacidades poderá garantir, no limite, apenas vantagens competitivas temporárias às organizações (D’OLIVEIRA, 2014).
A partir dessa análise, é possível concluir que para que uma organização detenha vantagens competitivas sustentáveis ela deverá ser capaz de identificar as competências essenciais para o seu negócio e, mais do que apenas isso, estruturar- se para, dentre outros elementos, possuir um sistema de gestão de pessoas sustentado num modelo de aprendizagem organizacional que assegure a manutenção e constante aperfeiçoamento das competências essenciais que a diferenciam. Assim, torna-se de cunho estratégico buscar a adoção de um modelo de educação corporativa que favoreça a aprendizagem organizacional com foco na manutenção das vantagens competitivas da organização.