A pesquisa buscou compreender a dinâmica da institucionalização de uma prática social em um campo organizacional específico. Portanto, ela não explica, mas busca a compreensão mais ampla do fenômeno; ou seja, na linha weberiana, entendemos que não existe uma única explicação para o fenômeno, mas sim, condições que o possibilitam. Desta forma, a pesquisa teve uma finalidade descritiva e de compreensão do fenômeno.
Quantos aos meios utilizados para consecução da pesquisa, e levando em consideração que a escolha do método limita as conclusões, entendemos que uma pesquisa sobre a dinâmica da institucionalização de uma prática social poderia utilizar-se de uma gama de métodos. E, de acordo com Tolbert e Zucker (1999), surveys, questionários, pesquisa histórica, análise de
conteúdo, entre outros métodos, são boas alternativas. Todavia, é a triangulação de fontes e métodos que enriquece a pesquisa. No estudo de Scandura e Williams (2000), que buscou identificar tendências no uso de diferentes métodos de pesquisa em estudos organizacionais, os autores concluem que com a triangulação – conceito que vem de navegação e estratégia militar e que significa utilizar-se de diferentes métodos de coleta de dados –, pode-se chegar a melhores resultados. O uso de uma variedade de métodos na pesquisa pode resultar em mais robustas e generalizáveis conclusões, ou seja, maior validade externa. Não devemos perder de vista, entretanto, que o uso de diversos métodos tem a limitação de dificultar ou mesmo impossibilitar a replicação do estudo.
Nesse sentido, para cumprimento do primeiro objetivo específico da pesquisa e parte do segundo – especificados no item 1.1.1. –, utilizamos basicamente a pesquisa bibliográfica, uma vez que a literatura específica, que inclui livros, artigos e documentos públicos em relação às organizações do campo e também fora dele, puderam nos oferecer um entendimento da trajetória do movimento pela RSE, no mundo e no Brasil, e também da formação e estruturação do campo objeto do estudo.
Para cumprimento dos outros objetivos específicos da pesquisa, o meio básico foi a pesquisa de campo. A pesquisa de campo envolveu a observação direta no ambiente natural do fenômeno e também por meio da imprensa, pesquisa documental, que se refere à análise de documentos de acesso público e documentos restritos às organizações envolvidas, e entrevistas com representantes de diversas organizações que compõem o campo – como se verá no item 3.2.4.
Ainda, deve ser registrada a importância que teve na pesquisa, para cumprimento de seus objetivos, a utilização da pesquisa telematizada e da pesquisa documental.
Em relação à pesquisa telematizada, por um lado, os websites das organizações pesquisadas puderam, muitas vezes, sinalizar a inserção da organização no movimento pela RSE e também a forma como ela entende e trata o fenômeno. Por outro lado, em relação às provas e fatores críticos para a institucionalização da prática, após a pesquisa bibliográfica, a pesquisa de documentos na Internet muito nos auxiliou, uma vez que as provas, em geral, têm websites estruturados como, por exemplo, os Princípios do Equador, o Pacto Global, o GRI, e assim por diante (EQUATOR PRINCIPLES, 2005; GLOBAL COMPACT, 2005; GRI, 2005).
Em relação à pesquisa documental, os informativos internos, estatutos, normas e políticas relacionadas ao tema foram uma fonte rica de informações. Outro documento muito utilizado foi o balanço social das organizações, que tem a capacidade de refletir a institucionalização da prática e dos discursos relacionados. O Balanço Social dos Bancos, preparados pela Federação Brasileira das Associações de Bancos (Febraban), foi um documento amplamente utilizado, por retratar o movimento no Campo como um todo.
3.2.1.1 Perspectiva temporal
O Campo foi investigado a partir de sua gênese no Brasil visando, além da compreensão de sua estrutura, averiguar-se o momento em que a RSE passa a fazer parte das preocupações e investimentos de suas organizações. Todavia, uma vez que a pesquisa evidenciou que o fenômeno é relativamente novo, se não considerarmos as ações filantrópicas, que existem há muitos anos, a análise recaiu, principalmente, nos últimos dez anos, quando teve impulso o processo de institucionalização da RSE – o que era outra suposição da pesquisa, ora confirmada.
Desta forma, em relação à perspectiva temporal da pesquisa esta foi seccional com perspectiva longitudinal, uma vez que houve interesse no desenvolvimento do fenômeno ao longo do tempo, mas o foco se deu nos últimos dez anos e também em alguns momentos históricos desse desenvolvimento, nos chamados incidentes críticos, que marcaram a história do fenômeno e que, de certa forma, possuem relevância na sua atual configuração (VIEIRA, 2004). A coleta de dados foi feita entre os anos de 2003 e 2005 (até março, basicamente), com diversas fases, como se verá no item 3.2.4.
3.2.1.2 Nível e unidade de análise
O nível de análise é o campo organizacional, uma vez que o objeto central de interesse da pesquisa é sobre um conjunto específico de organizações – e não sobre organizações isoladamente. Apesar disto, para ilustrar aspectos que querermos evidenciar, muitas vezes recorremos a casos específicos. Todavia, a pesquisa não pretendeu realizar um estudo de múltiplos casos, mas uma análise transversal das organizações pesquisadas, no sentido de buscar nas especificidades o padrão desenvolvido no campo.
A unidade de análise são os atores que compõem o campo estudado – organizações, associações e também pessoas que ocupam posição de destaque e influência no Campo, como foi o caso de vários entrevistados, como presidentes e diretores das organizaões, alguns com décadas atuando no Campo e, portanto, com legitimidade para falar em seu nome. A seguir apresentamos a definição constitutiva e operacional das principais categorias utilizadas no estudo.