Em 23 de junho de 1944, uma Comissão da Cruz Vermelha, liderada por Maurice Rossel,
veio para averiguar se os judeus dinamarqueses estavam sendo bem tratados em Terezín. Antes
da visita, planos foram meticulosamente elaborados pelos SS: a rota exata percorrida pela
Comissão e as atividades que seriam apresentadas a eles. Algumas pessoas de Terezín foram
movidas e aglomeradas, desocupando seus espaços para criar a ilusão de que os dinamarqueses
tinham luxuosos alojamentos. Ao invés da usual treliche, aos dinamarqueses foram dadas camas
individuais.
A Cruz Vermelha insistia no fato de que as crianças deveriam ser educadas. “A velha
escola, que ficava próxima do escritório de engenharia e que até então servira de hospital, foi pintada e recebeu carteiras escolares”. Para resolver o problema da falta de alunos, um aviso foi afixado na porta: “Fechada para férias”. Antes da visita, diversos caminhões de comida foram mandados para o campo pela Cruz Vermelha e distribuídos aos prisioneiros (BRENNER,
2014, p. 293-294).
Antes da inspeção, os detentos foram obrigados a embelezar o campo ao longo do
caminho por onde a Comissão iria passar, assim, um relatório favorável poderia ser escrito. O
parque da praça central foi equipado com aproximadamente 73 bancos, oferecendo descanso a cerca de 360 pessoas. Também foram colocadas placas indicando “Banco”, “Cafeteria”, “Banheiros”, “Correio” etc. Os letreiros das falsas lojas (perfumaria, drogaria, produtos alimentícios, sapatos, roupas, lingerie) foram renovados, as vitrines foram decoradas e fixados
vários cartazes de propaganda. Da noite para o dia, as vitrines se encontraram cheias de carne,
frutas, legumes e linguiça, mas os detentos não tinham permissão para consumir nada.
Os doentes, especialmente as 1.200 pessoas contaminadas com tuberculose, portadores
embarcados nos transportes para o Leste ou forçados a ficar trancados, além da vista da
Comissão. Cerca de 7.500 prisioneiros foram deportados para Auschwitz-Birkenau antes da
inspeção.
O diário de Pajík contém suas impressões sobre os preparativos para a visita da Comissão
da Cruz Vermelha:
17 de junho de 1944: Papai e eu andamos através de Terezín e nós nos admiramos com a relativa beleza dessa cidade. Quando eu penso sobre minha chegada em Terezín, e Terezín naquele tempo e agora, eu concluo que houve uma tremenda mudança. Há bancos em todo lugar, as casas estão arrumadas etc. Por outro lado, quando eu vejo através das janelas da Kavalírka [um prédio para moradia dos anciãos], as pessoas – os idosos, todos amontoados – a impressão correta de Terezín retorna. Para os nazistas isto é apenas um mero detalhe. A Comissão ordenou que as crianças deveriam ser regularmente instruídas e que nós temos de ter vegetais e outros benefícios duas vezes por semana (GRUENBAUM, 2004, p. 44, tradução nossa).
No dia da visita, diversos grupos de música se apresentaram. Uma produção de ópera
infantil, de autoria do compositor checo Hans Krása (1899-944), detento de Terezín, chamada
Brundibár, foi apresentada e, depois, os garotos se divertiram em uma partida de futebol. A programação de atividades dos nazistas dava ao campo um semblante de normalidade.
As anotações realizadas nos diários de Pajík e Mísa relatam os preparativos para a
inspeção, as mudanças ocorridas no campo e a visita propriamente dita.
21 de junho de 1944: Na sexta-feira haverá a chegada da Comissão. O que está acontecendo ninguém pode acreditar. Apartamentos bonitos, Epstein [o administrador judeu] recebeu um carro, as crianças devem cantar, e nos escritórios há o aviso: ‘Não fume durante o trabalho’. Rahm [o Comandante SS] está completamente mudado. 23 de junho de 1944: Este é o Dia da Comissão.... Hoje o almoço está sendo servido entre 10:00 e 12:00. Nós temos língua, purê de batatas, cebolas e salada de pepino. Os números dos transportes não existem, Epstein está dirigindo seu próprio carro etc. Há um Apell [chamada] para instruir cada pessoa sobre seu quarto e mais algumas perguntas etc. A Comissão já está dentro. Epstein está liderando a Comissão. As crianças devem gritar, “Onkel Rahm, schon wieder Sardinen”, que significa, “Tio
Brundibár [a ópera infantil] está sendo apresentada por todo o dia. A banda também
está tocando. Haindl e Bergel, os oficiais da SS, usam roupas de civis. Na basta [área gramada entre os muros], há partidas [de futebol] ocorrendo e todos estão esperando pela Comissão. Os entregadores da padaria usam luvas. Todas as pessoas estão observando a Comissão da Cruz Vermelha. A Comissão está no correio e é esperada na escola. Nós somos forçados a ler. Os visitantes irão apenas ver a Sala 1.
[Mísa]: Depois que o pessoal da Cruz Vermelha foi embora, as latas de sardinhas foram tiradas de nós (GRUENBAUM, 2004, p. 44-45, 85, tradução nossa).
Infelizmente, a Cruz Vermelha dinamarquesa acreditou no teatro comandado pelos nazistas em Terezín. “Ali estavam sentadas as pessoas especialmente escolhidas para a
encenação – homens, mulheres e crianças cujos rostos não estampavam as agruras da vida no
gueto” (BRENNER, 2014, p. 302).
Depois da inspeção, muitos artistas que haviam trabalhado duramente para embelezar o
campo e criar espetáculos musicais para a Comissão foram enviados a Auschwitz e
assassinados. Hans Krása foi um deles, assassinado em 17 de outubro de 1944. Alheio à
situação, o relatório da Cruz Vermelha foi positivo.
Em abril de 1945, a Cruz Vermelha realizou outra visita. Ela também foi relatada por
Pajík em seu diário:
13 de abril de 1945: Uma Comissão foi esperada em março, similar àquela da última primavera. Está sendo realizada com um rigor ainda maior. Novamente as calçadas são esfregadas. Finalmente o dia da Comissão chegou. Novamente o mesmo espetáculo começa como antes (GRUENBAUM, 2004, p. 45, tradução nossa).
Alguns dos artistas que haviam sido protegidos anteriormente foram deportados ou
assassinados quando os alemães descobriram que eles haviam produzido imagens que
mostravam a real condição de vida em Terezín, e que alguns desses trabalhos haviam sido