Após sua formação na Bauhaus, Friedl trabalhou como artista e designer de interiores em
Berlim, Praga e Hronov, e como professora de arte para crianças judias e filhos de refugiados
políticos que não podiam frequentar a escola regular até 1942, ano em que ela e o marido foram
Ao receber sua convocação, Friedl começou a preparar-se para ensinar as crianças. Ela
tingiu lençóis para serem utilizados em peças de teatro e reuniu material de desenho e pintura.
Levou consigo tintas, pincéis, papéis e livros. Seu embarque foi marcado para as 4 horas da
manhã do dia 16 de dezembro de 1942. No dia seguinte, ela chegou a Terezín, juntamente com
mais de 650 pessoas. Friedl recebeu o número 548 e Pavel 549. Desse transporte, sobreviveram
52 pessoas.
De acordo com Wix (2010), o trabalho de Friedl como artista e designer abrange três
fases. Da primeira constam os trabalhos como estudante em Viena e na Bauhaus (1916-1923),
caracterizados pelos estudos de contraste e forma, muitas vezes feitos a carvão sobre jornal. A
grande massa de seus trabalhos desse período consiste em estudos de luz e sombra e retratos
executados com maestria no que se refere à forma e à cor. Parte fundamental de seus estudos
na Bauhaus também foram os exercícios rítmicos, de composição e livre expressão, que Friedl
viria a utilizar com seus alunos em Terezín. Neste período, Friedl e seu colega Franz Singer,
que também havia acompanhado Itten de Viena para a Bauhaus, iniciaram a produção de
diversas peças de teatro para alguns dramaturgos conhecidos, entre eles o alemão Bertold
Brecht.
A segunda fase (1923-1931) é caracterizada por seu trabalho profissional em ateliê, com
produção de arquitetura, design de interiores e desenho têxtil. Os trabalhos produzidos por
Friedl neste período refletem a educação advinda das oficinas de tecelagem, encadernação,
desenho, teatro e gravura da Bauhaus. Com o apoio do sócio Franz Singer, Friedl abriu uma
oficina de arte e artesanato em Berlim. O trabalho de ambos estava focado na produção de
tecidos, rendas, jogos, brinquedos, joias, encadernações e artes gráficas.
Em 1925, Friedl retornou à Viena, onde iniciou um ateliê para produção de desenho têxtil
e encadernação. Ela desenhou e produziu estofamentos, tecidos para cortinas, toalhas de mesa,
de arquitetura e design de interiores obtendo clientes importantes como o Vienna Tennis Club
(1928) e a escola Montessori Kindergarten (1930). Friedl também produziu bolsas de mão,
estofamentos e mobiliário para clientes particulares e empresas.
Sua terceira fase, que engloba o período antes e durante sua deportação para Terezín, até
sua morte em Auschwitz (1931-1944), é um retorno à pintura marcado por imagens de flores,
paisagens e retratos de amigos com maior carga emocional. Ela também foi contratada para
ensinar arte para os professores do jardim de infância de Viena neste período. De acordo com
Makarova (1999), nesta ocasião Friedl teve a oportunidade de aplicar o sistema de ensino
aprendido com Itten.
Em 1934, durante os tumultos de fevereiro em Viena, Friedl foi presa e acusada de
atividades antifascistas e de ser membro do Partido Comunista. Após sua liberação, Friedl fugiu
para a Checoslováquia (Praga), que até então era um país livre e vivia sob regras democráticas
e de apoio aos refugiados políticos. Ela permaneceu em Praga até 1938. Os trabalhos desse
período fogem um pouco do Construtivismo da Bauhaus para dar lugar a uma pintura mais
figurativa que irradia sua poética. Essas pinturas foram um caminho para a artista compreender
sua experiência. Seus autorretratos sugerem angústia e vulnerabilidade. Mostram a artista com
medo, curvada e metaforicamente ensanguentada (WIX, 2010).
Estes trabalhos profundamente subjetivos mostram o sofrimento da artista, a melancolia, e uma iniciativa corajosa em mudar sua visão sobre a arte e a educação. Pintar a si mesma [...] pareceu introduzir Dicker-Brandeis em uma compreensão mais profunda da arte como veículo para a compreensão psicológica (WIX, 2010, p. 17, tradução nossa).
Em seu apartamento em Praga, Friedl criou um estúdio e começou a ensinar crianças
Áustria, entre elas Georg Eisler e Edith Kramer77. Ela se tornou, de acordo com Makarova
(1999), uma fonte de inspiração para as crianças.
A notícia da destruição de seu ateliê em Viena pelas tropas nazistas e de quase tudo o que
Friedl projetou e construiu teve pouco impacto sobre ela, que neste momento estava preocupada
com suas crianças, sua arte e a política.
No verão de 1938, Friedl e Pavel mudaram-se para Hronov, uma pequena cidade na
fronteira com a Polônia, a nordeste de Praga. Em dezembro de 1942, Friedl recebeu a
convocação para o transporte para Terezín.
Ao chegar a Terezín, Friedl foi encaminhada ao Departamento Técnico, uma espécie de
escritório de engenharia responsável pelos desenhos técnicos do gueto, mas que na verdade era
utilizado para trabalhos artísticos. O Departamento contava com o apoio de artistas que
documentaram artisticamente, de forma clandestina, o cotidiano do campo. No entanto, Friedl
preferiu passar seu tempo com as crianças e mais tarde ensiná-las.
Em seus meses de confinamento em Terezín, a artista aproveitou a vista de sua janela
como tema para suas obras. As pinturas realizadas a partir da vista da janela do terceiro andar
do alojamento L410, onde ela e o marido viviam em Terezín, retratam as montanhas além das
fortificações do campo. Ela também pintou paisagens, flores, figuras humanas, cenas de rua,
nus, composições abstratas e esboços de produções de teatro. Muitas de suas pinturas do período
de confinamento em Terezín não foram finalizadas pela escassez de materiais.
Segundo Makarova (1999), em suas pinturas, Friedl escolheu não representar o mundo
em que estava vivendo, com transportes, filas para a sopa, multidões e nem corpos pelo chão.
Dessa mesma forma, Friedl chamou a atenção para outros aspectos do campo, desviando o
pensamento das crianças de toda a crueldade daquela situação. Nesse aspecto, sua produção
77 Georg Eisler era filho do compositor Hans Eisler. Ele se tornou um pintor ligado à escola de Oskar Kokoschka.
não se aproxima dos trabalhos realizados pelos demais artistas de Terezín que tão logo
entenderam que sua missão seria documentar os horrores do campo. Para esses artistas, a pintura
era uma forma de resistência e tentativa de sobrevivência espiritual. Friedl havia encontrado
essa força nas próprias crianças.
Friedl podia enxergar e expressar muito mais do que apenas os muros que a cercavam.
Ela sabia que, mesmo confinada em Terezín, poderia encontrar liberdade no uso de suas tintas,
pincéis ou pastéis. Para Salamon (2004), no campo de concentração, desafiando o contexto
concentracionário, suas pinturas tornaram-se coloridas novamente.
Em 28 de setembro de 1944 Pavel foi convocado para o transporte que o levaria até
Auschwitz, onde ele sobreviveu. Friedl acreditava que seu marido havia sido levado para morte
e decidiu não continuar mais a viver. De acordo com Makarova (1999), ela voluntariou-se ao
transporte. Antes de partir ela se preparou distribuindo livros e reproduções de obras de arte
entre seus estudantes. Friedl foi deportada em 6 de outubro de 1944 e executada três dias depois,
em Auschwitz-Birkenau.
Friedl deixou Terezín pela manhã num transporte com 1.550 pessoas, a maioria crianças
e mulheres. Havia lactentes também. Trinta e seis estudantes de Friedl estavam neste transporte,
acreditando que iriam para um campo de trabalho. Uma dessas pessoas, Maria Vitivcová, que
sobreviveu, relatou que o transporte chegou a Auschwitz no dia 8 de outubro, domingo, à noite.
Como as câmaras de gás já haviam processado sua cota diária, os passageiros tiveram que
esperar até a manhã seguinte. O Dr. Mengele selecionou 190 mulheres de aproximadamente 20
anos de idade dos dois primeiros vagões. No dia seguinte, 9 de outubro, o restante foi