No contexto da educação musical, podemos apontar a educação popular como forma de contribuir para a formação construtiva do educando, junta-se a luta de inclusão da
música no currículo escolar. A educação popular trava nesse campo educacional, uma luta árdua, na perspectiva da promoção da garantia do acesso, permanência e sucesso das classes populares à educação de qualidade para todos, em que a escola pública seja o alvo dessa transformação.
Entendemos educação popular como uma teoria de múltiplas práticas educativas, saberes, que buscam a emancipação dos sujeitos, baseada no diálogo, a partir da realidade das culturas. Uma educação comprometida com a libertação visando desenvolver o ser humano em todas as dimensões. Nesse contexto que a educação musical pode estabelecer um diálogo através da musicalização buscando compreender as dificuldades de aprendizagem de um modo geral, seja ela especial ou não, num projeto comprometido com a valorização do ser humano para a sua conquista pessoal e coletiva.
A educação popular é uma alternativa político-pedagógica para confrontar-se diante dos projetos educacionais promovidos pelo Estado, as quais não condizem aos interesses das classes populares. Surgida nos movimentos populares, a educação popular busca proporcionar ao homem uma ação de reflexão e de crítica, para que a classe menos favorecida economicamente possa sair da opressão em que se encontra, diminuindo, assim, os impactos sociais e dando voz aos sujeitos que se encontram em estado de opressão.
Muitas das iniciativas de educação promovidas pelo Estado não possuem a preocupação de valorização da cultura popular, daí ser denominada por Paulo Freire de educação “bancária”, pautada sob a narração de conteúdos alienados, sem função crítica e reflexiva, em que fica de fora a realidade do cotidiano do sujeito, levando assim à mecanização do conteúdo narrado, remetendo esse sujeito à exclusão, por falta de acesso aos bens culturais, do saber sistematizado.
A educação bancária anula a criação dos educandos, fazendo-os sujeitos sem uma visão crítica, seres ingênuos, manipulados pelos seus opressores que preservam a situação de manutenção do “bem estar”, indo de encontro a qualquer tentativa de educação que estimule o pensamento crítico da realidade, de modo que, para Freire (2005, p. 69):
[...] o que pretendem os opressores “é transformar a mentalidade dos oprimidos e não a situação que os oprime”, e isto para que, melhor adaptando-os a esta situação, melhor os dominem.
Para isso se servem da concepção e da prática “bancária” da educação, a que juntam toda uma ação social de caráter paternalista, em que os
oprimidos recebem o nome simpático de “assistidos”. São casos individuais, meros “marginalizados”, que discrepam da fisionomia geral da sociedade. “Esta é boa, organizada e justa. Os oprimidos, como casos individuais, são patologia da sociedade sã, que precisa, por isto mesmo, ajustá-los a ela, mudando-lhes a mentalidade de homens ineptos e preguiçosos”.
Os princípios de luta das classes populares é não incorporar-se a estrutura que lhes oprime, ao contrário, transformá-la para que se tornem sujeitos de seu pensar e agir. A concepção e a prática da “educação bancária” dificultam o pensamento autêntico e crítico, pois o pensamento do educador só é autêntico na autenticidade do pensamento dos educandos, sendo esses saberes mediados pela realidade.
É nesse sentido que, através do conhecimento e das práticas do cotidiano do educando, o educador musical pode e deve trabalhar os parâmetros sonoros, respeitando as diferenças e diversidades que cada um apresenta. Através desses parâmetros, podemos direcioná-los para a linguagem oral, escrita, para a socialização, de forma multidisciplinar, contribuindo para a construção do sujeito participativo, dinâmico e transformador.
As classes populares reivindicam hoje uma escola pública que não seja apenas a extensão da escola burocrática do Estado, mas, que seja um espaço para discutir a função social dessa escola, colocando em questão os seus conteúdos e sua gestão. Esse movimento que se aflora, não nega o papel do Estado como sendo o principal articulador das políticas sociais, o que se questiona são as políticas públicas que se fundam numa concepção da educação burguesa, expulsando das escolas os diferentes. Hoje, esse movimento está reivindicando autonomia para a definição de um o novo projeto político-pedagógico para a escola pública, sob o prisma de um ensino democrático na sua estrutura, na mentalidade dominante, nas relações pedagógicas e nos produtos dos processos educacionais, pois a escola pública popular tem que ter a capacidade de definir seus projetos sem a intervenção do Estado, como expressa Rodrigues (2006),
O termo democracia encontra-se tão presente no discurso político, que chega a perder de vista seu significado autêntico. No entanto, se buscarmos o seu real significado, percebemos uma distorção em seu uso. É comumente utilizado para indicar ação aberta, avançada, liberal, defendendo ideário liberal, centrado na predominância dos interesses individuais e da propriedade. Tende, na verdade, a um extremismo esvaziado de conteúdo social. Mas, a necessidade da democracia é tão
almejada pela sociedade contemporânea que o conceito vem sendo revisto e ampliado. [...] historicamente, a luta por uma escola democrática sempre esteve baseada em muitas teorias, concepções e propostas que têm contribuído para que a educação se torne um dos caminhos para a democratização e transformação social.
É nesse contexto que muito dos movimentos sociais desejam participar como parceiros de elaboração de políticas sociais junto ao Estado, sem, contudo abrir mão de sua autonomia.
Em síntese, a educação popular pode ser utilizada como um instrumento de luta pelas classes subalternas e pelas pessoas com necessidades educativas especiais, objetivando promover a inclusão e a ruptura da segregação, da marginalização e da idéia de “coitadas”. É preciso reagir, construindo uma educação comprometida com a dialogicidade, a fim de desenvolver o ser humano em todas as dimensões da reflexão crítica do pensar. Por isso, a escola pública popular é o ponto de partida para que as classes subalternas e as pessoas com deficiência possam construir uma vida melhor, mais digna, vivenciando a inclusão de todos em que não seja preciso se trabalhar pela inclusão por existir exclusão.
CAPÍTULO III