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É preciso mencionar, mesmo de forma breve, a relação entre educação e cultura no interior da escola e sua interação com o meio social.

Nesse sentido, ao tomarmos a escola como locus de produção, circulação e reprodução cultural, lugar, portanto, de conflito, localizamos na obra de Thompson (1998) um conjunto bastante fecundo de conceitos, noções, premissas e hipóteses capazes de conferir à escola e a seus agentes um papel destacado na organização da cultura (TABORDA, 2008, p. 150).

Nessas relações, Salvador (1971) interpreta a educação como síntese da cultura e consiste especificamente no desenvolvimento de aptidões e predisposições internas do indivíduo, quer em relação a si mesmo, quer em relação à sociedade ou à vida em geral. Esse desenvolvimento pode ser realizado por intermédio de atividades e práticas educativas ou mediante os contatos com as conquistas culturais. Com esse propósito, os bens culturais são sistematizados conforme os fins educacionais, o nível espiritual e mental de quem as aprende, uma vez que a educação condensa e sistematiza os bens culturais, convertendo-os em leis formativas. Tal tarefa cabe especificamente a um dos processos de educação, que é o ensino, pois por intermédio dele, pessoas são educadas e assuntos são ensinados.

As “matérias disciplinares, organizadas em planos de estudo, nada mais são do que bens de cultura transformados em bens de formação” (SALVADOR, 1971, p. 185). Dessa forma, a formação do operário em Rio Tinto visava à transmissão da cultura de fábrica por intermédio da educação sistematizada pelo SENAI com fins de disciplina e controle.

Portanto, em sentido amplo podemos entender a educação como um processo de transmissão da cultura existente com objetivo de reproduzi-la e conservá-la. Sendo assim, “a educação consiste, em sua essência, na transmissão de uma civilização, numa pressão exercida pelas gerações adultas sobre as gerações jovens, a fim de que estas recolham e realizem os ideais que aquelas trazem consigo” (AZEVEDO, 1944, p.11).

Dessa forma, as contribuições de Thompson (1998) para a análise da educação profissional oferecida aos operários da CTRT nos levam a observar a cultura próxima ao sentido atribuído ao costume. Em uma conjuntura de Revolução Industrial, de reformas culturais e alfabetização em massa, as classes populares da Inglaterra utilizavam os costumes como instrumentos de lutas contra as classes dominantes.

Nessa perspectiva, a EACFL contribuiu para a formação de uma cultura que trouxe desdobramentos não esperados pelos industriais no que tange ao surgimento de uma consciência que, silenciosamente, contrapunha-se à classe dominante em seu cotidiano.

Logo, transitando entre o documental, procuramos analisar a experiência educacional dos operários da CTRT e reconstruir a história da EACFL no período compreendido entre 1944 e 1967, tentando adentrar ao seu cotidiano.

No empenho de analisar a instituição educativa ora em evidência nos apoiamos em Magalhães (2004, p. 142) quando afirma que “entre as facetas que permitem descrever, compreender e analisar as instituições educativas relevam: os espaços e a estrutura arquitetônica; áreas organizacionais; estrutura física, administrativa e sociocultural; identidade cultural e educacional”. Por esse caminho é importante ressaltar que:

As instituições educativas tal como deixam inferir a generalidade dos regulamentos internos e parte dos normativos externos, no que se refere ao

funcionamento e aos objetivos internos da instituição apresentam uma

estrutura física, uma estrutura administrativa e uma estrutura sociocultural.

(idem, p. 145, grifo nosso).

Ainda no que se refere ao funcionamento das instituições educativas é importante observar que:

A ação pedagógica carece, em regra, de uma validaçã o administrativa, para efeitos de creditação externa, pelo que, no plano histórico, frequentemente

se apagam e desaparecem as marcas de realização efetiva dos principais

atores (professores e alunos), sendo preservados, para efeitos de

certificação e controle, apenas os registros dos resultados pedagógicos

(termos, diplomas, certificados). Portanto um dos desafios que se colocam ao historiador é projetar e inferir, com base nesses registros e nesses

artefatos, a reconstituição dos modos de produção e o seu significado no

quadro dinâmico e integrado da instituição. (idem, p. 145, grifo nosso).

Na exposição fica claro que toda a produção oral da instituição desaparece no plano histórico, restando somente para efeito de certificação e controle os documentos que ainda podem servir de base para os pesquisadores inferirem a dinâmica e a evolução da escola. Como podemos perceber, a análise documental ora proposta é pertinente para esta pesquisa.

Ainda no interesse de situarmos o leitor em relação ao direcionamento desta análise, nos apoiamos nas contribuições de Pereira (2007, p. 86) interpretando Magalhães, quando expõe que:

A instituição escolar está alicerçada em tríplice estrutura ou dimensão: física

(o prédio, os seus espaços físicos, a sua configuração e a sua ocupação permitem ler a arquitetura pedagógica que está em jogo); administrativa: envolvendo as áreas pedagógica e didática, áreas de direção e de gestão com seus atores: professores, alunos e funcionários em interação; sociocultural, de produção e transmissão de cultura, de saberes e de formação, ou seja,

”conhecimentos a ensinar e condutas a inculcar”. (grifo original).

Dessa forma, mapeando as dimensões – física, administrativa e sociocultural – investigamos o presente objeto de estudo em sua historicidade e, com isso, inserimo-nos em sua cultura. A esse propósito Gonçalves (2006, p. 133, grifo nosso) observou que:

Conhecer a maneira como a escola se produziu nas relações cotidianas é voltar-se para o seu funcionamento interno, o lugar onde se faz, se realiza a escola. É nesse lugar que é possível apreender a cultura que ali se produziu ao longo do tempo histórico.

Então, conhecer a escola pela leitura dos seus documentos e funcionamento interno é conhecer uma parte de sua cultura e suas relações cotidianas.

Portanto, no que se refere ao funcionamento e aos objetivos internos da instituição apresentamos a seguir: a dimensão física, a dimensão administrativa que envolve a área pedagógica e a dimensão sócio-cultural da instituição escolar em análise.